O lógico e matemático polonês Alfred Tarski dedicou parte de seus estudos a comprovar ser destituído de fundamento o ceticismo sobre a possibilidade de se estruturar concepções adequadas da verdade. Para tal, investiu na construção de uma teoria da verdade que fosse formalmente correta, materialmente adequada e fisicamente respeitável.
Nessa teoria, ganha relevo a linguagem, já que a solução proposta por Tarski transita pela semântica. A definição de verdade deve ser relativa a uma linguagem particular, na medida em que a verdade é um atributo das sentenças, consideradas em seu significado e sua estrutura gramatical na linguagem em questão.
A contribuição de Tarski para o estabelecimento de uma noção mais clara da verdade é realmente inegável, em especial por transmudar o tema do cenário filosófico para a seara da lógica linguística. Essa mudança de fundo, contudo, não se fez de maneira a relegar os conceitos outrora construídos pela filosofia, os mesmos que inspiraram ele próprio a optar por um ponto de partida já conhecido desde a antiguidade clássica:
Nossa compreensão da noção de verdade parece concordar essencialmente com as várias explicações dadas para ela na literatura filosófica. Na “Metafísica” de Aristóteles está o que talvez seja a mais antiga explicação (TARSKI, 2007, p. 204).
Sua concepção de verdade, bem se vê, está apoiada na concepção correspondentista delineada por Aristóteles - em clara oposição às definições rivais, como a utilitarista ou pragmática e a coerentista -, na qual incluiu a nota da relação entre linguagem e realidade:
A concepção de verdade que encontra sua expressão na formulação aristotélica...é usualmente chamada “concepção clássica de verdade” ou “concepção semântica de verdade”. Por semântica, entendemos aquela parte da lógica que, informalmente falando, discute as relações entre os objetos linguísticos (tais como sentenças) e aquilo que é expresso por esses objetos. O caráter semântico do termo ‘verdadeiro’ está claramente evidenciado na formulação oferecida por Aristóteles e em outras formulações que serão dadas mais adiante neste artigo.
(...) Tentaremos aqui obter uma explanação mais precisa da concepção clássica da verdade, uma explanação que possa superar a formulação aristotélica e que preserve, ao mesmo tempo, suas intenções básicas (TARSKI, 2007, p. 205-206).
Fazendo uso da semântica, com enfoque na relação entre sentenças da linguagem-objeto e os objetos aos quais essas sentenças se referem, conclui o pesquisador que a definição de uma noção adequada de verdade é uma definição de uma noção semântica relacionada: a noção de satisfação. “Verdade é, então, facilmente definida em termos de satisfação” (TARSKI, 2007, p. 221).
Reformulando a definição clássica de verdade por equivalência, agora inspirado na ideia de satisfação, tem-se que uma sentença é verdadeira se designa um estado de coisas existente, ou, a verdade de uma sentença consiste em sua conformidade (ou correspondência) com a realidade, juízo que se perfaz segundo a noção de satisfação, a qual, por seu turno, remete ao conceito de demonstração e prova, aspectos tão caros na ciência do Direito.
A questão da prova, para Tarski, se mostra essencial no combate ao ceticismo diante das questões da verdade:
(...) em algumas situações podemos desejar explorar a possibilidade de alargar o conjunto de sentenças demonstráveis. Para esse fim, nós enriquecemos a dada teoria por inclusão de novas sentenças no sistema axiomático ou provendo a ela novas regras de prova. Para fazer isso, usamos a noção de verdade como um guia; para não desejarmos incluir novas sentenças ou regras se temos motivos para crer que o novo axioma não é uma sentença verdadeira, ou que a nova regra de prova, quando aplicada para sentenças verdadeiras, pode culminar numa sentença falsa (TARSKI, 1969, p. 77).
Mais adiante a teoria de Alfred Tarski serviria de objeto de estudo para Karl Popper. O pensador britânico ocupou-se do aspecto realista da teoria de Tarski, a qual designava como uma reabilitação da concepção clássica de que a verdade constitui uma correspondência com os fatos, donde reformula o esquema tarskiano para induzir que determinada sentença é verdadeira se ela corresponde aos fatos (POPPER, 1975, p. 53).
