José Francisco da Rocha Pombo já não era um menino quando se propôs a redigir a sua
História do Brasil, Ilustrada. Próximo de completar cinquenta anos de idade, no ano de
1905, o polígrafo paranaense aventurou-se no projeto de inventariar os caracteres que compuseram a experiência histórica brasileira. O estudioso já era conhecido, porém sem grande destaque em uma dimensão nacional, nos meandros do universo letrado da passagem do século XIX para o XX como professor19, jornalista20, escritor de romances
e de poesias simbolistas21, além de historiador. Não tendo êxito em seus planos políticos
em alavancar um centro universitário na região do Paraná, manifestos contundentemente em suas atuações nos periódicos da época, “foi embora de sua terra. Foi dar trabalho a sua espantosa tenacidade, erigindo, num esforço gigantesco, a mais ampla, completa e invejada ‘História do Brasil’” (Cf. PILOTO, 1953; SANTOS, 2009).
19 Cabe aqui a consideração encetada por Valfrido Piloto: “Professor desde os verdes anos, [sê-lo-ia] até
os últimos dias da longa existência, e [era] sempre no apostolado de ensinar, orientar, desbravar, que êle [fundava] jornais, [subia] à tribuna parlamentar, e [escrevia] obras”. Mesmo não tendo tido formação regular, era um autodidata, substituíra o seu pai no ensino público da região de Morretes. Foi lente de
história geral na Universidade do Povo, docente concursado no Imperial Colégio Pedro II e, também, na Escola Normal (PILOTO, 1953: 15; SANTOS, 2009).
20 Como jornalista, ainda com 20 anos de idade, iniciou-se em Morretes fundando o jornal O Povo. Dali
publicara artigos de teor político os quais assinalavam uma posição abolicionista, republicana lato sensu e em prol da causa da educação. Rumou à Curitiba ambicionando expandir as suas atuações nos jornais da época. Por esses tempos, década de 1880, escreveu para os periódicos Galeria Ilustrada e Echos do
Campo, bem como capitaneou o Diário Popular. Já nos anos 1890 compôs o corpo editorial do Diário do
Comércio, da Revista Cenáculo e do Jornal Aurora (Cf. PILOTO, 1953; SANTOS, 2009).
21 Enumeramos, a título de informação, algumas das principais realizações de Rocha Pombo juntos aos
espaços da literatura daqueles tempos: A hora do Barão (1881), Dadá (1882), A religião do belo (1883),
Visões (1882), Petrucello (1882), Contos e Pontos (1911). A sua peça formal simbolista No Hospício, de 1905, foi consagrada, logo em sua primeira edição, como um dos esforços mais representativos e destacados realizados em nosso país a partir daquela perspectiva estético-narrativa (Cf. SANTOS, 2009).
No entanto, e exageros a parte, até se mudar para a capital da República, em 1897, “ele não havia publicado ainda nenhum trabalho de cunho propriamente historiográfico, embora o seu interesse pela disciplina fosse antigo, como [atestavam] suas leituras, ainda jovem, de historiadores como Guizot, Renan, Taine e Vico” (SANTOS, 2007: 3; SANTOS, 2009). Foi a partir do interior dos referidos domínios que as suas pesquisas e os seus escritos despertaram, então, alguma atenção do IHGB, e antes mesmo do início da redação da sua História o estudioso tornou-se credenciado a adentrar, como um dos seus sócios efetivos, aos nobres salões daquela agremiação carioca fundada sob os auspícios do Imperador Dom Pedro II durante o ano de 1838.
