Podemos dizer que o ponto de partida do trabalho de Schutz é o contato com a fenomenologia de Edmund Husserl e com as propostas metodológicas de Max Weber. A abordagem dos fenômenos, ou seja, daquilo que aparece, ou a aparência, abarca certo paradoxo pois, ao mesmo tempo que o fenômeno pode ser visto como a verdade em si, é também aquilo que a encobre e, em uma terceira via, o fenômeno vem a constituir, ainda, o caminho para a verdade, aquilo por meio do qual ela se manifesta (FERRATER MORA, tomo 2, p. 1011).
O método proposto por Husserl, para entender os fenômenos, tem como ponto de partida as experiências do ser humano. Para ele, a consciência humana está sempre ligada a um objeto, material ou não. A construção desses objetos é intencional, e se dá na síntese dos diferentes olhares lançados pelos indivíduos a eles, os quais são posteriormente relembrados de forma generalizada, tipificada (WAGNER, 1979). Assim, o método fenomenológico de Husserl sugere a reflexão sobre a consciência, num procedimento chamado redução fenomenológica – epoché – onde o mundo da vida cotidiana é colocado entre parênteses. Isso significa atingir o momento de consciência anterior ao mundo que sempre foi assim, importando para o pesquisador como se dá a construção dos significados. Desta forma seria possível chegar ao eidos, ou seja, à essência dos fenômenos. Correia (2005) explica o processo da seguinte forma:
É pelo método da redução fenomenológica, suspendendo a crença do investigador na existência factual do mundo externo, que é possível revelar os atos intencionais pelos quais os fenômenos são constituídos na consciência.
[...]
Graças à epoché, o sujeito livra-se de seu entrave mais íntimo e secreto, a consideração do mundo como um pré-dado, alcançando absoluta autonomia em relação ao mundo e à consciência que dele possui (p. 35).
Trata-se, então, de colocar entre parênteses o conhecimento prático do mundo, os pressupostos das ciências e a existência dos outros e de mim mesmo. Assim, no lugar de se regressar às coisas, regressa-se à correlação entre a consciência e as coisas. Em última análise, interessa ao fenomenólogo a construção dos significados.
A base sociológica do trabalho de Schutz está em Max Weber, intelectual alemão que viveu entre 1864 e 1920. Sua teoria é centrada na ação social, qualificada como qualquer conduta humana dotada de significado e de direção, ou seja, dirigida à conduta de outros (WAGNER, 1979). Dada a natureza plural e eminentemente irracional dos significados subjetivos atribuídos às ações humanas, o pesquisador social constrói tipos ideais20 das condutas, o que resulta no fato de que “[...] o sociólogo trabalha, na melhor das hipóteses, com possibilidades típicas de que determinados conjuntos de fatos observáveis levarão a determinados cursos de ação social” (p. 11).
Não considerando suficientes os postulados de Husserl para a questão da intersubjetividade, Schutz desenvolveu suas próprias idéias nesse campo, apoiando-se e desenvolvendo as de Weber. Assim, Schutz interessa- se pelos conceitos de ação social e ação racional. A racionalização das ações sociais seria a porta de acesso do pesquisador aos sentidos que se manifestam e encadeiam nas relações sociais:
O cientista social, a fim de compreender um processo social, tem de se interrogar sobre qual o sentido dessas ações para os agentes que a perpetraram. [...] No fundo, explicar a conexão entre meios e fins é explicar o sentido subjetivo do agente, nos termos de Weber (CORREIA, 2005, p. 75).
A redução racional que Weber persegue exclui os comportamentos guiados majoritariamente pela tradição, pela rotina, ou pelas irracionalidades afetivas. Assim, o autor persegue a realidade orientada pela lógica de
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“O tipo ideal está, antes, destinado a mostrar de que modo funcionam as realidades concretas de que se ocupam historiadores e sociólogos, especialmente estes últimos. Um tipo ideal se caracteriza por uma espécie de ‘conceito-limite’; dado um exemplo determinado de ação, especialmente de ação social, o tipo ideal expressa o que seria esta ação se estivesse completamente racionalizada” (FERRATER MORA, tomo 4, 2001, p. 2874). De onde entendemos que os tipos ideais servem para a compreensão, mas não para a explicação dos fenômenos em termos causais.
meios/fins. Schutz parte desses pressupostos sobre a importância da consciência subjetiva para seguir seu próprio caminho, perseguindo a relação desta com a compreensão e a percepção da realidade social. Weber e Schutz concordam que a ação é definida pelo significado.
