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MÜESSESESİ VE AVRUPA BİRLİĞİ KURUMLARININ BU HUSUSLARDAKİ DEĞERLENDİRMELERİ

III. KULLANMAMA SAVUNMASI MÜESSESESİ

Em 1926, foi criada a Assistência Jurídica da Beneficente. Durante vários anos, a Sociedade recebeu pedidos de auxílio com relação a processos judiciais. Quase sempre envolvendo ações criminais de trânsito. Essas ações envolviam processos de acidentes ocorridos na malha viária, como atropelamentos, descarrilamentos e colisões, onde normalmente eram responsabilizados maquinistas, “brequistas”, condutores de trem e de tráfego. Na capital e no interior, os acidentes deixavam várias vítimas entre trabalhadores e moradores das cidades. Muitos ferroviários acabavam sendo responsabilizados pelos danos materiais e humanos que envolviam os acidentes na linha férrea, tendo que responder judicialmente. A ferrovia quase sempre se isentava de responsabilidades, deixando os trabalhadores à sua própria (falta de) sorte. Desse modo, os trabalhadores recorriam, quase sempre, à Sociedade Beneficente nos processos judiciais.

Como no caso do maquinista José Aquino, preso em Iguatu por vários meses, alegando ser perseguido por forças políticas locais. Ele conduzia uma locomotiva que se envolveu num acidente com vítimas fatais, sendo acusado de negligência. Mantido em cárcere, José Aquino obteve da Beneficente um socorro de 45$000 mensais entregue a sua família, além da mediação na contratação do advogado Domingos Bonifácio de Oliveira, destacado para a sua defesa.365 Caso semelhante foi o do maquinista de 4ª classe, José Carvalho, que pedia um auxílio para a sua defesa perante a justiça de Maranguape, por conta do atropelamento de um homem que sua locomotiva colheu.366 Esse tipo de acidente era enquadrado como crime de trânsito, sendo muitas vezes inafiançável.

365 Ata da sessão de 05 de agosto de 1924. 366 Ata de sessão de 13 de novembro de 1924.

Mobilizados em atender essa demanda, em 1926, foi instituído, por meio de contrato entre a Sociedade Beneficente e o advogado Dolôr Uchoa Barreira,367 um serviço permanente de assistência jurídica destinado a defender os interesses da Sociedade e dos seus associados. No artigo 1º do seu regulamento, estavam expressos, em linhas gerais, os deveres da assistência, sendo estes:

Obriga-se a prestar seus serviços profissionais de advogado: §1º em qualquer inquérito policial em que os mesmos ajam envolvidos. §2º em processos criminais de qualquer natureza em que os ditos sócios figuram como autores ou réus.§3 em processos de habeas corpus que tenham de ser em favor dos mesmos requeridos, sempre que sofrerem ou se achem ameaçados de soffrer constrangimentos na sua liberdade individual.368

Essa, ao menos em tese, era uma proposta abrangente, pois além dos temas referidos, a Assistência também se obrigava a prestar auxílio em casos de acidente de trabalho, algo bastante avançado para a época.369 Noutras Associações de Ajuda Mútua, quando havia esse tipo de serviço, a cobertura era quase sempre limitada a processos civis envolvendo pessoas físicas. Ainda assim, se o réu fosse considerado culpado geralmente era afastado dos quadros da organização. Na Sociedade Beneficente União Operária, segundo seu estatuto se “o sócio envolvido em crime de prevaricação, irregularidade de conducta, perjúrio e homicídio, sendo reconhecido culpado criminalmente, será expulso da sociedade”.370.

Com a criação do serviço jurídico da Beneficente, havia a promessa de acompanhamento e defesa dos trabalhadores nos problemas judiciais. Para dar suporte à assistência e a outros serviços da Sociedade, foi criada uma comissão permanente de finanças, justiça e sindicância, composta por dez membros,371 para estudar e fiscalizar os pedidos e processos envolvendo associados.