Desatacadas as principais teorias filosóficas sobre a verdade e o verdadeiro, vale estabelecer uma breve síntese sobre as diversas concepções aqui tocadas, de modo a permitir uma classificação destas teses segundo o aspecto fundamental da definição desse conceito a cada uma delas.
Assim, para o fenomenalismo, o homem não tem acesso ao objeto cognoscível “em si”, mas apenas à manifestação dele. Há verdade quando houver relação de correspondência entre o enunciado e essa sua manifestação, o seu fenômeno.
A teoria pragmática da verdade advoga que determinado enunciado será verdadeiro se, e somente se, tiver efeitos práticos para quem o sustenta, conferindo-lhe alguma utilidade. Quanto mais útil, maior o âmbito de credibilidade da proposição que se pretende verdadeira. Verdadeiro seria apenas aquilo que, no dizer de Nietzsche, é apropriado para a conservação da humanidade (MACHADO, 2002, p. 101).
A teoria da coerência, por seu turno, vislumbra a realidade como um todo coerente, sendo que as proposições que a descrevem não podem ser contraditórias entre si. Aqui, a verdade decorre da coesão entre determinado juízo e o sistema de crenças ou verdades anteriormente estabelecidas, e se evidencia diante de um discurso dotado de coerência interna.
Na teoria consensual, a verdade se extrai do consenso ou acordo entre os indivíduos de determinada comunidade ou cultura. Seria verdadeira, então, a ideia que contasse com maior credibilidade. Aqui, se o próprio sistema estabelece o que é esta consonância e o modo como opera, a determinação da verdade consensual estaria, em tese, alheia a instabilidades.
Resta perquirir sobre a existência de uma verdade objetiva capaz de refutar aquelas tentativas de esvaziamento desse valor através de uma relativização inadequada e temerária.
CAPÍTULO II
EXISTE UMA VERDADE OBJETIVA: CRÍTICA À REIFICAÇÃO DA VERDADE
O questionamento acerca da existência ou não de verdades objetivas só faz sentido em um contexto no qual os aspectos acerca daquilo que é verdadeiro tenham sido objeto de subversões no curso da evolução do pensamento humano.
De fato, o estudo mais detido a respeito da ideia de verdade torna forçoso concluir pela real e efetiva existência de uma verdade objetivável e concreta, alheia a julgamentos, aparências e relativizações. As dúvidas que surgem quanto a possibilidade de manifestação da verdade objetiva decorrem de alguns equívocos e confusões na compreensão do tema.
Reafirmamos que é a filosofia o melhor cenário para a crítica e reflexão a respeito da verdade, instituto mais afeto à ciência do pensar filosófico do que a qualquer outra, ainda que a preocupação com o verdadeiro ocupe praticamente todas as manifestações da existência humana e em especial o Direito34.
E, tal qual decorre da análise detida das concepções filosóficas trazidas neste trabalho, não são poucas as doutrinas que nos permitem extrair o desejo de
34
No cenário das ciências jurídicas, vale referenciar Roberto Dromi, que há muito se ocupa das questões relativas à verdade no Direito Constitucional. O publicista argentino pondera que “muchos abandonaron la búsqueda de la verdade del Derecho incluso antes de empezarla: unos, por entender que no existia tal cosa denominada ‘verdad’: el hombre moderno, despojado de las ataduras de la ontologia clásica, había redescubierto la relatividad de las cosas, que en definitiva se confundía con el absolutismo de la própria percepción. Otros, por el contrario, se esforzaron denodamente por explicar que el verdadero Derecho era la norma positiva, o la práctica social, o el deber moral o religioso, o la inasible voluntad de uno, vários o muchos integrantes del cuerpo social por mantener o modificar cualquiera de los anteriores” (DROMI, 2006, p. 17).
seus respectivos pensadores em expressar a real ocorrência da verdade objetiva, esteja ela no objeto, no ser, em Deus, na linguagem.
Pitágoras professa a verdade do mundo que reside na matemática e na objetividade de seus números, enquanto Parmênides, advoga que a verdade está na razão, a qual, alheia aos sentidos, capta a essência das coisas do mundo.
