As razões da escolha do objeto de estudo
Sem entrar em pormenores de menor relevância, vou expor a origem académica da minha aproximação aos estudos acústicos, referindo passos do meu processo formativo, gerador desta preferência. Frequentei, com bolsa de estudo após candidatura, um curso da Direção Geral do Ensino Superior para Formação de Professores do Ensino
Especial, com a duração básica de seis semestres, estruturado para professores efetivos do Ensino Básico, com sede no Instituto António Aurélio da Costa Ferreira9. As
9 "O Instituto reabre [...] em 1976/77 para passar a funcionar em colaboração com a Faculdade de Psicologia na formação de professores, em regime de experiências pedagógicas, ao abrigo do Decreto-Lei 47.587, de 10 de Março de 1967. [...] Assim, o curso passa a ter a designação de «Curso de Especialização de Profissionais de Educação» [embora no certificado de habilitações conste a seguinte designação Curso de Formação de Professores do Ensino Especial] e destina-se a fornecer «uma
preparação psicopedagógica e científica que permita uma intervenção qualificada junto de crianças deficientes...[...] São também alteradas algumas condições exigidas aos candidatos do curso que passam a ser as seguintes:
«Professores habilitados com os Cursos do Magistério Primário, Educadores de Infância e de Estabelecimento, Mestres de Oficinas de habilitação académica equivalente; dois anos de exercício pedagógico; professores dos ensinos preparatório e secundário com os graus de bacharel ou licenciatura
[...] podendo frequentá-lo indivíduos do sexo masculino e do sexo feminino.
O curso alterou substancialmente o tempo de duração, pois passou de um para três anos lectivos e viu-se igualmente constituído por aulas teóricas, trabalhos práticos e com uma novidade: o estágio. As cadeiras do curso eram do tipo semestrais e anuais, sendo as que se referem:
16
disciplinas do referido curso, todas eram semestrais e muitas delas decorriam, para além do próprio AACF, no Laboratório de Fonética e Linguística da Universidade Clássica de Lisboa, no Centro de Pesquisa e Análise de Sinais da Universidade Técnica de Lisboa, IST e na Clínica de Audiofonologia do Hospital de Alhos Vedros, Setúbal, com extensões a vários outros locais para efeitos de investigação científica. Este projeto de formação teve o apoio, empenhado e por vezes presencial, de vários especialistas, não só do Centro de Surdos em Sint-Michielsgestel, Instituut voor Doven, na Holanda, como da Escola Superior de Educação de Estocolmo, na Suécia.
Este tipo de formação possibilitou-me um percurso humanístico-tecnológico, que me proporcionou: o conhecimento e compreensão física do som como fenómeno acústico, a importância do som para o desenvolvimento humano, o entendimento das bases neurológicas, a anatomofisiologia da audição, a avaliação audiométrica, as etiologias e os procedimentos anamnéticos nesta área, o determinar e interpretar os resultados audiométricos. Ou ainda, com base nisto, o desenho da programação pedagógica para
deficits diversos de perda auditiva, o estudo da imprescindibilidade do som para que o ato do falar se estabeleça eficazmente ao longo do desenvolvimento da criança lactante e da criança escolar até à adultícia. O som e o pensamento. A contribuição do som para a construção das categorias do espaço, do tempo. O ambiente acústico. O ambiente protético. O silêncio e a sua inexatidão, as expressividades sonoras da criança e do adolescente no processo acústico de construção identitária. O som e o trabalho. Já muito mais tarde e com outras tutelas, aprendi sobre o som e as sonoridades do filme documentário no cinema antropológico.
1) Metodologia de Investigação Pedagógica; 2) Métodos de Comunicação Pedagógica; 3) Métodos de Observação e Diagnóstico; 4) A Criança em Situação de Risco; 5) Escola e Estrutura Social; 6) Métodos e Técnicas de Investigação; 7) Neuro-Biologia: a) Princípios Básicos neuro e psicológicos; b) Metodologia de Observação e Formas de Diagnóstico e de Despistagem Precoce; 8) Etiologia, Definição e Classificação; 9) Neurobiologia Aplicada; 10) Desenvolvimento Psico-Socio-Linguístico (e psicomotor); 11) Despistagem e Diagnóstico; 12) Planeamento, Currículos, Métodos e Técnicas de Comunicação Pedagógica; 13) Projecto Profissional na área de especialização; 14) Um ano de Estágio com 20h/semana NOTA: Os conteúdos das unidades são diversificados consoante a área de especialização: Dificuldades de Aprendizagem, Deficiência Auditiva e Visual. [...] O período de realização vai desde 1977 a 1980, com 1 curso apenas, e 53 professores especializados [...] Através do Despacho Normativo são definidos o conjunto de objectivos, estrutura curricular e plano de estudos do Curso, cujo funcionamento, a título provisório, se processará no IAACF até à sua integração na Escola Superior de Educação de Lisboa (como já foi referido anteriormente). Passa então o curso a ter como objectivo formar educadores e professores do Ensino Especial, a fim de exercerem a sua actividade junto de crianças e adolescentes que, no âmbito da educação infantil e dos ensinos básico e secundário, têm dificuldades na utilização dos meios correntes de ensino-aprendizagem, devido a: funcionamento intelectual deficitário, por causas diversas; deficiências sensoriais (visual e auditiva); e deficiências motoras" (Mesquita, 2001, pp. 58-61).
17
Por razões protocolares de um acordo que se estabeleceu entre o Governo Português e o Governo Sueco, iniciei atividades como responsável por uma instituição de trabalho com surdos, na cidade de Beja. Esta instituição tinha um laboratório muito completo de física acústica sob a coordenação do Engenheiro Filipe de Oliveira.
