A despeito da alínea 1 do artigo 2 da Convenção não mencionar a expressão “científicas”, a forma de expressão literal das obras científicas recebe proteção independentemente de seu conteúdo ideário, sendo este um postulado essencial do Direito de Autor: A ideia em si mesma não é suscetível de proteção. A ideia alcança a proteção no direito da propriedade industrial, quando encontra aplicação prática no sistema de patentes, nos modelos de utilidade.
No domínio das ciências, a proteção autoral estará restrita a forma literária ou artística, não abrangendo o seu conteúdo científico ou técnico210. Sobre a dicotomia envolvendo a proteção autoral e a proteção pela lei de propriedade industrial, assevera Denis Borges Barbosa:
Em relação à não proteção das criações estéticas pelo mecanismo de patentes, diz o autor que o fundamento se encontra na falta de efeito técnico, que apresenta-se como um requisito para que determinada obra venha a ser considerada um invento, dizendo que, todavia, tais obras são tuteladas pelo direito de autor.211
209BRASIL. Superior Tribunal Federal. Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 635.780-DF, 1º Turma. Relator: Ministra Dias Toffoli. Brasília, DF,1 de fevereiro de 2011. Disponível em: http://www.stj.jus.br. Nos termos do exposto no acórdão “face à causa petendi dos apelantes alicerçada no
âmbito da antiga Lei nº 5.988/73, vê-se que o pedido exposto na exordial e ratificado na peça apelativa é juridicamente impossível,pois ainda que os autores tivessem algum direito sobre o nome SEPULTURA, tal faculdade não teria amparo na proteção conferida à obra intelectual, consoante alegam os apelantes. A meu sentir, mostram-se inabaláveis os pilares que dão suporte à decisão desafiada vez que apesar dos autores terem fundamentado a pretensão vestibular segundo a Lei de Direitos Autorais, a causa de pedir, contudo, delineia-se com o pedido juridicamente possível, eis que refere-se a eventuais danos sofridos em razão da identidade dos nomes dos conjuntos musicais, evidenciando-se a pugna pela prevalência de apenas um deles, discorrendo o i. Magistrado monocrático, com toda clareza, que a lide, irrefragavelmente, circunscreve-se no âmbito do direito comum”.
210Cf. § 3º do art. 7º da Lei 9.610 de 1998. 211BARBOSA, Denis Borges. op. cit., p. 1138.
Sobre o fundamento da não proteção das criações estéticas, assinala Denis Borges Barbosa212:
O conflito “de competência” entre as leis de patentes e as de direitos autorais não é, assim, meramente de forma. Os propósitos sociais e a tutela constitucional das duas modalidades são diversas, como são distintos os condicionantes sociais. Assim, há cuidados especiais nas leis autorais para excluir de seu âmbito as criações industriais, paralelas ao que se lê no inciso em análise.
Todavia, salienta o autor213 que a existência de conteúdo estético não obsta o patenteamento, mencionando o pensamento do Pollaud-Dulian:
Naturalmente, o fato de uma invenção técnica permitir também a obtenção de um efeito estético não a priva de patenteabilidade. É assim, por exemplo, que os processos e produtos cosméticos são patenteáveis. Uma patente francesa tratava de uma estrutura de cobertura, comportando uma base de apoio formada por uma matéria qualquer. Esta invenção tinha uso em plantações para proteger terrenos em declive, permitindo, por exemplo, que se cobrisse uma área inclinada com grama. Em uma ação de contrafação, o réu arguiu a nulidade desta patente por ela ter uma finalidade estética. Em sua decisão, o Tribunal ponderou que “estava claro a invenção possuía um resultado estético, contudo este resultado não era o único”. A invenção era suscetível de aplicação industrial destacada do caráter estético da obra realizada. A patente era, por conseguinte, válida. A invenção permitia tecnicamente construir superfícies em declive de um aspecto estético específico; o objeto da patente não era, em si, uma criação estética. Enfim, cabe-se recordar que, nos termos do artigo L. 511-3 tem 2 CPI, se o objeto pode ser considerado ao mesmo tempo como uma invenção patenteável e como um desenho ou modelo novo, a proteção somente pela patente é obrigatória quando “os elementos constitutivos da novidade do desenho ou modelo são inseparáveis aos da invenção.
No mesmo sentido, salienta Lipszyc214 que as obras podem ser, ao mesmo tempo, artísticas e utilitárias, podendo gozar de proteção tanto do direito de autor, quanto do direito de propriedade industrial, in verbis:
Por el principio de la unidad del arte se ha admitido que las obras de las artes aplicadas pueden gozar, a la vez, de las protecciones del derecho de modelos y diseños industriales y del derecho de autor. A este último no Le interesa el destino de la obra, es decir, se está destinada exclusivamente a fines artísticos o culturales o si también puede ser aplicada para satisfacer fines utilitarios.
212BARBOSA, Denis Borges. op. cit., p. 1139.
213POLLAUD-DULIAN, Frédéric. La Brevetabilité dês inventions – Étude comparative de jurisprudence France-OEB. Paris: Litec, 1997, p. 50 apud BARBOSA, Denis Borges. op. cit., p. 1139-1140.
Las legislaciones que admiten la doble protección suelen oponer – como vimos – la limitación de que ambos ordenamientos jurídicos no podrán ser invocados simultáneamente en la defensa judicial de los derechos.
As Convenções internacionais sobre direito de auto contemplam a possibilidade da dupla proteção das obras de artes aplicadas, conforme se observa na Convenção de Berna (art. 7, §4) e na Convenção Universal (art. IV, §3).
3.4.8.1. Texto descritivo de patentes
Interessa-nos observar, por outro lado, que um texto descritivo de patentes, por sua vez, não confere proteção de Direito de Autor a seu autor. Trata-se de um texto que assim que publicado no site do INPI o conteúdo entra no estado da técnica, perde sua característica de obra literária por ter sido anexado a um pedido de depósito de patentes, entrando assim no domínio público.
O sistema de patentes preza pelo desenvolvimento científico e tecnológico, concedendo direitos exclusivos de exploração aplicação prática da ideia contida em determinado invento ou aperfeiçoamento por tempo determinado - vinte anos. Mas, o seu descritivo integra o estado da técnica em prol do desenvolvimento, do aproveitamento do conhecimento integrado de todo o sistema. Ressalta-se que a busca pela universalização dos textos de patentes de todos as oficinas de patentes do mundo é um ideário não tão distante de se tornar realidade.
3.5. Criações não protegidas identificadas pela doutrina e jurisprudência