Em que pese ser classificado como idealista, a verdade ontológica de Platão não se afasta, por assim dizer, de uma manifestação objetiva dela, bastando que o ser cognoscente se distancie da experiência sensível que não lhe traz nenhum conhecimento uniforme, e se aproxime do espírito, da alma racional que aprende os objetos iguais a si mesmos e, por conseguinte, apreende a verdade objetivamente.
A teoria da correspondência de Aristóteles e sua posterior evolução para uma concepção semântica da verdade mais recentemente explorada por Alfred Tarski exprime, igualmente, a possibilidade de haver perfeita relação entre observador e observado, revelando a real natureza deste. A verdade latente na coisa apenas reclama ser dita, e tal comprova a objetividade da verdade nela inscrita.
Tanto Agostinho quanto Tomás de Aquino confiam igualmente na verdade sem subjetivações. Dada a origem divina da razão humana que capta a realidade, o homem estará mais ou menos próximo da verdade quanto maior ou menor for sua aproximação de Deus. Tomás de Aquino, mais fortemente do que seu antecessor da filosofia cristã, considera a verdade de maneira objetiva, exprimível no próprio objeto, ainda que percebida por meio de um processo no qual o intelecto humano (razão) tem papel fundamental.
Não obstante a doutrina tomista admita que a verdade esteja primeiro no entendimento e depois no objeto, e que a possibilidade de haver distintos entendimentos poderia supor a existência de distintas verdades, todas elas são resultado de uma única verdade divina que impede sua relativização, ainda que cada qual a acesse por diferentes ângulos. As diversas essências e manifestações da coisa no intelecto decorrem desta única e objetiva verdade divina, tornando- se igualmente concreta.
Para Galileu a verdade objetiva é fruto da submissão das coisas observáveis ao método científico, respeitadas as experiências sensatas e as demonstrações necessárias. A descrição das qualidades objetivas, portanto publicamente observáveis, do ente que se propõe ao estudo e a exclusão do homem dessa equação tende a permitir o acesso à verdade objetiva e, tal qual, observável por qualquer ser. A ciência, e sua característica objetivação a respeito de tudo, é o critério da verdade.
Descartes percebe a verdade nas coisas que concebemos bem claramente e bem distintamente, e até define aquilo que entende por verdade evidente, que, bem assim, pode ser realizada pela simples intuição, tamanho é seu nível de objetividade.
A peremptoriedade kantiana a respeito da verdade exprime uma das mais profícuas defesas em favor da existência de uma verdade objetiva, seja funcionando como princípio de seu imperativo categórico, seja ocupando lugar como finalidade de todo proceder moral vocacionado a garantir e preservar a dignidade humana.
Contribuição similar devemos à filosofia marxista, fundada na ideia de que a matéria, o ser e a natureza são realidades objetivas. Bem assim o é a
verdade, que existe fora e independente da consciência humana, pois é da matéria que deriva a sensação, e não o contrário. É através da práxis que a leis que regem o mundo, inclusive as jurídicas, são conhecidas e comprovadas.
E o idealismo, tão criticado por Marx, parece mesmo contradizer-se quando repugna a veracidade dos conhecimentos humanos e a verdade objetiva sob o argumento de que o mundo seria repleto de coisas em si que nunca poderão ser aprendidas pela ciência e, assim, pela razão humana.
Mas reconhecer que o mundo está carregado de coisas em si não tangenciáveis é, de certo modo, admitir que elas, efetiva e objetivamente, existem. Pouco importa se podem ou não ser tocadas pela razão ou experiência, elas e suas respectivas verdades estão presentes em algum plano e lá têm sua manifestação, merecedora de ser buscada, o que se faz por meio da prática transformadora do materialismo histórico-dialético.
Igualmente fundado na experiência como fonte da verdade, Poincaré acredita que os fatos já existam em estado bruto, e, submetidos à verificação científica (estatística, probabilística, histórica, comparativa), revelar-se-ão de modo objetivo, externando igual verdade.
A verdade por correspondência outrora balizada por Aristóteles é fundamento dos estudos de Bertrand Russell. A objetividade desse conceito reside no entendimento do filósofo de que a mente acredita verdadeiramente em algo porque existe um complexo correspondente que não envolve a própria mente, mas apenas seus objetos. Russell ainda valoriza a evidência que bem pode ter sua gênese do conhecimento direto do fato que corresponde, objetivamente, à verdade. A mesma teoria correspondentista é defendida por Tarski, agora também sob um enfoque semântico.