No início dos anos 1930, a assistência judiciária ia-se firmando, ganhando a aprovação dos ferroviários. Isso podia ser visto, nas cartas lidas em assembléia

367 Dolôr Uchoa Barreira era advogado, tendo servido à Sociedade Beneficente por mais de uma década.

Foi professor da Faculdade de Direito e membro do Instituto Histórico do Ceará. Publicou trabalhos na área jurídica, mas se notabilizou no cenário intelectual local com uma extensa obra sobre a História da Literatura Cearense.

368Contrato de locação de serviços entre a Sociedade Beneficente e o advogado Dolôr Uchoa Barreira. In: Ata da sessão de 29 de outubro de 1926.

369 Idem.

370 APEC- Portarias Diversas - Estatuto da Sociedade Beneficente União Operária. 20 de abril de 1893. 371 A Comissão de finanças, justiça e sindicância era formada pelos membros João da Rocha Salgado,

Raul Braga, João da Costa Gadelha, Francisco Loêro Mendes, José Bezerra de Albuquerque, Alfredo Feitosa, José Ferreira Lima, Luiz Gonzaga da Silva, Sebastião Guimarães Costa e Julio Vianna da Silva Tavares.

agradecendo os serviços da assistência. Como fez “Francisco de Castro, comunicando e agradecendo a Sociedade por sua absolvição do crime por que estava sendo processado na capital”.372 Entretanto, houve casos em que a assistência jurídica enfrentou certo dilema. Como proceder quando as partes em conflito eram associados à Beneficente? Sobre esse assunto, em sessão extraordinária, o consócio Napoleão Menezes relatava ter “sido victima de uma covarde aggressão, no dia 27 de janeiro ultimo,tendo recebido dois ferimentos, conforme exame procedido pelo medico da Policia desta Capital, onde se está procedendo a inquérito policial”.373 Nessa mesma ocasião, Napoleão Menezes se reportou à Sociedade, solicitando-lhe auxílio para o custeio dos serviços do advogado Dr. Raymundo Gomes de Mattos, que o acompanharia durante o processo. Napoleão Menezes reclamava esse auxílio, como forma de “justiça”, pois o agressor Francisco Isidoro havia-se antecipado, requisitando e conseguindo o apoio do advogado da Sociedade. Francisco Isidoro, preso em flagrante, entrou em contato com a Sociedade com o fim de ser representado em juízo pelo advogado da Beneficente.

O caso da briga dos ferroviários foi acompanhado pela Sociedade, onde muito se discutiu em torno do tema. O presidente da Beneficente chegou a ir pessoalmente à delegacia, a fim de se ter com o delegado sobre a permanência de Francisco Isidoro na prisão. Esse também esclareceu em assembléias que o advogado da Sociedade, Dr. Dolor Barreira, não estava agindo a favor de Francisco Isidoro, mas acompanhando o processo que estava sendo instaurado na Polícia. Ainda opinou sobre o assunto o conselheiro Benedicto Vieira, defendendo a tese de que o amparo da assistência judiciária fosse dado a ambos os associados. Já o suplente Antonio Barros dos Santos propunha que a Sociedade “se abstivesse de advogar as causas de Napoleão Menezes e Francisco Isidoro, por tratar-se de dois associados”, invocando um exemplo semelhante ocorrido recentemente na Phenix.374 O caso dos dois associados terminou com a libertação do sócio, que acabou sendo expulso da Sociedade.

Outro caso de destaque que contou com o apoio da assistência jurídica foi o episódio envolvendo o atropelamento do maquinista Júlio Moreira da Costa, colhido por um automóvel de propriedade do médico Leiria de Andrade. O maquinista de 1ª classe, atropelado na rua Barão do Rio Branco pelo chauffeur de nome Lauro, que conduzia o

372 Ata da sessão de 05 de fevereiro de 1931. 373 Ata da sessão de 03 de fevereiro de 1930. 374 Ata da sessão de 05 de fevereiro de 1930.

automóvel foi socorrido e levado para a sede da Beneficente, onde recebeu os cuidados do Dr. Eliezer Studart, sendo levado em seguida para a Santa Casa de Misericórdia.375

Segundo o jornal Gazeta de Notícias, o “chauffeur criminoso”,376 logo

depois do desastre, evadiu-se, deixando o trabalhador da RVC caído ao chão bastante ferido. O caso foi acompanhado pelo advogado da Sociedade Dolor Barreira, que entrou com uma ação de indenização para valer os direitos do ferroviário vitimado.377

Conforme se observa na imagem, pode-se ter noção dos danos físicos causados pelo acidente, que, segundo laudo médico, inutilizou a perna esquerda do maquinista.

