• Sonuç bulunamadı

A noção de cena enunciativa permite que se entrecruze o modo de operação institucional, vista na questão de um tipo de discurso, o que esse tipo de discurso implica aos sujeitos que nele se inscrevem, o que está sendo mostrado enquanto conteúdo relacionado ou não contextualmente e a relação que esses elementos implicam para os interlocutores de um dado dispositivo enunciativo, seja ele qual for, e o que fará sustentar e ser sustentado mutuamente.

(...) “entre” o texto e o contexto, há a enunciação, “entre” o espaço de produção e o espaço textual, há a cena da enunciação, um “entre” que descarta toda exterioridade imediata. Não se podem dissociar as operações enunciativas mediante as quais se

institui o discurso e o modo de organização institucional que ao mesmo tempo o pressupõe e estrutura. Na construção de uma cena da enunciação, a legitimação do dispositivo institucional, os conteúdos manifestos e a relação interlocutiva de (sic) entrelaçam e se sustentam mutuamente. (MAINGUENEAU, 2006b, p.135 destaque do autor)

Segundo Maingueneau, como outrora na AD, não daria para pensar os corpora literários descredenciando-os do quadro enunciativo e das suas circunstâncias em que estão envolvidos. Ou, diferentemente disso, ligando-os a um estudo de texto literário sob o primado de perspectivas ideológicas ou políticas, que foram tão úteis à própria constituição da AD. É a partir dos anos 1990 que o estudo do discurso literário passa a ser visto, dentro da AD, como um todo.

Para que algum deslocamento se configure, a nossa hipótese, alinhada à de Maingueneau (2006b), é a de que se faz preciso pensar o texto literário como um dispositivo enunciativo de comunicação e interação verbais. Assim pensando, por seu turno, faz-se necessário ligar a esse dispositivo enunciativo as condições de possibilidade em que ele possa eventualmente ter aparecido. Esta irrupção do dispositivo, por exemplo, nos textos de Cadeiras proibidas, como forma de gestão de um contexto, sem dúvida é uma das instâncias de sua aparição e reflete-se, a princípio, no que, de um lado, os estudos pragmáticos chamam de situação de comunicação, ou contexto, ou circunstância de comunicação, e, em contrapartida, em condições de produção para a análise do discurso. Para Maingueneau (2006b), as chamadas condições de produção constituem-se de uma abordagem mais bem analisável, recaindo para o teórico francês no conceito situação de enunciação33, que, depois de certo refinamento – que tentaremos analisar ainda neste trabalho –, torna-se mais especificamente apreendido como cena enunciativa,justamente por tentar avaliar que não há um dentro e um fora de um texto, e sim que o plano enunciativo, ou a cena enunciativa, encontra-se na ordem do imbricamento com o discurso, e que todo o argumento contextual pode ser encontrado no próprio texto. O discurso e a enunciação estão enlaçados na organização do estético-semântico de uma obra, seja ela qual for. O autor inscreve esses elementos numa junção que resultará na forma como o texto é narrado, como a trama se engendra, resultante, pois, de uma cenografia, de um tom34 com o qual ele se desenvolve e,

33 Conceito que, nos estudos de Maingueneau, pauta-se em Antoine Culioli.

34 A ideia de os textos carregarem um tom ao mobilizar certa cenografia e sob certo discurso que almeja alguma mobilização do outro é mais bem apreendida em estudos que tratam do ethos do discurso, muitos, inclusive, caudatários das formulações e das reformulações teóricas de Maingueneau, em que o ethos seria uma das dimensões da cenografia. Uma boa indicação bibliográfica tratando do conceito de ethos seria Imagens de si no

sendo assim, mostra-se o dizível sobre aquilo que pretende incorporar por parte de seu público-leitor, o que deve ser aproveitado do gênero, o qual, por sua vez, pode oscilar – tornar-se difuso – de alguma maneira em razão do desenvolvimento cenográfico. Acreditamos que esse ponto teórico é peça-chave do entendimento e do procedimento de uma análise do discurso literário do livro Cadeiras proibidas, para assim levar em conta como o peculiar e o universal dessa forma de analisar o discurso literário podem entrar em consonância. De certa forma, sobretudo na teoria de Maingueneau, estes funcionamentos e estas argumentações aventados confluem em muitas maneiras para o conceito de cena enunciativa. Ainda do conceito de cena enunciativa, Maingueneau o mobilizará e o definirá, primeiramente, segundo três subdefinições, em que está balizado: cena englobante, cena genérica e cenografia, sendo que em algumas teorias desse autor existem diferenças para o conceito, tanto de ordem metodológica – muito em razão dos corpora mobilizados, pois ora será a respeito do discurso religioso, ora do discurso publicitário, ora literário – quanto da ordem de metalinguagem – esse fato também devido aos corpora e aos avanços com a consequente revisão teórica por que toda pesquisa passa em alguma medida.

Se tomarmos o conceito de cena enunciativa no Dicionário de análise do discurso (2008a), observaremos que se trata de um conceito comutável frequentemente, em AD, por situação de comunicação, que, por seu turno, pode misturar-se a uma ideia formulada em Pêcheux em 1969 e em 1975 (GADET; HAK, 1990c) e reformulada em Jean-Jacques Courtine em 198135 como condições de produção, na qual, inicialmente, conceitua-se componentes para questões entre a circunstância estritamente linguística em que um discurso é produzido e a produção de efeitos de sentidos derivados deste discurso e que de alguma maneira lhe é pertinente. Além disso, essa mesma noção de condições de produção surgiu na AD para pensar e romper a mobilização das noções de contexto e sujeito de correntes na linguística de filiação pragmaticista e teorias da enunciação. A questão de se ter em uma comunicação a interação entre um locutor e um interlocutor em muitos planos reúne as condições do papel que cada um deve ter diante de tal comunicação. Isso fica bastante evidente também para as teorias pragmáticas.36 Não definiremos pormenorizadamente todas discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2008, de Ruth Amossy(Org.), obra na qual há um artigo

sobre o conceito escrito por Dominique Maingueneau.

35 Análise do discurso político: o discurso comunista endereçado aos cristãos. São Carlos, SP: EDUFSCar, 2009.

36 Pensamos aqui nas teorias de ato de linguagem empreendidas principalmente pelos trabalhos de Austin e Searle. Todavia, também esta na crítica de Pêcheux, mesmo que indiretamente, em Análise automática do

essas fundamentações teóricas aventadas, porém lhes dedicaremos algumas palavras, iniciando a argumentação sobre cena enunciativa ao observá-la com algumas considerações que lhe são comutáveis, feitas sobre dois mirantes distintos. Brevemente passaremos à argumentação sob uma perspectiva pragmaticista e outra ligada à análise do discurso.

Benzer Belgeler