Assim, na nona seção ordinária do ano de 1900 o Instituto, por meio da sua comissão de admissão de sócios e tendo como relator o Conselheiro Souza Ferreira, incluía Rocha Pombo em seus quadros oficiais. Antes disso, duas obras de sua autoria foram avaliadas para que tais propósitos pudessem ser alcançados: Compêndio de
História da América e O Paraná no Centenário (1500-1900), ambas publicadas naquele
mesmo ano. Eis o parecer emitido pela comissão quando da sua admissão: “[era] grato a Commissão declarar que na compendiosa obra do Sr. Rocha Pombo, [encontrava-se] um grande cabedal de pesquizas historicas e valiosos subsidios para a historia do nosso continente, a par de muita erudição por parte do seu autor” (COMISSÃO DE AVALIAÇÃO, 1900: 454). Cabe destacar que os argumentos do historiador, no primeiro livro acima mencionado, continham uma peculiaridade que demandou uma severa ressalva por parte daquela comissão, qual seja, o veto ao tracejado contínuo - considerado demasiadamente excessivo - de um estatuto político e societário existente do período colonial à República. Algo que não nos causa espanto hoje se considerarmos a experiência social do autor: defensor fervoroso, de longa data, do abolicionismo e daqueles ventos tidos como esperança de democracia com o advento do regime republicano. Aos olhos dos membros que avaliaram a pertinência, ou não, da sua entrada no IHGB, tais reflexões pareciam, no mínimo, despropositadas: “A comissão não [podia] absolutamente concordar com esta proposição tão contraria á verdade histórica e á mascula energia patriotica, de que deram provas a gloriosa geração da Independencia e as que lhe seguiram” (COMISSÃO DE AVALIAÇÃO, 1900: 453). Talvez pelo fato da instituição, mesmo após os acontecimentos de 1889, ainda apresentar fortes vínculos com uma espécie de “tradição monárquica” de leitura da história do Brasil e por tomar, em grande parte, o período do pós Independência política como o ponto cume da emancipação do sentimento de nacionalidade entre nós, as
reflexões saídas da sua pena, acerca de um evidente prolongamento da condição societária e institucional de Colônia no decorrer do Império, tivessem sido, em partes, interditadas22.
Doravante, destacada a referida ressalva, os espaços de trabalho do IHGB mostravam-se acessíveis às pesquisas históricas do estudioso, porquanto os “dous sobreditos trabalhos do Sr. Rocha Pombo, mesmo nestas condições, lhe [abririam] lugar distincto entre os mais operosos cultores das cousas patrias, e [constituía] valioso titulo para sua admissão no gremio [daquele] Instituto” (COMISSÃO DE AVALIAÇÃO, 1900: 455). Em suma, e de acordo com o parecer emitido, para além da questão política fomentadora de controvérsias, o fundamental nos seus trabalhos relacionava-se ao reconhecimento dos seus dotes eruditos e de compilação, faceta essa identificatória de um especialista no campo. É em meio a esse contexto de inserção entre aqueles que se autodenominavam historiadores stricto sensu que compreenderemos melhor, portanto, o significado do texto que aqui propomo-nos a discutir: A concepção moderna da
história. Reflexão que serviu como prefácio à sua História do Brasil, Ilustrada, obra
alinhavada a partir de dez tomos e publicados entre os anos de 1905 e 1917. Se existia um lugar apropriado para a defesa das suas pesquisas e das suas concepções teórico- metodológicas o espaço era aquele: um prefácio. François Hartog considerou essa instância narrativa substancial por apresentar-se como um locus em que qualquer estudioso poderia “acertar as contas” com os seus interlocutores; dali essas contas seriam “calculadas ou pagas, as dívidas [eram] reconhecidas ou negadas”. Nessas peças formais poder-se-ia, ainda, confessar ou ignorar “as relações com a instituição (em sentido preciso ou amplo) a qual [autorizava] ou dava crédito” às suas teses. Será possível constatar, no desenvolvimento deste capítulo, que o nosso autor cumpriu estritamente tais protocolos requeridos (HARTOG, 2001: 10-11).
Mesmo que João Ribeiro tenha caracterizado a História de Rocha Pombo como “prolixa”, “pesada”, “estéril”, e que provavelmente mostrar-se-iam “ilegíveis” os seus “dez ou doze grossos volumes”; duvidando muito, inclusive, “que o presente ou futuro lhe [dessem] um lugar conspícuo entre os nossos historiadores” - ou que faltava a ele “o senso crítico fora dos caminhos batidos pelos historiógrafos” -, (MARTINS, 1978: 25;
22 De acordo com Circe Bittencourt, Rocha Pombo ofereceu uma perspectiva acerca da colonização
enquanto um “saque”, com os europeus deturpando a cultura local; sendo que essa exploração resultou no completo extermínio da população ameríndia, Cf. BITTENCOURT, 1993. Para um mapeamento dos diferentes projetos políticos que estavam abrigados no IHGB dos primeiros anos republicanos, Cf. GOMES, 2009; HRUBY, Hugo, 2007; PASCHOAL GUIMARÃES, 2007.
