Ravallion e Huppi (1990; 1991) utilizaram a classe de medidas FGT, para a construção de uma simples fórmula, com o objetivo de avaliar a contribuição da redução da pobreza em cada setor de atividade econômica (mudanças intra-setoriais) e a contribuição das mudanças na distribuição da população entre esses setores (mudanças inter-setoriais), para a redução da pobreza global. Essa classe de medidas é escolhida por apresentar as importantes propriedades que uma medida de pobreza deve ter, as quais são: aumentar quando a renda de uma família pobre diminui (axioma da monotonicidade), aumentar quando a renda é transferida de uma família pobre para outra menos pobre (axioma da transferência), incorporar uma medida de distribuição de renda entre os pobres, e ser aditivamente decomposta por subgrupo populacional. Assim, dada as medidas de pobreza em duas datas (t = 0 e 1), a fórmula obtida a partir da classe de medidas FGT é a seguinte:
Em que Pit é a medida de pobreza FGT para o setor i com população ni no período t,
A partir dessa fórmula, é possível observar a existência de três efeitos: intra-setorial, deslocamento da população e interação. O primeiro é referente à contribuição da variação da pobreza dentro dos setores, ou seja, diz quanto da variação da pobreza agregada deveu-se a mudanças na pobreza dentro de cada setor, sendo tal efeito controlado pela parcela da população do período base. O segundo mostra como as mudanças na distribuição da população entre os setores contribuíram para a mudança na pobreza agregada entre os períodos t0 e t1. Por fim, o terceiro aparece quando existe correlação entre os ganhos setoriais
e as mudanças populacionais.
O presente trabalho adota esse método de decomposição para realização da análise da estrutura setorial da pobreza e sua evolução, como Ravallion e Huppi (1990, 1991) em estudo realizado para Indonésia. Aqui, a estrutura setorial adotada considerará as atividades econômicas no Nordeste brasileiro e na Paraíba.
Para aplicação desse método de decomposição a variável utilizada foi a renda mensal domiciliar per capita. Considerando a decomposição setorial por atividade econômica, a escolha do setor de atividade para representar os componentes do domicílio foi feita com base na atividade da empresa na qual trabalhava o chefe do domicílio (em seu trabalho principal). Quando o chefe do domicílio não tinha trabalho principal optou-se por escolher a atividade do indivíduo com maior renda no trabalho principal do domicílio. A opção pela adoção do critério de escolha da atividade pelo chefe do domicílio se deve ao fato de que, de um modo geral, a maioria dos indivíduos pertencentes a este, depende da renda ganha por essa pessoa.
A classificação das atividades econômicas da PNAD em 2002, 2003 e 2009 tem como base a Classificação Nacional de Atividades Econômicas Domiciliar (CNAE Domiciliar), entretanto, a utilizada em 1995 tinha como base a classificação de atividades adotada no Censo 1991, o que significa que foi necessário realizar algumas compatibilizações devido às mudanças ocorridas.
Conforme classificação da PNAD, no ano 1995 havia onze setores de atividades, os quais eram: agrícola; indústria de transformação; indústria da construção; outras atividades industriais; comércio de mercadorias; prestação de serviços; serviços auxiliares da atividade econômica; transporte e comunicação; social; administração pública; outras atividades e atividades mal definidas ou não declaradas. Já nos anos 2002, 2003 e 2009, eram treze os setores de atividades: agrícola; indústria; indústria de transformação; construção; comércio e reparação; alojamento e alimentação; transporte, armazenagem e comunicação; administração pública; educação, saúde e serviços sociais; serviços domésticos; outros serviços coletivos sociais e pessoais; outras atividades; atividades mal definidas ou não declaradas.
Assim, a compatibilização foi feita de forma a reagrupar as atividades dos indivíduos em 1995 de acordo com a classificação dos setores de atividades nos outros anos. Para isso, utilizou-se a tabela de correspondência CNAE-Dom x CNAE x PNAD 91 da Comissão Nacional de Classificação (CONCLA) do IBGE. Porém, algumas atividades em 1995 poderiam ser enquadradas em mais de um grupamento de atividade pela classificação dos anos 2002, 2003 e 2009, dessa forma, a escolha do setor de atividade no qual essas deveriam ser encaixadas foi feita de maneira subjetiva, analisando-se com qual setor elas se identificavam mais, objetivando-se com isso evitar dupla contagem dos indivíduos.
Também foi realizada a fusão de dois setores de atividades, em todos os anos estudados: o da administração pública e o da saúde, educação e serviços sociais. Essa agregação foi feita devido ao fato de que em 1995 a parte referente à saúde pública estava codificada com o mesmo número que outras atividades da administração pública, não sendo possível separá-los, o que implicava na inclusão da saúde pública em 1995 apenas no setor da administração pública (já que as demais atividades que compunham a administração pública eram predominantes) e não no setor de saúde, educação e serviços sociais, como deveria ser feito, dado que a saúde pública compõe boa parte da atividade da saúde. Deste modo, como a agregação teve que ser feita em 1995, nos outros anos ela também foi necessária para poder compará-las.
Por último, criou-se um setor denominado outras fontes para aqueles indivíduos que não faziam parte de nenhum setor de atividade econômica, ou seja, cuja renda não era proveniente do trabalho. Assim, ao final de todo o processo de tratamento dos dados foi possível obter treze setores de atividade econômica18, os quais foram:
1- Agrícola
2- Outras atividades industriais; 3- Indústria de transformação; 4- Construção;
5- Comercio e reparação; 6- Alojamento e alimentação;
7- Transporte armazenagem e comunicação;
8- Administração pública, educação, saúde e serviços sociais; 9- Serviços domésticos;
10- Outros serviços coletivos, sociais e pessoais;
18
As tabelas com a composição de cada setor de atividade e com a compatibilização das atividades encontram-se no apêndice A.
11- Outras atividades;
12- Atividades mal definidas e/ou não declaradas19; 13- Outras fontes.
4.3 Método de decomposição da pobreza entre os componentes crescimento e