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Elucidada a questão do relacionamento das normas jurídicas na aplicação do direito, retomamos, então, a enumeração dos princípios. Com efeito, citamos alguns princípios constitucionais gerais que vemos como relevantes a este estudo. Todos estão submetidos ao princípio (FERRAZ JÚNIOR, 1990) ou postulado (ÁVILA, 2007) da unidade da Constituição,

qual seja: a Constituição Federal deve ser vista como um articulado de sentido com uma lógica interna que se projeta numa forma hierárquica sem a qual não há segurança nem certeza, isto é, sem a qual o texto maior se converte em instrumento do arbítrio (FERRAZ JÚNIOR, 1990).

Seja como for, selecionamos estes princípios genéricos:

• da justiça — está implícito e representa uma diretriz suprema, penetra em todo o ordenamento e é valor dotado de subjetividade; tal primado se realiza pela implementação de outros princípios, fazendo-o relevante, verdadeiro sobreprincípio;

• da certeza do direito — também alçado ao rol de sobreprincípios, trata-se de valor imprescindível ao ordenamento, situa-se na raiz do dever-ser e afasta a probabilidade: ou é, ou não é; é implícito e se realiza mediante outros princípios; • da segurança jurídica — não se confunde com o princípio da certeza do direito:

enquanto este determina a produção de enunciado normativo com sentido deôntico, aquele decorre de fatores sistêmicos que usam o primeiro racional e

objetivamente na disseminação, na comunidade social, do sentimento de previsibilidade quanto aos efeitos jurídicos da regulação da conduta; realiza-se, quanto ao passado, por meio de outro postulado, o da irretroatividade; quanto ao futuro, por inúmeros outros; é indissociável do valor justiça;

• da igualdade — consta expressamente do artigo 5º, caput, da Constituição Federal e denuncia uma axiologia extrema e vital; seu destinatário é o legislador; não é tarefa tranqüila determinar seu conteúdo;38

• da legalidade — é explícito no artigo 5º, II, da Constituição; é norma jurídica que estipula limites objetivos porque determina que só a lei pode obrigar;

• da irretroatividade das leis — visa implementar seu vetor imediato: o primado da segurança jurídica; refere-se, ainda, à certeza do direito e é, igualmente ao anterior, norma superior que estabelece limites objetivos;

• que afirma o direito de propriedade — explícito no artigo 5º, XXII e XXIV, tem aplicação especial no âmbito tributário, pois o que se atinge pela tributação é o patrimônio como propriedade do sujeito passivo da obrigação tributária, por isso o legislador deve se atentar a esse primado, e a outros presentes no sistema, ao desenhar regras de incidência tributária, configurando, assim, um limite objetivo.

Também merecem atenção os princípios que prestigiam a vida, a dignidade da pessoa humana e a propriedade, preservando o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, tal como estão prescritos preambularmente na Constituição Federal, que, por certo, abarca também os princípios da presunção da inocência, da boa-fé objetiva e da autonomia de vontade nas relações privadas.

Eis, então, os princípios gerais que vemos como mais relevantes. Além deles — que decerto interferem por completo no trato das questões tributárias —, nosso sistema constitucional deu tratamento especial à matéria e, ao fazê-lo, estipulou normas principiológicas específicas não só para a temática tributária, mas também — dentro dela — a cada uma das espécies de tributos. Com efeito, o exercício da tributação no Brasil deve ser feito com a observância dos princípios constitucionais tributários, aqueles que iluminam o subsistema constitucional tributário; o legislador infraconstitucional e o aplicador da lei devem se atentar a essas disposições de índole constitucional.

Nesses termos, sem prejuízo dos demais, listamos a seguir alguns princípios que julgamos como importantes para desenvolvermos nossas idéias.

• Princípio da estrita legalidade — além da previsão genérica do artigo 5º, caput, em matéria tributária, esse princípio é reforçado por meio do artigo 150, I, da CF

e estabelece que não basta qualquer lei para instituir o tributo: ela deverá conter os elementos descritores do fato jurídico e os dados prescritores da relação obrigacional — esse plus caracteriza a tipicidade tributária.

• Princípio da anterioridade — reza, v. g., que o diploma normativo que institui ou aumenta tributo deve ser publicado no tempo antecedente ao início do exercício financeiro em que se pretenda cobrar a exação criada ou fundamentada. Tal princípio não deve ser confundido com o da anualidade, que, embora vigente, não tem mais efeito na área tributária.

• Princípio da irretroatividade da lei tributária — trata-se de repetição pura e simples do primado contido no artigo 5º, XXXVI da CF. Visa proteger a coisa

julgada, o direito adquirido e o ato jurídico perfeito.

• Princípio da tipologia tributária — é implícito e decorrente do disposto nos artigos 145, § 2º e 154, I, da CF. Pelo uso do critério calcado no binômio hipótese

de incidência–base de cálculo, visa determinar a definição da espécie tributária para, então, atestar se o regime tributário dado a ela foi respeitado.

• Princípio da proibição de tributo com efeito de confisco — embora pareça ser limite objetivo (pois as dificuldades de determinação do que viria a ser confisco são sérias), apresenta-se como valor que deve ser buscado no subjetivismo peculiar à espécie. Caberá ao legislador sentir o que seria um tributo com efeito confiscatório quando tratar de sua criação ou majoração; mas o sistema dá alguns parâmetros, como a capacidade contributiva.

Há outros princípios vigentes em nosso ordenamento, mas vão além dos limites deste estudo. Posto isso, vejamos os princípios que disciplinam o imposto sobre a renda.

Benzer Belgeler