A visita dos palhaços tem que acabar, não porque acabou o tempo, mas porque o tempo passa e o outros deveres chamam. Não são atores se dedicando à experimentação do palhaço. São jovens tentando aprender profissões da saúde. Daqui a pouco é a prova, a aula teórica ou a prática.
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Branco e Augusto são a clássica dualidade de palhaços em que um representa a ordem, a riqueza, a altivez, e o outro a desordem, a pobreza, a trapalhada. Geralmente o Branco se serve do Augusto como escada, que é o fato de um se valer da derrocada do outro para gerar graça, embora o contrário também possa acontecer. Costuma-se ressaltar, atualmente, que não há, rigorosamente, um palhaço augusto ou branco, mas situações que lhe conduzem a ser branco ou augusto, portanto, estes dois são estados de palhaço que o ator assume motivado diretamente pela qualidade das interações.
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Queriam ter mais tempo para praticar as técnicas que lhes fariam melhores atores- palhaços. Pelo menos não descansam de tentar organizar o projeto, elaborar trabalhos para serem apresentados em congressos, partilhar alguns conhecimentos que vão aprendendo aqui e acolá.
Saindo da enfermaria de pediatria, voltam todo o caminho que percorreram até a salinha do grupo. Ainda brincam com quem passar, por vezes até mais, pois estão mais soltos, mais entregues ao estado de palhaço. Chegando à salinha, a brincadeira não para até tirar o nariz, quando de repente, o corpo suado despenca nesta outra realidade: a dos deveres de estudante.
Nesse choque de realidades seguem durante um, dois, três ou quatro anos. Chega o dia de se despedir. Ninguém falou qual o sentido último da vida, para que se faz tudo isso, mas desde que nascemos já outorgaram um sentido para ela: adquirir níveis crescentes de autonomia para contribuir com a sociedade em sua manutenção e expansão. Para isso, é preciso que o Y seja atravessado. Viveram momentos memoráveis nele, mas era preciso virar memória.
Há algum tempo, ritualizaram uma festa simples para quem sai. Não tem graça se não houver lágrimas. Nunca falta. Às vezes criam uma paródia com o nome do palhaço, simbolizando tudo o que ele foi e fez. Outras é um presente feito a muitas mãos.
“O que levaram do Y?”, pergunto para quem já partiu:
J me fala sobre o autoconhecimento atrelado a forma de relacionar com o mundo:
J: o Y teve uma contribuição fundamental para mim — e eu tenho certeza que para as outras pessoas – na nossa formação humana. Quem eu sou... Nesse entendimento de quem eu sou, quem eu desejo ser, como eu quero me relacionar com o mundo, como eu quero me relacionar com as pessoas.
G fala das habilidades de comunicação, na empatia, no respeito pelo espaço do outro, na inteligência de saber chegar e conquistar as pessoas:
G: ... o que eu carrego dela [da palhaça] para o que eu sou hoje, enquanto pediatra eu acho que a M[nome da palhaça] ela fica naquele cantinho, aquela carta na manga pra eu poder conseguir iniciar um contato com a criança, pra eu poder iniciar um dialogo com uma mãe, pra eu procurar compreender aquele sofrimento, para eu também aceitar que aquela criança tem o direito de não querer estar a fim de falar comigo, e era uma coisa que a gente sempre falava, que a gente sempre tinha que pedir licença antes de iniciar o contato. [...] Eu sempre acho um momento assim pra não ser tão agressiva, tem que conquistar, acho que o Y me ensinou a conquistar as pessoas também.
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Mc fala sobre a abertura ao outro associada à vontade de ajudar, e o poder transformador de tudo isso:
Mc: [...] em essência essa historia da relação que você traça com a pessoa quando você está aberta a receber o que o outro tem, quando você esta disposta a entrar nessa relação de forma a ajudar o outro, não tem como não mexer contigo e não te transformar.
H agradece às crianças por terem lhe tirado a ilusão do controle de tudo. Teve que aprender a improvisar e a fluir com o que estava acontecendo:
H: [...] acho que, a maior importância foi estar sempre remetendo a impossibilidade de controlar, sabe? [...] E isso é muito desafiador por que... foi uma construção minha não precisar de tanto controle e me dar bem com a minha impossibilidade de controlar as coisas. E foi uma construção que eu acho que o Y participou bastante.
R enxergou no Y o paralelo entre a palhaçaria e a psicologia que abraçou:
R: Assim, eu acho que quando eu falei sobre todos esses movimentos e desconstrução e desatar nós que impedem movimento, que impedem vida, eu acho que esse é exatamente o ponto de tangência com a própria psicologia, não é? Assim, uma vez que a Psicologia, ela intenta se voltar para o outro, ter uma escuta que possibilite, assim, você desfazer alguns nozinhos, alguns sintomas, alguns entraves na vida que impedem a pessoa de dar conta do movimento. [...] que curioso é pensar que, por exemplo, da mesma forma que a intervenção do psicanalista muito mais voltado, assim, para uma entrega de escuta, é muito próximo da própria atitude do palhaço, talvez, no sentido de que o palhaço tem intervenções muito econômicas.
Rf diz que vê o quanto influi na melhora de seus pacientes o apego e a dedicação que são praticadas no Y:
Não tem como negar, o paciente que você se apega mais e que você se dedica mais, ele acaba sendo melhor tratado. Mesmo naquela correria, naquela... não é? Então se você se apega, se você conhece a história de vida daquele paciente, você acaba se apegando mais, acaba sendo mais detalhista, até mais técnico, não é? E não naquela linha de produção que, às vezes, a gente acaba virando. Dor nas costas é isso. Gripe é isso. [fala sobre a intervenção terapêutica apenas sintomática em que cada doença possui um tratamento específico, abstração feita do indivíduo adoecido] [...] Aí você se... você se dedica mais ao paciente, não é? Chega na parte mais pessoal.
K, que era arredia aos quadrados que a sociedade impõe, agradece a importância dos limites que sua palhaça a fez enxergar, mas também a lição de entrar em encontros abertos para a surpresa que o outro representa.
É meio contraditória, mas... limites. Ela [a palhaça] me ajudou a ver isso, [...] a observar as pessoas no que elas tem delas. Então, que eu brincava com uma criança de uma coisa... eu podia.. a outra criança podia não brincar, isso parece obvio mas não é. [...] e acho que o que eu mais aprendi foi se permitir ser, se permitir ao encontro, lembro muito disso [...] de não ir com nada preparado, isso era uma coisa
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que eu levava bem a sério. Eu ia [para a visita no hospital] com cartas na manga, mas que lá viravam outras coisas, enfim, que não podia prever e que ela me mostrou potencialidades e possibilidades disso, de me reconhecer, de ter a oportunidade que eu tive, de desenvolver certas habilidades.
E você, Allan?
— Bem, o que eu levei do Y? Ah! Tanta coisa, tanta coisa, mas tanta coisa, que eu acabei sem levar nada. Decidi ficar.
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