Bem se vê que a filosofia está repleta de teorias que reconhecem a existência de verdades objetivas, ainda que seu contrário, a relativização da verdade, não seja assunto absolutamente desconsiderado pelo pensamento humano.
Em nosso pensar, contudo, a tentativa dos relativistas em propalar a inexistência de uma verdade objetiva é desconstruída por meio do próprio princípio que defendem. Ora, se tudo é relativo, o será também a ideia de que a verdade objetiva não existe. Em outro dizer, se os relativistas não enxergam nada além de pontos de vista referenciais, a própria ideia de verdade relativa é igualmente relativa e, assim, comporta a presunção de que a verdade objetiva pode, afinal, existir realmente.
O que impende observar, de todo modo, é que devemos reconhecer que existem objetos cuja existência e manifestação não dependem do sujeito cognoscente, tão pouco de sua vontade para que se revelem do modo que lhes são próprios.
Não há dúvida de que o processo do conhecimento clama pela intermediação da consciência subjetiva do observador para ser apreendido, mas não nos parece que a pretensa subjetividade dessa aproximação seja capaz de tornar o objeto exterior igualmente subjetivo. O que se tem é o reflexo subjetivado de um ente objetivo, e tão só. Assim, a essência do conhecimento – o objeto que se conhece – segue possuindo caráter objetivo e existindo independentemente de nós.
O átomo não passou a ser divisível somente a partir de 1897 e por vontade de J. J. Thomson35. Sempre o foi desde que existe objetivamente como parte da matéria, bastando que tal verdade fosse, enfim revelada - e não criada - pelo cientista, até porque não pertencia ela ao domínio de seu pensamento.
A filosofia cética e a idealista-subjetivista (para ficar apenas nelas), quando suscitam que a verdade não pode ter caráter objetivo, pois relativa, equívoca e múltipla, parte de um raciocínio deturpado sobre o que realmente se pode compreender da definição dos conceitos de objetivo e subjetivo.
Objetivo pode ser definido como relativo ao objeto, existente no campo da experiência sensível independentemente do pensamento individual e perceptível dos observadores. É, enfim, aquilo que está situado na exterioridade do sujeito cognitivo humano, podendo ser tocado pelo intelecto.
De outra banda, subjetivo faz referencia àquilo que existe na mente, que pertence ao sujeito pensante e ao seu íntimo, em contraste com as experiências externas, gerais e universais. É relativo ao sujeito do conhecimento que se apodera cognitivamente dos objetos que lhe são externos.
No entanto, há alguma confusão quando se considera o termo objetivo para exprimir o próprio objeto do conhecimento, aquele internalizado pelo sujeito e realmente pertencente ao domínio do pensamento. Nesse exercício o sentido do termo acaba por corresponder ao seu exato contrário. A mesma subversão figurativa pode ocorrer com a palavra subjetivo, que passaria, então, a definir a opinião ou impressão pessoal, parcial e dependente da arbitrariedade do sujeito pensante.
35 O físico britânico descobriu o elétron e sua natureza subatômica, desconstruindo a crença da indivisibilidade
Partindo desse mal entendido, afastamo-nos da ideia de que o conhecimento é apenas e tão somente o reflexo subjetivo das qualidades extrínsecas e objetivas da realidade exterior, permitindo supor a possibilidade de existência de várias verdades pessoais e o aniquilamento de uma verdade geral e válida para todos.
É claro que a presença do ser cognoscente é indispensável para a revelação da verdade, mas tal não pode significar seja ela subjetiva, pois seu conteúdo não depende da vontade individual. Essa assertiva mostra-se duramente reconhecível no processo judicial em que determinada prova documental faz ruir a narrativa dos fatos da parte contra a qual ela foi produzida. O argumento que, afinal, se mostrou processualmente infactível, era verdadeiro segundo o desejo de seu defensor.
Talvez a dúvida que se possa ter acerca da existência de uma verdade objetiva advenha da abstração perpetrada pelos idealistas quanto aos objetos do conhecimento. Realmente o pensamento humano não prescinde de algumas generalizações conceituais que lhe permitam melhor organizar seu pensamento e, de certo modo, facilitar a transmissão do conhecimento através das gerações e o desenvolvimento de algumas ideias.
