Este estudo realizou uma pesquisa qualitativa, pois ela proporciona, em maior grau, a interpretação e a subjetividade do investigador, conforme Richardson (1989). Isso permite o aprofundamento da análise de uma realidade complexa e cheia de nuances como a que aqui se apresenta. Segundo o autor, os estudos que empregam o método qualitativo podem melhor relatar, compreender ou explicar determinado fenômeno.
As estratégias metodológicas, utilizadas neste trabalho, partem da perspectiva teórica da Economia Política da Comunicação (EPC), pois se considera fundamental para o problema de pesquisa a compreensão de que os
28 grupos de comunicação são empresas ancoradas no modo capitalista de produção.
Numa primeira explicação sobre essa perspectiva, recorre-se a Mosco (1998, p. 98), para quem a “economia política é o estudo das relações sociais, particularmente as relações de poder, que mutuamente constituem a produção, distribuição e consumo de recursos, incluindo os recursos informacionais”. O autor aponta que a Economia Política tem se empenhado profundamente no sentido de entender as mudanças sociais e as transformações históricas desde o seu início com os economistas-políticos clássicos dos séculos XVIII e começo do XIX, que significou compreender a revolução capitalista, até a contemporaneidade com questões como a transição de uma economia industrial para uma economia de serviços.
Deste modo, a EPC se tornou, uma perspectiva teórica bastante oportuna, já que permitiu esclarecer o processo de funcionamento dos veículos, pois o tópico do problema de pesquisa tratou de saber como as lógicas operantes, no contexto contemporâneo comunicacional, influenciam na programação informativa das rádios CBN (Central Brasileira de Notícias) de São Paulo (780 AM e 90.5 FM), Gaúcha de Porto Alegre (600 AM e 93.7 FM) e
Gazeta de Santa Cruz do Sul (1.180 AM).
Esta investigação científica utilizou três técnicas de pesquisa diferentes para recolher os dados que foram analisados. A primeira foi a observação das rotinas de produção da informação, onde o pesquisador deve estar presente no local do estudo. Esta forma de colher os dados é desenvolvida de maneira mais ampla nos estudos envolvendo a hipótese de newsmaking. Não se intencionou aqui realizar uma pesquisa completa neste campo, mas de se servir da observação sistemática e direta na redação, com o propósito de levantar os dados dentro do limite da organização do trabalho e dos processos produtivos.
29 Segundo Wolf (1995), o newsmaking é a área da pesquisa comunicativa que trata dos estudos sobre os emissores e sobre os processos produtivos dentro dos quais a comunicação de massa organiza o trabalho de construção das mensagens. Ela busca compreender o processo de produção da informação, ou seja, como os jornalistas transformam os acontecimentos dispersos do cotidiano em notícias. De acordo com Hohlfeldt (2008, p. 204), o newsmaking se ocupa especialmente do emissor como um intermediário entre o acontecimento e sua narrativa, que é a notícia, incluindo nesse estudo “[...] o relacionamento entre fontes primeiras e jornalistas, bem como as diferentes etapas da produção informacional, seja ao nível da captação da informação, seja em seu tratamento e edição e, enfim, em sua distribuição.”
Vizeu Pereira Jr. (2001) acredita que o newsmaking é o referencial teórico mais adequado para responder por que as notícias são como são, que imagem elas fornecem do mundo e como essa imagem é associada às práticas profissionais cotidianas dentro das empresas de comunicação. Estas questões são definidoras dessa abordagem, que segundo Wolf (1995, p. 169) “[...] articula-se, principalmente, dentro de dois limites: a cultura profissional dos jornalistas e a organização do trabalho e dos processos produtivos.” Conforme Vizeu Pereira Jr. existem diversas conexões e relações estabelecidas entre esses dois aspectos que são centrais na pesquisa sobre a produção da notícia. O autor chama a atenção para o tempo como um elemento muito importante na rotinização da atividade jornalística.
O tempo é o eixo central do jornalismo. Sob a pressão da hora do fechamento, as empresas do campo jornalístico são obrigadas a elaborar estratégias para dar conta da sua matéria-prima principal: a notícia. Ela pode surgir em qualquer parte e a qualquer momento. Diante da imprevisibilidade, as empresas necessitam colocar ordem no tempo e no espaço. (VIZEU PEREIRA Jr. 2001, p. 79)
Para colocar ordem no tempo e no espaço são criados vários mecanismos que condicionam o desempenho da atividade profissional. Conforme Sousa (2002) a tirania do fator tempo modela a notícia e transcende a ação pessoal do jornalista, expressando-se nos constrangimentos sócio-
30 organizacionais e socioeconômicos que regulam o sistema jornalístico e na própria cultura profissional.
Portanto, considerando-se que a produção de notícias é influenciada diretamente pela organização e produção rotineira dos mecanismos jornalísticos, chega-se ao conceito de distorção involuntária. Wolf (1995, p. 164) explica que isso é “[...] um tipo de “deformação” dos conteúdos informativos não imputável a violações da autonomia profissional, mas sobretudo ao modo como está organizada, institucionalizada e é desempenhada a profissão do jornalista”. Quer dizer, os fatos não são manipulados deliberadamente pelos jornalistas, mas resultantes da estrutura do trabalho.