Do ponto de vista metodológico, esse raciocínio leva a um ponto central da teoria schutziana: o seguimento de padrões das Ciências Naturais nas Ciências Sociais conduziria ao behaviorismo e, conseqüentemente, impossibilitaria o acesso à mente dos outros. A esta questão, o autor responde com a salvaguarda do ponto de vista subjetivo, que surge como única garantia “de que a realidade social não será substituída por um mundo fictício, construído pelo observador”, já que, “na verdade, não é possível compreender a coisa social sem a reduzir à atividade humana que a criou” (CORREIA, 2005, p. 80).
Os significados e as ações não podem ser simples reflexos, resultados dos hábitos e da vivência cotidiana. Num plano mais complexo e abrangente, as ações são orientadas pelas racionalizações dos indivíduos, que as dotam de significado: “o significado de uma ação é o seu ato correspondente” (SCHUTZ apud CORREIA, 2005, p. 86). Deste modo, os indivíduos estão num mundo de possibilidades nos quais selecionam certos elementos que consideram relevantes para atingir seus interesses.
Os motivos são objeto de análise mais específica por parte do autor. Trata-se de uma teoria da motivação, que revela a profunda relação entre o entendimento das coisas e as ações no mundo da vida. Schutz contribui para o debate sobre liberdade x determinismo, ao diferenciar as motivações em duas perspectivas: o in-order-to-motiv, ou motivo-a-fim-de; e o because-motiv, ou motivo-porque. O motivo-a-fim-de relaciona-se com o que o indivíduo tem de livre, ou seja, com as pretensões e as apostas que faz em suas ações; já o motivo-porque está ligado às influências do passado nessas decisões, revelando as explicações culturais, históricas ou sócio-econômicas que as determinam em parte (CORREIA, 2005). Assim, o autor entende que não apenas o passado é determinante em nossas ações, mas também as perspectivas de futuro.
Schutz repara a expressão ação racional de Weber, pois a considerou incompatível com o imponderável, o ambíguo e o imprevisível da
vida cotidiana. Tensionando os termos, preferiu chamar a ação cotidiana de razoável, pois considera que a racionalização pouco ocorre no cosmos social organizado em que vivemos, já que, voltando ao exemplo já citado, não questionamos o local onde fica a universidade a cada vez que temos que nos deslocar para lá; assim como não duvidamos diariamente de qual transporte público dispor, etc:
Assim, como normalmente temos de agir e não de refletir, de modo a satisfazer as exigências do momento que é a principal tarefa que nos motiva, não estamos interessados no problema da certeza. Damo-nos por satisfeitos se logramos uma oportunidade de realizar os nossos objetivos e se esta oportunidade for lançada colocando em movimento o mesmo mecanismo de hábitos, regras e princípios que já foram comprovados e que continuarão a ser comprovados. O ideal de conhecimento na vida cotidiana não é a certeza, nem sequer a probabilidade no sentido matemático, mas apenas a aproximação (CORREIA, 2005, p. 90).
Entendemos que Schutz admite que a racionalidade pura e simples é raramente aplicada na vida cotidiana; e, da mesma forma, não deve servir de metodologia para a interpretação dos atos humanos no mundo da vida (SCHUTZ apud CORREIA, 2005, p. 91). É neste ponto que começa a influência de Bergson no pensamento de Schutz: pela crítica à aplicação pura de uma ciência intelectualista, o positivismo, no âmbito da vivência imediata da existência humana (p. 62). Bergson aparece como o primeiro filósofo a diferenciar a percepção pura que temos das coisas, da reflexão ou da memória sobre esses mesmos objetos, quando eles são integrados aos nossos esquemas de pensamento:
A duração retém todos os momentos anteriores. A memória, na verdade, falseia, porque simplifica a experiência vivida, pois as imagens que a memória retém são diferentes da nossa experiência na duração interior.
[...]
A ponte entre a vida da consciência e a realidade exterior processa-se através da atribuição de significados sempre atribuídos retrospectivamente (CORREIA, 2005, p. 66).
A retenção das experiências vividas na durée – o tempo da experiência subjetiva – possibilita a reflexão sobre essas experiências. E é através da reflexão que os significados aparecem. Assim, percebemos a importância da contribuição de Bergson para o problema central perseguido por Alfred Schutz: “o que é o significado e onde ele se origina?” (p. 73).
Com essa noção dos referenciais teóricos de Schutz, partimos para um aprofundamento dos conceitos-chave de sua obra para chegar, ao final, à sua aplicação no terreno da Comunicação.