Foto 9 – Ferroviário atropelado em acidente de trânsito. Fonte: Gazeta de Notícias. Fortaleza. 11 de fevereiro de 1931.

Quanto às ações ocorridas nas cidades do interior, ao que tudo indica, poucas contaram com a presença do advogado da Beneficente. Provavelmente, pelas próprias limitações impostas, de apenas um profissional. Desse modo, a maioria das

375 Gazeta de Notícias. Fortaleza, 1º de fevereiro de 1931. 376 Idem. Fortaleza, 11 de fevereiro de 1931.

petições caminhou para a trilha das indenizações ou para os pedidos de pagamento de contas de serviços prestados por advogados particulares contratados na própria cidade, como é o caso da petição a seguir:

consócio Francisco de Castro, solicitando um auxílio na importância de 2:000$000, para pagar a dívida que contraiu com o advogado Lanio Nogueira, seu defensor no processo-crime que lhe move a justiça de Icó – Atendido, parcialmente do seguinte modo: Foi-lhe conseguido um empréstimo de 1:000$000, resgatável em 22 prestações de 50$000, inclusive os juros, bem como um auxílio de 500$000. 378

De certo modo, esse exemplo confirma uma prática efetivada pelos trabalhadores ferroviários das cidades do interior, de cobrarem da Beneficente o ressarcimento de quantias dispensadas em serviços que a Sociedade se comprometeu a efetuar.

O advogado Dolôr Uchoa Barreira esteve à frente da Assistência Jurídica da Sociedade Beneficente em todos os seus assuntos, sendo desligado dela em 1931, por razões de discordância com o Conselho da Mutual, voltando ao serviço da Beneficente no ano seguinte, tendo permanecido por mais alguns anos.

A partir dos anos 1930, a assistência jurídica diminuiu suas atividades, tendo menor participação nas ações judiciais envolvendo trabalhadores ferroviários. Provavelmente por conta da instalação da Caixa de Aposentadorias e Pensões da RVC, que tinha entre suas atribuições um serviço de assistência judiciária.

Com o surgimento das primeiras leis trabalhistas e posteriormente com a criação da Justiça do Trabalho no contexto de reformas do Governo Vargas, novos meios de acesso à defesa dos interesses sociais e jurídicos dos trabalhadores foram sendo forjados. Segundo Gomes, a partir da Lei de Sindicalização de 1931, houve, por parte do Estado, um grande esforço para atrelar as organizações de classe ao controle do governo, fazendo desse modo com que muitas associações e serviços desenvolvidos pelas sociedades de trabalhadores desaparecessem ou se enquadrassem nos moldes da nova legislação.379

No caso dos ferroviários, esse movimento pode ser observado tendo em consideração o processo que criou as Caixas de Aposentadorias e Pensões que se instalaram a partir de 1923. Em 1928, foi instalada a Caixa de Aposentadoria da RVC,

378 Ata da sessão de 05 de Janeiro de 1931.

379 GOMES. Ângela de Castro. A invenção do trabalhismo. 3. Ed. Rio de Janeiro: Ed. FVG, 2005, p.

que, junto com a Sociedade Beneficente, prestava auxílios aos trabalhadores ferroviários do Ceará. Essa mudança na conjuntura se refletiu nos benefícios da Sociedade, fazendo com que, em meados dos anos 1930, a Beneficente passasse por transformações significativas na sua prática.

3 A SOCIEDADE BENEFICENTE E CAIXA DE APOSENTADORIAS E