A observação participante é a técnica necessária para desenvolver uma pesquisa de newsmaking, de acordo com Wolf (1995). Esse tipo de abordagem etnometodológica começou a ser utilizada, no estudo do jornalismo, nos anos de 1970, seguindo o exemplo dos antropólogos, destaca Traquina (2001), e ajuda a entender o exposto anteriormente. “A contribuição dos estudos etnográficos à compreensão do jornalismo é tripla” ressalta Traquina (2001, p. 62). Primeiro, a abordagem “[...] permitiu ver a importância da dimensão
transorganizacional no processo de produção das notícias [...]”, ou seja, as
relações informais e culturais de ser um membro da comunidade profissional. Segundo, “[...] permitiu reconhecer que as rotinas constituem um elemento crucial nos processos de produção das notícias”. Terceiro, ao verificar “[...] a importância das rotinas profissionais que os jornalistas criaram com o objetivo de apenas levar a cabo seu trabalho quotidiano a tempo e hora, os estudos etnográficos do jornalismo questionam [...]” as análises sobre uma distorção intencional das notícias.
Entretanto, como dito, não se tratou de fazer um estudo sobre newsmaking, ou seja, investigar como os acontecimentos cotidianos são transformados em notícia, mas de utilizar a observação direta na redação para examinar a estrutura empresarial e as práticas profissionais em cada emissora. A técnica é a forma de reunir e obter os dados fundamentais sobre os
31 processos produtivos na indústria dos meios de comunicação (WOLF,1995). O pesquisador deve juntar-se à equipe pesquisada, em caráter provisório, o tempo que for preciso para realizar seus estudos, assinala Hohlfeldt (2008). Os dados são recolhidos através de uma observação sistemática de tudo o que acontece no local e também por entrevistas formais e informais com as pessoas envolvidas. Tudo deve ser registrado em uma espécie de diário de campo para posterior análise. A observação das rotinas de produção ocorreu num período de três dias, de quarta-feira a sexta-feira, nos turnos da manhã e tarde (das 7h às 19h). A pesquisa de campo realizou-se nos dias 20,21 e 22 de novembro (rádio CBN), nos dias 4, 5 e 6 de dezembro (rádio Gazeta) e nos dias 11,12 e 13 de dezembro (rádio Gaúcha).
A segunda técnica utilizada foram entrevistas em profundidade ou não estruturadas, com os responsáveis pelo setor gerencial e de produção jornalística, para completar os dados da observação, bem como saber como se dá a organização jornalística e gerencial das emissoras. As entrevistas foram realizadas no mesmo período da observação.
Foram entrevistados quatro profissionais em cada rádio, um produtores, o coordenador/supervisor de jornalismo ou chefe de reportagem, o responsável pela gestão de jornalismo da emissora e um âncora. Utilizou-se quatro roteiros diferentes, compostos por tópicos, que resultaram em respostas abertas dos entrevistados, proporcionando uma maior interação entre as fontes e a pesquisadora. Richardson (1989) assinala que esse tipo de entrevista se dá através de uma conversa guiada, onde se pretende saber o que, como e por que algo ocorreu, ou seja, obter informações detalhadas que possam ser utilizadas em uma análise qualitativa.
A terceira etapa foi a gravação e audição sistemática de algumas horas da programação das rádios, para identificar seus parâmetros de programação. A análise levou em conta a caracterização dos programas, sequência de apresentação, duração, gêneros jornalísticos presentes e tipos de informação – jornalismo, serviço, evento, entretenimento. A gravação para a análise ocorreu no período de três dias, de quarta-feira a sexta-feira, no horário das 7h às 12h
32 da manhã, considerado por vários autores, como Meditsch (1999) e Comassetto (2007), como o período de maior audiência no rádio.
No momento da análise dos dados coletados, foi preciso explicar a maneira de funcionamento de cada veículo a partir da descrição: do contexto das rádios; das formas gerenciais; da estrutura de produção da informação; da organização da programação; da cultura da velocidade; da noção de fluxo e da múltipla temporalidade. Assim, foi possível estudar mais profundamente cada uma das três emissoras de modo a esclarecer como elas definem suas programações informativas.
É oportuno expor como esta pesquisa foi estruturada. A organização da tese foi composta de dois capítulos teóricos e um de discussão e análise do objeto empírico. O primeiro versa sobre a Economia Política da
Comunicação e o Rádio Informativo. Esta parte foi constituída pela
conceituação da EPC e seu contexto, o que significa a era do capitalismo globalizante, como o rádio vem sendo estudado por essa perspectiva teórica, as transformações na informação radiofônica diante das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), e o processo de convergência jornalística no rádio.
O segundo capítulo teórico consistiu na abordagem sobre a
Programação Informativa no Rádio e as Lógicas Operantes. Estudou como
se apresenta a programação informativa atual, os gêneros e tipos de programas radiofônicos, e, ainda, a base referencial para explicar como cada lógica opera nas emissoras teoricamente: a cultura da velocidade, a noção de fluxo e a múltipla temporalidade da realidade.
No último capítulo se encontra a análise dos dados da pesquisa empírica, intitulado Economia Política das Rádios e a Definição da
Programação. Descreveu-se como se define a programação informativa das
emissoras CBN, Gaúcha e Gazeta a partir das lógicas operantes e também se analisou os dados conforme a metodologia.
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