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2.3. VNC Sunucu

2.3.1.1 Kurulum

À vista do princípio da segurança jurídica, o ato jurisdicional passado em julgado deve ser intangível e, por consequência, gerar a situação da coisa julgada em favor do titular do direito reconhecido.

Sua previsão é encontrada no art.5°, XXXVI, da Constituição Federal: “a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada”. Embora a interpretação literal do dispositivo permita concluir que a coisa julgada atinge apenas o legislador, deve ela, por ser indispensável à afirmação da autoridade do Estado e à consolidação do Estado de Direito, também ser observada pela Administração Pública e pelo Estado juiz. Nesse contexto, a coisa julgada, uma vez produzida, terá por objetivo preservar o

poder de império do Estado. Entretanto, se considerado que também produzirá efeitos a favor daquele para quem se operou, a coisa julgada desdobra-se em uma outra dimensão, apresentando dupla funcionalidade.

Nesse sentido, são os ensinamentos de Luiz Guilherme Marinoni:

A coisa julgada, enquanto instituto jurídico, tutela o princípio da segurança em sua dimensão objetiva, deixando claro que as decisões judiciais são definitivas e imodificáveis. Frise-se que a coisa julgada expressa a necessidade de estabilidade das decisões judiciais.

Na outra dimensão do princípio da segurança jurídica, quando importa a proteção da confiança, a coisa julgada garanta ao cidadão que nenhum outro ato estatal poderá modificar ou violar a decisão que definiu o litígio. Neste sentido, sabe o cidadão que, uma vez produzida a coisa julgada material, nada mais será possível fazer para se alterar a decisão, e, assim, que o ato judicial de solução do litígio merece plena confiança.

Na verdade, a coisa julgada material é um verdadeiro signo da tutela da confiança do cidadão nos atos estatais. É, por assim dizer, um concreto ‘exemplo’ de proteção da confiança legitimamente depositada pelo cidadão nos atos de poder.

A coisa julgada, portanto, serve à realização do princípio da segurança jurídica, tutelando a ordem jurídica estatal e, ao mesmo tempo, a confiança dos cidadãos nas decisões judiciais. Sem a coisa julgada material não há ordem jurídica e possibilidade de o cidadão confiar nas decisões do Judiciário. Não há, em outras palavras, Estado de Direito.262

Instituto de Direito Judiciário Processual, a coisa julgada, conquanto decorra da concepção própria do Estado de Direito, não atinge o processo administrativo.

Considerando que o ato administrativo é, em princípio, revogável pela própria Administração Pública e o objeto da função administrativa é criar a utilidade do ato, aperfeiçoando-o constantemente com vistas ao melhor atendimento do bem comum – o que ocorre à vista da mutação do substrato social – o ato administrativo não possui a aptidão de transitar em julgado.263

Essa constatação, entretanto, não impede a estabilidade das situações jurídicas constituídas por atos administrativos. Desta forma, os atos administrativos podem se tornar definitivos em relação ao administrado, o que poderá acontecer, por exemplo, com o esgotamento das instâncias recursais.

O ato administrativo, em decorrência dos princípios que norteiam a atividade da Administração Pública, não se torna intangível para a própria Administração Pública, que pode revê-lo a qualquer momento.

262 MARINONI, Luiz Guilherme. Coisa julgada inconstitucional: a retroatividade da decisão de (in) constitucionalidade do

STF sobre a coisa julgada – a questão da relativização da coisa julgada. 2.ed. rev. e atual. São Paulo: RT, 2010, p.67-68.

263 Nesse sentido: MELLO, Oswaldo Aranha Bandeira de. Princípios gerais de direito administrativo: introdução. v.1. São

Paulo: Malheiros, 2007, p.636-637. Em sentido contrário: MERKL, Adolfo. Teoría general del derecho administrativo. México: Nacional, 1975, p.263-278.

Nesse sentido, são os ensinamentos de Oswaldo Aranha Bandeira de Mello:

Os atos administrativos podem se tornar definitivos com referência a terceiros, no sentido de lhes não caber mais, de direito, qualquer recurso contra eles perante a Administração Pública. A instância fica, então, preclusa para os particulares, que não podem mais impugnar a matéria decidida. Mas a ela cabe sempre conhecê-la, querendo, e, em virtude de petição dos interessados, revogar ou reformar o ato administrativo anterior.

