Imagem 09 – Subestação de captação d’água (CAGECE)
Foto: João Luís Joventino do Nascimento (2008).
“Na vida do Cumbe há Tanta água no Cumbe, ê! É maré baixa!
É maré cheia. (bis) Água de beber! Água de banhar! Água onde a vida Pede pra crescer”! (bis)
Trecho da letra da música “Cumbe” (Gigi Castro e Soraya Vanini).
As comunidades tradicionais, étnicas e raciais, são detentoras e guardiães de um diverso patrimônio ambiental natural, indispensável para suas formas de vida e reprodução social e cultura. A invasão destes territórios por atividades econômicas tem dividido opiniões pelos significados e usos que o sistema econômico dá aos bens naturais, o que desta forma contribui para o surgimento dos conflitos socioambientais.
A luta da comunidade do Cumbe, pelo direito e acesso gratuito a água, é uma das questões mais emblemáticas. Haja vista que não exista nem por parte do Estado e da empresa CAGECE, que representa o próprio Estado, uma devida atenção ao abastecimento da comunidade. Em reuniões diversas, a comunidade já apresentou uma solução para acabar com esse conflito, que vem desde os anos 70, época em que se instala na comunidade a Companhia de Água e Esgoto do Ceará – CAGECE.
Em outras palavras, o Cumbe é cortado por diversas artérias onde a água corre abundantemente, levando vida aos diversos ecossistemas associados à paisagem da comunidade. Recordo do tempo de criança, quando as famílias se reuniam nas lagoas interdunares pescando, lavando roupa, tomando banho nas águas cristalinas onde limpavam os corpos e a alma, numa perfeita harmonia entre o ser humano e a natureza.
As levadas17 também eram um lugar de encontro com a mãe água, onde todos iam pegar água para realizar as diversas atividades diárias, água para beber, lavar louça, roupa, cozinhar, tomar banho, dar de beber aos animais e aguar as plantas. Era uma grande festa, todos cuidavam das levadas, ninguém poluía a água que corria nela, ela era sagrada. Podemos afirmar que as levadas são verdadeiras artérias que cortam a comunidade levando água/vida para todos os seres vivos e não vivos da região.
A vida corre nas veias das levadas do Cumbe, como o sangue corre no corpo humano levando vida a todas as partes do corpo, animais, vegetais, humanos e seres encantados. O respeito e o cuidado com a água eram passados de geração a geração, todos cuidávamos das fontes de águas do Cumbe como cuidamos de um membro da família – irmão, filho, pai e mãe.
No tocante às injustiças e ao racismo ambiental e a seus impactos sobre a saúde e a vida das comunidades e da sociedade como um todo, o exercício soberano da cidadania se reflete na capacidade e na construção de possibilidades para interferir de diferentes modos no debate público e nas práticas relacionadas ao modelo de desenvolvimento dominante (FAUSTINO et. al., 2013, p. 258).
A relação ser humano, natureza, seres vivos e não vivos se encontra em crise. As injustiças ambientais, o racismo ambiental e o aumento demográfico pode ser um fator que contribui para isso, mais é a relação econômica capitalista, onde tudo virou mercadoria e tem um preço, que a humanidade não se sente parte da natureza, como se ela não estivesse em nós e nós nela, numa dependência total. Com o crescimento da população do Aracati, o município precisava de uma fonte que abastecesse a cidade e o lugar escolhido para retirar água foi o Cumbe.
A água que era de todos os seres vivos e não vivos agora tem dono, vira mercadoria de compra, mudando assim toda a nossa relação com os recursos naturais. A natureza começa a ser vista como mercadoria e, consequentemente, muda também a relação pessoas, natureza e meio ambiente.
[...] podemos presumir que mudanças na conformação de determinado território, que afetam a sobrevivência de grupos sociais, tendem a encadear conflitos. Isso significa dizer que aqueles que não são diretamente dependentes do modelo hegemônico de desenvolvimento, dado que não estão inseridos no mercado capitalista ou em seus mecanismos de reprodução, tende a sentir o impacto de modo intenso, pois a expropriação de um território que oferece benefícios ambientais para esses grupos é sinônimo de perda não somente do seu lugar de moradia, mas também de seu trabalho e de sua cultura (LOUREIRO, 2009 apud VERAS; MEIRELES, 2012, p. 183).
A fauna e a flora do Cumbe foram prejudicadas com a retirada excessiva da água, para o abastecimento do município do Aracati. As diversas formas de vida existentes, que necessitam da água na região passam a ficarem ameaçadas. Diversas espécies de animais começam a desaparecem: coqueiros e mangueiras centenárias começam a tombar. Enfim, quando as fontes de águas doces, como as levadas e as lagoas interdunares periódicas secam, a vida que emanava das águas e que antes era abundante sucumbiu.
Com a chegada da CAGECE, a água utilizada pela comunidade nas suas diversas atividades diárias, consumo humano e meio de vida começa a faltar, ocasionando problemas que repercuti na vida da comunidade até os dias de hoje. Durante esses quase quarenta anos da CAGECE instalada no Cumbe, nada foi feito por ela para amenizar o problema criado por ela. Continuamos sofrendo os impactos negativos na nossa vida e na relação com o território tradicional.
O Cumbe, que desde os tempos atrás ficou conhecido na região por ser detentor de uma grande reserva de água doce, o que contribuiu para a cobiça dos comerciantes da então Vila do Aracati, criadores de gado e produtores de cachaça, também atraiu pessoas que fungiam da seca em busca de água, como demonstra os escritos abaixo:
A falta d’água dizimava o gado, acabava com a agricultura de subsistência, causava fome e sede, facilitava à fuga quando não causava à morte. Por isso, existem muitos relatos que os negros iam para a localidade do Cumbe, em Aracati, onde nunca faltava água. Alguns acabaram morando na área e outros se mudavam quando o período de seca acabava (ECOLOGY BRASIL, 2014, p. 19).
O drama causado pela seca na região do Aracati e o fato do Cumbe ser conhecido por sua água abundante e de boa qualidade, desperta o interesse dos grupos econômicos e órgãos do governo a buscar um local, que pudesse abastecer o município do Aracati. Nos anos setenta, é realizado o projeto para levar água até a sede do Aracati, acabando assim com a falta de água. Instala-se no Cumbe a CAGECE – Companhia de Água e Esgoto do Ceará, trazendo inúmeras consequências para a comunidade e sem nenhum estudo de impacto ambiental, a problemática desse empreendimento no Cumbe é velado pelos órgãos de fiscalização ambiental e pelos governos.
Neste sentido a luta dos pescadores/as do mangue do Cumbe pela defesa dos manguezais, áreas de pesca e lazer contra a privatização e contaminação por produtos químicos utilizados no cultivo do camarão, demonstra a insustentabilidade desses projetos ao serem desenvolvidos em ambiente importantíssimos como os manguezais o que trás sérios prejuízos para as comunidades que precisam dessas áreas para sua existência e soberania alimentar, como também para o meio ambiente. Desvelar as ameaças da atividade de criação de camarão em cativeiro e sua implicação para as comunidades e territórios tradicionais são questões que iremos tratar no próximo tópico.