Essas abstrações que refletem os objetos e os eventos do mundo fenomênico são, no entanto, planificadas através de um processo paulatino de referibilidade, na qual se toma um ser real e se lhe abstrai posteriormente. Essa generalização, contudo, não desnatura a origem empírica dos conceitos, formulados com base na realidade material do mundo.
Os idealistas, ao que parece, iniciaram um processo de absolutização desses conceitos abstratos e passaram a considerá-los como produtos do pensamento racional ou divino. Assim, o conceito segundo o qual nada mais é do que a abstração da realidade é transferido para a base da existência do próprio objeto, baralhando sua origem ao posicioná-la na consciência do ser pensante.
Essa objetivação racional encobre o caráter imediato, concreto, qualitativo e material de todas as coisas como bem asseverou Georg Lukács (2003, p. 209). É certo que o filósofo húngaro disserta sobre a reificação ou coisificação dos conceitos no contexto do pensamento marxista da alienação do trabalho pelo capital, mas seu escólio é de grande valia para o presente trabalho ao transportarmos a ideia da reificação para o conceito da verdade.
Sobre essa distância entre a origem empírica dos conceitos e a abstração absoluta deles, pondera Lukács:
A maneira como é concebida essa transcendência mostra que seria vão alimentar a esperança de que a coesão da totalidade – a cujo conhecimento as ciências particulares renunciaram conscientemente ao se distanciarem do substrato material do seu aparato conceitual – pudesse ser adquirida por uma ciência que, pela filosofia, incluísse todas. Isso seria possível somente se a filosofia rompesse as barreiras desse formalismo mergulhado na fragmentação, colocando a questão segundo uma orientação radicalmente diferente e orientando-se para a totalidade material e concreta do que pode ser conhecido, do que é dado a conhecer. Para isso, no entanto, seria preciso revelar os fundamentos, a gênese e a necessidade desse formalismo (...)
(...) A filosofia toma, assim, em relação às ciências particulares, exatamente a mesma posição que estas em relação à realidade empírica. Na medida em que a conceituação formalista das ciências particulares torna-se para a filosofia um substrato imutavelmente dado, afasta-se, definitivamente e sem esperança, toda possibilidade de revelar a reificação que está na base desse formalismo. O mundo reificado aparece doravante de maneira definitiva – e se exprime filosoficamente, elevado à segunda potencia, num exame “crítico” – como o único mundo possível, conceitualmente acessível e compreensível, que é dado a nós, os homens (LUKÁCS, 2003, 238-239).
Se os conceitos gerais do idealismo resultam da abstração e generalização de coisas concretas e objetivas, certamente só existem na consciência ou no pensamento humanos, sendo equivocado, pois, considerar que existem na realidade e passem a ser designados como algo que sempre esteve ali.
Nos parece que foi exatamente isso que ocorreu com o conceito da verdade. Há, efetivamente, uma verdade objetiva, de origem empírica, que resulta do contato do ser cognoscente com o mundo exterior, e se configura pela correspondência entre aquilo que se observa e o enunciado que exprime essa observação. A verdade, portanto, está no objeto e é apenas tocada pela consciência do ser pensante. Este, vale dizer, se labora em equívoco, não terá contato com a verdade, exprimindo apenas juízos de aparência ou crença.
O idealismo então, ao generalizar e abstrair essa verdade objetiva, transportou esse conceito diretamente para a consciência do observador, estabelecendo a confusão entre o conceito geral do objeto e o próprio objeto. A partir daí a base da existência da verdade deixou de ser o mundo exterior (objetiva) e passou a residir na consciência sensitiva do sujeito (subjetiva). De outro dizer, inadvertidamente passou-se a considerar que o conceito geral (abstraído) de verdade objetiva existe na realidade como sendo a própria verdade objetiva, quando, em efetivo, ele só existe na consciência ou no pensamento, como resultado da abstração da verdade concreta, objetiva.
A verdade objetiva é, pois, o dado primário, e a subjetivação da verdade em cada consciência humana é o dado secundário ou derivado oriundo da consideração errônea de que a abstração de um objeto seja o próprio objeto em