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e as escolas regulares. Por isso, no início do semestre, tentei insistentemente iniciar observações em uma escola regular, localizada no bairro Serrinha. Essa escola foi escolhida por questões como: quantidade de moradores no bairro, perfil socioeconômico, índice de violência, quantidade de alunos da escola, dentre outras. Fui várias vezes à escola, falei com a diretora e com a coordenadora, levei declaração, fiz tudo conforme foi solicitado. Quando, enfim, começaria a ter contato com os alunos, a greve foi deflagrada. Tendo em vista minha formação na licenciatura, já tive oportunidade de estar em escolas regulares durante as quatro disciplinas, de prática do trabalho docente. Como elas serão meu parâmetro de comparação, o foco do estudo são as EEEPs, o prejuízo não foi tão grande. Para que a pesquisa qualitativa não fosse tão prejudicada durante a greve, consegui contato com alguns alunos de escolas regulares, do bairro Conjunto São Cristóvão. Organizei um grupo focal onde pude ouvir um pouco esses estudantes. Foi um grupo muito interessante. Vale ressaltar que uma das participantes é aluna de EEEP. Contrastar essas duas realidades em um mesmo grupo foi muito bom. Além dessa aluna da EEEP, eram dois de uma escola e três de outra, ambas regulares.

Destaco uma fala em que uma das meninas versa sobre a participação estudantil:

Menina: A maioria dos alunos, digo maioria porque é a maioria mesmo, são muito acomodados, eles estão indo para no final, no terceiro ano, receber um simples certificado, um certificado que só vai te levar até o mercadinho Mouro, somente, pra servir de escravo. E se a gente aceita as coisas calado, em relação à diretoria, aos alunos, a gente não tá agindo certo, porque a gente não é uns cachorrinhos pra eles dizerem ―assim, assim assado‖, e a gente tenha que cumprir, que obedecer. Não é assim. Gente deve, deveria ter o direito de chegar e ―Ah, isso aqui não tá certo‖, a gente ter como conversar (Trecho do grupo focal realizado no São Cristóvão com alunos matriculados no Ensino Médio de escolas regulares).

Eles falam bastante da apatia dos jovens. Um dos meninos faz parte do comando de greve estudantil. Logo que foi deflagrada a greve dos professores, os alunos iniciaram um movimento denominado: ―Unificou: agora é aluno e professor‖, no qual os alunos declaravam apoio à greve dos professores e enfatizavam pautas da reivindicação que atingiam diretamente os alunos, por exemplo, a melhoria na merenda escolar. Esse rapaz destacou na sua fala a apatia política e a despolitização de grande parte da população.

deflagrada, em quase todas as respostas os alunos colocavam a greve. Percebi que duas das meninas, embora dissessem compreender a situação dos professores, deixaram transparecer que achavam que a greve seria perda de tempo. Uma delas chegou a dizer ―com esse bafafá todo de impeachment, os professores acham mesmo que vão se importar pra eles‖. O menino que, como já falei, é bastante atuante, sempre estava na defensiva. Falando, por exemplo, quantos professores temporários foram demitidos, dados das manifestações, um discurso do movimento.

Os alunos da escola regular afirmaram que nunca ouviram a expressão protagonismo. Conduzi o grupo focal usando o termo participação estudantil, embora eu saiba que não é o mesmo conceito, é o que mais se aproxima na realidade das escolas. A menina da EEEP que participou do grupo sabia o que era protagonismo.

É um consenso entre os alunos da regular que não há incentivo à participação. Mais uma vez, o menino cita o exemplo da greve, diz que: alguns alunos foram chamados à atenção por estar à frente dos atos. Ele apontou isso como um exemplo do ―desincentivo‖ que a escola faz.

Menina1: Eu acho que um dos maiores medos do governo é que os alunos tenham voz, que realmente tenham vez. Eu acho que ele tem medo que a gente adquira conhecimento e realmente mude o mundo. Eles pregam por aí ―nós temos os melhores alunos, nós temos isso, nós temos aquilo‖, mas eles realmente não escutam o que a gente precisa, o que a gente pensa, o que a gente quer. Menina 2: Eles têm medo da gente falar, se eles escutarem eles estão ferrados‖ (Trecho grupo focal, realizado no São Cristóvão).

Assim como nos outros grupos focais, aparecem críticas à direção (entre os alunos das profissionais); eles dizem que os diretores e coordenadores não os ouvem e, quando eles tentaram se organizar, por exemplo, para ir aos atos que aconteceram antes da deflagração da greve, em apoio aos professores, eles desarticulam.

Em síntese, os alunos, embora sejam de duas escolas diferentes, concordaram em quase tudo. A maior diferença de opinião foi sobre o apoio à greve.

Durante o período da greve, quando fui à EEEP, encontrei duas alunas de uma escola regular do Conjunto Ceará, que haviam ido à escola para convidar os alunos a participarem de um ato que aconteceria na Assembleia Legislativa. Conversei um pouco com elas sobre protagonismo e, como era esperado, elas relacionaram bastante com a situação que estavam vivendo, a greve. Colocaram

que a greve, as ocupações19

, era um momento de pôr em prática esse protagonismo.

O grupo focal realizado com os alunos das escolas regulares trouxe um ponto discutido por Costa (2006): a participação do jovem na construção das políticas. No caso do grupo focal, a fala da aluna se refere à participação dos jovens na construção dos projetos da escola:

Menina1: Eles dizem, os diretores no caso, que estão procurando melhorias pra gente, projetos novos pra gente, sendo que não tem vez jovem naquele projeto pra dizer o que a gente pensa, o que a gente acha sobre aquilo, entendeu? Porque se é uma coisa pra gente, tem que ter a gente no meio, pra organizar (Trecho da transcrição do grupo focal realizado no São Cristóvão).

Nesse trecho, fica clara a reivindicação do jovem pelo espaço para atuação. Comumente se responsabiliza o jovem pela apatia, quando o jovem fala, ele lança a responsabilidade para outros. Enfim, quem é o culpado? Existe um culpado?

Benzer Belgeler