SANTOS, 2009) o texto-prefácio em questão conferiu-nos, não obstante a isso, uma série de pistas acerca de certas características encontradas junto à teoria do saber historiográfico no período. E seria apressado dizer - já adiantando ao leitor e suspendendo de algum modo os juízos críticos mobilizados por Ribeiro - que a sua palheta historiadora apresentava-se desprovida de um arcabouço teórico-metodológico compassado com os anseios, os quais se faziam bastante presentes no momento, de se acumular materiais com feições empíricas e necessários para que no futuro algum historiador habilitado pudesse efetivar, enfim, uma síntese científica do Brasil; problematizando-os e unificando-os por intermédio de princípios lógicos ou a partir de vieses explicativos considerados adequados (Cf. ANHEZINI, 2006; GLÓRIA DE OLIVEIRA, 2006; NICOLAZZI, 2008; NICOLAZZI, 2009). A crítica desferida por Ribeiro não afetaria o propósito primeiro daquela História, pois, como veremos, ela fora concebida como um momento propedêutico, bem como deveria ser utilizada enquanto um celeiro de fatos devidamente criticados e de informações essenciais sobre o passado do país. De posse dessa base empírico-racional-compilatória levantada por ele alguém no porvir poderia se aventurar na redação de uma nova História geral do Brasil com ares não só descritivos, mas, sobretudo, conceituais. O momento era o de fortalecer as
análises, e os seus empenhos, a seu ver, cumpririam essa função tida como de suma
importância para se fazer ciência da história.
Esse veto a uma teoria generalista acerca da história brasileira naquele momento dava-se em razão, também, da sua percepção mesma no que condizia a experiência do tempo. Rocha Pombo era um moderno por excelência, fato esse que o fazia compreender as travessias do devir histórico através de uma ótica etapista, causal, linear e em transformação constante. Essa fórmula específica de assimilação do motor
da história o levou a depreender a sua epistemologia historiográfica por intermédio - tendo em vista um compasso possível junto a esse substrato temporal - da égide da continuada superação de verdades provisórias e cumulativas. Essa gestual o levaria, ademais, a uma compulsiva reinterpretação de conteúdos informativos e, por conseguinte, a uma constante complexificação junto ao aparelhamento crítico-erudito necessário para a correção das coisas pretéritas23. Em face desse demonstrativo, o qual
trazia consigo, por um lado, a virtude de não o levá-lo a tomar as fontes históricas como sinônimo de verdade objetiva do passado; por outro, o impelia a não enfrentar o desafio
23 A esse respeito conferir os trabalhos de (Cf. GLÓRIA DE OLIVEIRA, 2006) e (Cf. PEREIRA &
de se arquitetar um plano teórico sintético no presente, porque se demandava, irrevogavelmente, acréscimos e revisões infindáveis diante da esfera analítica. Talvez por isso Ribeiro, que advogava em prol da plausibilidade da passagem da erudição à
generalização não apenas no futuro, tivesse adjetivado naqueles termos a obra do
historiador paranaense. Mas isso será desenvolvido melhor durante o capítulo.
Destarte, este ensaio de história da historiografia será operado como uma espécie de “laboratório de epistemologia histórica”, o que implica, assim, que daremos a ele uma dimensão de “análise epistemológica”. Queremos historicizar certas categorias analíticas disponíveis, as formas como os problemas historiográficos foram modulados, as maneiras pelas quais se pensava a elaboração das hipóteses colocadas; as variantes possíveis no uso das fontes, na definição dos objetos, na implementação dos arcabouços teórico-interpretativos articulados os quais, por vezes, evidenciavam-se partilhados por diferentes campos de conhecimento no exercício de metodização da memória (WEHLING, 2006: 182-186), entre outros elementos que se faziam presentes, certamente, junto às agendas de discussão sobre as pesquisas e sobre a escrita da história do Brasil na passagem do século XIX para o seguinte. Esses questionamentos serão colocados tendo como pretexto compreensivo a reflexão de caráter metadiscursivo efetivada por Rocha Pombo logo acima mencionada. Enfatizando, sobretudo, que o seu conteúdo mostrava-se enquanto um expressivo demonstrativo, emblemático de todo uma geração de historiadores, acerca dos dilemas em se efetivar, por um lado, a mencionada síntese científico-interpretativa em face, por outro, da urgência na correção das possíveis brechas ainda deixadas pelos princípios definidores da erudição histórica de marca oitocentista (Cf. NICOLAZZI, 2008; NICOLAZZI, 2009). A partir desse impasse tentaremos assimilar, historicizando o problema em si, quais os motivos manifestos responsáveis por levar grande parte daqueles homens a interditarem a síntese naquele momento, postergando-a, destacadamente, aos historiadores do futuro.