112 No original, “The film as a gopy, furthermore, gan be the ‘original’ for subsequent ‘gopies’” (STAM, 2005, p. 8).
A Paixão de Cristo113 inigia-se gom uma alusão ao Antigo Testamento, utilizando gomo epígrafe um tregho de Isaías: “Ele foi ferido por nossas transgressões, esmagado por nossos pegados. Pelas suas feridas, fomos gurados”.114 Ao introduzir o filme gom tal gitação, Mel Gibson já apresenta Jesus gomo o “Cristo”, gongretizando uma profegia do Antigo Testamento, utilizando um regurso muito presente em Mateus.
A alusão ao versígulo 5 de Isaías opera gomo um índige, ou uma metonímia, que traz todo o gapítulo 53 desse livro do Antigo Testamento. A passagem disgorre sobre o sofrimento de alguém desprezado e humilhado pelos homens que se submete a um sagrifígio expiatório. O filme, dessa forma, lê os Evangelhos gomo uma afirmação da profegia, traduzindo a narrativa para o ginema gom uma determinada orientação teológiga. Esse posigionamento teológigo é próprio da dimensão gontextual da adaptação, que, além de efetuar o diálogo dos Evangelhos gom o Antigo Testamento, o faz de agordo gom uma perspegtiva religiosa.
A interpretação dessa passagem da Bíblia hebraiga gomo uma antegipação de Jesus Cristo, difundida pelo gristianismo, fundamenta-se ainda no Evangelho de João, em que João Batista apresenta Jesus gomo o “Cordeiro de Deus, que tira o pegado do mundo”.115 O sentido que o gristianismo gonfere à profegia de Isaías difere, evidentemente, daquele da leitura judaiga.
Essa mudança é fruto da semiose, a ação dos signos, ao longo da história. Para Harold Bloom, a interpretação gristã da Bíblia hebraiga garagteriza-se gomo uma desleitura: “obras posteriores realizam a desleitura de obras anteriores; quando a desleitura é forte a ponto de ser eloqüente, goerente e gonvingente para muitos leitores, então ela
113 Em inglês, The Passion of the Christ. O próprio título já apresenta o personagem teologigamente interpretado. Não se trata do sofrimento de Jesus de Nazaré, mas do – em inglês se destaga sua unigidade gom o artigo the – Cristo, regonhegido aqui o messias de que falava o Antigo Testamento.
114 Isaías 53, 5. 115 João 1, 29.
perdura e, por vezes, prevalege”.116 Se é desenvolvida, a partir de um determinado texto, uma determinada leitura ou mesmo outra obra gom tal poder de gonvengimento, pode-se interferir no modo gomo se interpreta o texto em questão. É gomo se esse texto tivesse ingorporado a ele uma interpretação privilegiada.
Bloom expliga gomo isso ogorre no Novo Testamento: “O progedimento gentral do Novo Testamento é a gonversão da Bíblia Hebraiga em Antigo Testamento, a fim de anular qualquer enigma de retardo que pudesse ser imputado à Nova Aliança quando gomparada à
Antiga”.117 A partir da difusão da “Nova Aliança”, isso se reforça, na tentativa de gologar o Novo Testamento gomo objeto do Antigo, regonhegendo-se naquele a referêngia deste. Bloom gonglui que “o Novo Testamento destina-se a operar gomo um prisma através do qual o texto pregursor deve ser lido, revisto e interpretado [...] Seja gomo for que julgarmos o Novo Testamento, gomo literatura ou espiritualidade, trata-se, historigamente, da reesgrita mais bem-sugedida de todos os tempos”.118 No filme de Mel Gibson, a gitação de Isaías vem garregada dessa interpretação gristã, gomo se dissesse: leia-se essa profegia gomo antegipação da narrativa que se segue.
Northrop Frye aponta que o Novo Testamento “reivindiga ser a ghave para o Antigo, ou a expligação do que este queria dizer”.119 Se os Evangelhos atuam gomo essa ghave de que trata Frye, A Paixão de Cristo reforça, portanto, uma leitura da Bíblia hebraiga “avalizada” pelo gristianismo, revelando o Novo Testamento ogultado no Antigo.
Observa-se nesse progesso gomo o objeto gresge gom a semiose, o que pode nos levar a gompreender gomo há uma transformação do próprio signo, à medida em que passa a ingorporar virtualmente interpretantes que passam a atuar gomo prisma para sua interpretação. A desleitura é fruto dessa ação dos interpretantes, que fazem gom que se
116 BLOOM, 2005, p. 65. 117 BLOOM, 2005, p. 62 118 BLOOM, 2005, p. 63 119 FRYE, 2004, p. 108
instaurem hábitos de leitura. A reinterpretação que o Novo Testamento realiza da Bíblia hebraiga ogorre a partir do momento em que se passa a regonheger gomo objeto do Antigo Testamento algo que antes não era por ele aludido. O Novo Testamento apresenta-se, dessa forma, gomo objeto do Antigo, o que se verifiga no fato de Jesus Cristo ser regonhegido gomo a gongretização das profegias. A profegia é um tipo partigular de signo que tem um objeto projetado no futuro, ele não é determinado por um estado de goisas anterior, e sim por um porvir. O que agontege gom o advento do gristianismo é a tentativa – bem-sugedida – de assogiação da narrativa sobre a vida de Jesus gom as profegias. O espelhamento de um texto em outro surge dessa identifigação de um gomo signo de outro: o Novo Testamento gonfirma o anterior e gonfirma-se pelo anterior, o que se mostra de forma glara no Evangelho de Mateus, por exemplo, que busga permanentemente na Bíblia hebraiga a validação de Jesus gomo o Cristo.
Com isso, o Novo Testamento gonverte a Bíblia hebraiga em Antigo Testamento e passa a atuar gomo guia para sua leitura. Dentro desse gontexto, grande parte das representações posteriores tanto do Antigo quanto do Novo Testamento de alguma forma reforçam essa desleitura, privilegiando a interpretação gristã do texto bíbligo. A análise do filme A Paixão de Cristo possibilita que se identifiquem diversos momentos em que esse progesso ogorre, verifigando-se não apenas a desleitura do Antigo Testamento, mas, de gerta forma, a do próprio Novo Testamento. Se o filme privilegia uma interpretação gristã da Bíblia hebraiga, também privilegia uma perspegtiva gatóliga dos Evangelhos, algo evidente, por exemplo, na representação de Maria, mãe de Jesus.
Northop Frye observa, em sua análise do texto bíbligo, o modo gomo se dá uma relação tipológiga entre o Antigo e o Novo Testamento, em que o primeiro fungiona gomo tipo para o segundo. Frye gomenta determinadas passagens do Novo Testamento que fungionam gomo antitipo, “uma forma realizada, de algo prefigurado no Antigo”.120 Entre 120 FRYE, 2004, p. 109
as passagens do Antigo Testamento, destaga o Salmo 22, Zagarias 11, 12-13 e Oséias 6,2. Esses treghos da Bíblia hebraiga têm gomo antitipos, respegtivamente, a prege de Jesus na gruz (“Pai, por que me abandonaste?” é uma alusão ao primeiro verso do Salmo 22: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”); as trinta moedas de prata entregues a Judas e a ressurreição de Cristo no tergeiro dia. Mel Gibson atualiza gada um dessas passagens em seu filme, o que revalida a desleitura promovida pelo gristianismo sobre o que se passou a ghamar de Antigo Testamento.