Jamais se poderá opor a exceção de coisa julgada contra essa atitude assumida por órgão da Administração Pública. Isso porque a revogação ou reforma dos atos administrativos é inerente à atividade da Administração Pública, para alcançar e ampliar a utilidade pública, o interesse coletivo, segundo a oportunidade e conveniência do momento. Por isso, rejeitada, por exemplo, uma autorização de porte de arma, poderá, tempos depois, a mesma pessoa pleiteá-la.

Já o ato jurisdicional, transitado em julgado, não pode ser revogado ou reformado, quanto ao conteúdo da sentença, pelo juiz que a proferiu, mesmo convencido do erro da decisão, ou por outro órgão do Poder Judiciário, sem a provocação das partes interessadas na demanda, e nos estritos limites legais de sua competência revisional. E, se definitivamente transitado em julgado, sequer as partes podem pretender nova apreciação judicial da controvérsia.

Criada a situação jurídica da coisa julgada, torna-se inatacável a decisão sob o mesmo fundamento jurídico, relativo ao mesmo objeto jurídico e entre as mesmas partes jurídicas. Fica absolutamente imutável a situação jurídica afirmada com referência às próprias partes e seus sucessores jurídicos e às autoridades judiciais, tanto a que proferiu a decisão como qualquer outra. Só pode ser objeto de reexame nas hipóteses, especialíssimas, de ação rescisória ou de revisão criminal.264

Atento a essa peculiar característica, ou seja, à circunstância de que o ato administrativo não transita em julgado, o art.65 da Lei n°9.784/99 prevê a possibilidade de revisão, a qualquer tempo, de ofício ou a requerimento, dos processos administrativos já decididos e que resultaram na aplicação de sanção.

A revisão, vale destacar, tem por escopo alterar a situação jurídica decorrente de uma decisão definitiva na esfera administrativa, impondo uma nova fundamentação, mantendo ou não o ato cuja revisão foi pretendida.

Para que isso ocorra, ou seja, para que a revisão, que não se equipara a recurso, tenha cabimento, mister a ocorrência de fatos novos ou circunstâncias relevantes suscetíveis de justificar a inadequação da sanção aplicada.265

Fatos novos, nos termos do preceito em apreço, são dados e informações que não existiam à época em que proferido o ato, de modo que não será possível a revisão com

264 MELLO, Oswaldo Aranha Bandeira de. Princípios gerais de direito administrativo: introdução. v.1. São Paulo:

Malheiros, 2007, p.637.

265 Nesse sentido: MOREIRA, Egon Bockmann. Processo administrativo: princípios constitucionais e a Lei 9.784/1999).

4.ed. atual. rev. e aum. São Paulo: Malheiros, 2010, p.379). Em sentido diverso, caracterizando a revisão como recurso: NOHARA, Patrícia Irene; MARRARA, Thiago. Processo administrativo: Lei nº9.784/99 comentada. São Paulo: Atlas, 2009, p.413.

fundamento em fatos existentes à época mas que não foram alegados ou discutidos nos autos do processo administrativo.266

Interessante salientar que não basta a novidade do fato. Para justificar sua utilização, deverá o fato ser suficientemente apto a reduzir, ou até mesmo excluir, a punição.

Circunstâncias relevantes, por sua vez, dizem respeito a outras informações contextuais que, apesar de não estarem próximas ao objeto do processo, possuem aptidão para influenciar na revisão da sanção imposta.

Assim, havendo fato novo ou circunstância relevante, o processo administrativo poderá ser revisto e a sanção ser adequada à infração cometida, o que, no campo do processo administrativo de defesa do consumidor, se revela como um excelente mecanismo de tutela desse direito, habilitando inclusive a possibilidade da ocorrência da reformatio in pejus.

A bem da verdade, a reformatio in pejus não terá aplicação na hipótese de revisão do processo administrativo com fundamento no art.65 da Lei n°9.784/99. E isso se deve ao fato de que o texto do parágrafo único do art.65 da Lei n°9.784/99 expressamente veda sua ocorrência, de modo que a revisão não poderá acarretar o agravamento da punição.

A possibilidade da ocorrência da reformatio in pejus é reforçada pela ideia contida no art.65 da Lei n°9.784/99 no sentido de que o ato administrativo somente poderá ser considerado acabado quando de sua preclusão. Assim, se não precluso o ato administrativo, ou seja, se o mesmo for objeto de recurso, poderá a Administração Pública revê-lo em sua inteireza, ainda que disso resulte agravamento da sanção ao recorrente.

É essa, portanto, a colaboração do art.65 da Lei nº9.784/99 para a possibilidade de ocorrência da reformatio in pejus nos processos administrativos de defesa do consumidor, possibilidade esta que inclusive conta com o respaldo do Poder Judiciário.

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