Acresce também, para o enriquecimento e experiência, o ter exercido atividades nesta área ao longo de mais de trinta anos, para além de haver fundado, juntamente com outros colegas, algumas das equipas especializadas para o atendimento de surdos, umas concelhias, outras distritais e até, para além da deficiência auditiva, também um outro organismo (que foi possível, devido a ter formado equipa de investigação com o meu colega, mestre Américo Peças,) que chegou a ter jurisdição e concursos a nível nacional e que se chamava Serviço de Apoio a Dificuldades de Aprendizagem, Orientação Educativa. Nestas múltiplas atividades e iniciativas, contei sempre com excelentes equipas de trabalho.
Foi graças a toda uma circunstancialidade e dinamismo formativo que, nestas condições, o trabalho na Divisão do Ensino Especial exigia, fez acontecer no meu percurso a aproximação ao estudo da problemática do som, na contextualidade terapêutica, educativa e social, e depois também na contextualidade ecológica, ou ecossistémica.
Na década de sessenta e até final do século XX, sem quaisquer pretensões profissionais em relação à realização de filmes, bem ciente que estava a lidar com uma atividade a todos os títulos praticamente impossível em Portugal, sobretudo se for considerada simplesmente a nível amador, realizei alguns trabalhos fílmicos, um pouco como quem prepara serviços de notícias, mas sobretudo documentos muito relacionados com as atividades escolares e por vezes de investigação, na área educativa.
A minha primeira câmara de filmar, adquirida em segunda mão, e que ainda conservo, foi um aparelho Suíço, uma Paillard Bolex, 8 mm, de três objetivas, fabricada nos finais da década de cinquenta e que utilizei até meados da década de oitenta. Foi, já, na década de noventa que adquiri sucessivamente duas câmaras de vídeo, uma Sony e pouco depois uma JVC.
Digo tudo isto apenas para enunciar, sem registo de dúvidas, o meu interesse pela arte de fazer filmes, desde os inícios da década de setenta do século passado até ao presente. Gostaria de corroborar esta declaração, com um artigo que publiquei na Revista DocOn-
18
line da UBI10 “As Sonoridades e os sentidos na Construção do Documentário Antropológico”. Tive, aí, a oportunidade de, reportando-me ainda a uma fase muito anterior a esta de cariz muito académico, iniciar considerações sobre o que defino, desde os pontos de vista filosófico e estratégico, o esboço das razões para uma teoria sobre O Cinema Como Pedagogia (Rodrigues, 2011).
Em maio de 2009, estive presente num dos encontros de cinema em Viana do Castelo, promovido anualmente pela Ao Norte11 e, nessa ocasião, fui apresentado ao Professor José Ribeiro, Antropólogo Visual da Universidade Aberta, que no decurso do encontro me convenceu a orientar as minhas atividades com vista a realizar um curso de terceiro ciclo na Universidade Aberta, incluído nas atividades científicas do Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais (CEMRI), em que associasse a minha formação anterior no som a uma temática de estudo do CEMRI, por exemplo, os músicos e músicas migrantes nas sonoridades urbanas do Porto12. Como já, na altura, era responsável pela edição de som de documentários realizados no âmbito de uma investigação sobre Imagens das Migrações, e que também decorria no quadro do CEMRI, da Universidade Aberta, pareceu-me desafiadora esta proposta. Em 2009 e por proposta do Professor José Ribeiro, foram iniciadas as investigações cujos resultados foram apresentados em julho de 2010 no VI Seminário ICCI- Imagens da Cultura,
Cultura das Imagens, realizado em Portugal, na Universidade Portucalense. O título da comunicação foi “O som da cidade” que, para além dos considerandos sobre a sonoridade urbana, como o título aponta, incluía também considerações etnográficas sobre cerca de 30 músicos de rua.
Contudo, na continuidade das ações e na contextualidade histórica, a sonoridade urbana, enquanto fenomenologia social, despertava-me bem mais o interesse enquanto terreno que os Músicos e Músicas Migrantes. O afastamento posterior da Antropologia Visual da oferta formativa na UAb veio proporcionar o requerimento para continuar o curso na Universidade Fernando Pessoa no Porto. Aí sob a orientação do Professor Álvaro Campelo, a tese rumou para a sonoridade urbana e para o cinema como uma via
10Disponível em http://www.doc.ubi.pt/11/artigos_carlos_rodrigues.pd.
11 AO NORTE - Associação de Produção e Animação Audiovisual fundada em Dezembro de 1994. Tem como objetivos a produção e a divulgação audiovisual, bem como a cooperação para o desenvolvimento, na área do ensino, educação e cultura, designadamente através da divulgação das realidades dos países em vias de desenvolvimento junto da opinião pública.
12 O Centro de Estudos da Migrações e Relações Interculturais (CEMRI), criado em 1989, é uma unidade de investigação científica e de desenvolvimento da Universidade Aberta.
19
etnográfica na Antropologia Visual. Assim, acabei contemplando com a satisfação académica de quem encontrou uma chave, o design de uma tese com o título provisório:
Tentativa de Reescrita Da Sinfonia 4 33 de John Cage.
Figura 1 Dadiv Tudor, Reconstituição da pauta original 4 33 de John Cage13 (1952), 1989
Trata-se de uma sinfonia com quatro minutos e trinta e três segundos, conhecida como a sinfonia 4 33 de John Cage. Nunca se ouve uma única nota musical. Silêncio. É tudo o que nos podemos aperceber dessa obra, durante esse lapso de tempo. O ouvi-la faz com que fiquemos com vontade de pensar.