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APPENDIX A: GÖRÜŞMELER İÇİN SORU YÖNERGESİ

1. KUŞAK SORU LİSTESİ

Pra onde vai a canção Quando finda a melodia? Onde a onda se propaga? Em que espectro irradia? Pra onde ela vai quando tudo silencia? Depois do som consumado Onde ela existiria? (LENINE)

Para Deleuze e Guattari (1997a), o objetivo da música seria o devir4. Um devir-mulher, devir pássaro, devir-criança. A música, atravessada por minorias e ao mesmo tempo compondo uma imensa potência, é atravessada por um devir-animal e devires de feminilidade e infância.

Nem o pintor e nem o músico imitam um animal; eles é que entram em um devir-animal, ao mesmo tempo que o animal torna-se aquilo que eles queriam, no mais profundo de seu entendimento com a Natureza [...] Uma criança cantarola para arregimentar em si as forças do trabalho escolar a ser feito. Uma dona de casa cantarola, ou liga o rádio, ao mesmo tempo que erige as forças anti-caos de seus afazeres. Os aparelhos de rádio ou de tevê são como um muro sonoro para cada lar, e marcam territórios[...] (DELEUZE; GUATTARI, 1997a, p. 93).

Essa força que o autor descreve como uma “força desterritorializante,” explicaria a fascinação coletiva exercida pela música. A expressão musical é inseparada desses devires que são, em si, o seu próprio conteúdo. Uma criança tranquiliza-se cantarolando; um pássaro, ao cantar, marca território. Em sua força de “desterritorialização e reterritorialização5 ”, o som

invade, atravessa, arrasta (DELEUZE; GUATTARI, 1997a).

Uma oralidade se expande nas canções ressignificando palavras na música. As narrativas da Tenda do Conto que se inicia com o dentista tocando no violão são intercaladas, ou melhor, expandidas nas vozes cantadas que se seguem. Assim, em muitas tendas, algumas canções se repetem compondo diferenças. A Narrativa evoca uma canção e a canção evoca outras narrativas, compondo pontes em paisagens diversas que arrastam em um tempo dentro/fora de nós; tempo antigo acabando de nascer: antigo/novo nascendo, desintegrando-se e recompondo-se em um cantar desordenado que é presença e ausência, entorpecimento e alegria; silêncio e som que se alternam e que, precedendo um “vir a ser”, seguem recompondo a capacidade de compor e escutar.

A música incita e excita os sentidos – criação de imagens, cheiros, sabores, evocação de lembranças e de desejos. Para Schopenhauer (2001, p. 145), a música é linguagem em seu mais alto grau de representação; independe do mundo aparente e “sua existência seria possível

4 O devir não é imitar e não significa outra coisa senão ele mesmo. É uma coexistência. “Devir é, a partir

das formas que se tem, do sujeito que se é, dos órgãos que se possui ou das funções que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, as mais próximas daquilo que estamos em vias de nos tornarmos, e através das quais nos tornamos. É nesse sentido que o devir é o processo do desejo” (DELEUZE; GUATTARI, 1997a, p. 55).

5 Todo território supõe uma desterritorialização. “É necessário ver como cada um, em toda idade, nas

menores coisas, como nas maiores provações, procura um território para si, suporta ou carrega desterritorializações e se reterritorializa quase sobre qualquer coisa, lembrança, fetiche ou sonho” (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 89).

mesmo com a inexistência do mundo: o que não se pode afirmar das outras artes”. Enquanto que as outras artes se referem à sombra, para o autor, a música se refere à essência; daí o seu efeito mais poderoso e incisivo.

Acordes em um violão, uma voz que convida outras provocando a participação de uma coletividade. Polifonia; diferenças produzindo ritmos – no som do “mar que quebra na praia” de Caymmi, no vento que assobia de Alcyr Chaves e Luiz Fernando da Câmara Cascudo; do sabiá de Chico Buarque prometendo “vou voltar” ao sabiá de Luiz Gonzaga e Zé Dantas onde a súplica se faz: “alivia minha dor”.

E a saudade, a alegria ou a dor se fazem, se desfazem e se refazem na música que ressignifica e se reapropria da estética da natureza: na canção que canta a volta da Asa Branca, o pé de serra onde se deixou ficar um coração, a lembrança de um coqueiro que de saudade morreu, a lua, musa inspiradora no céu do sertão – sol de prata prateando a solidão.

Cantigas do mar para o sertão seguem como se quisessem inverter os caminhos do rio; cantando saudades que se anunciam no sol que castiga, na terra que arde de sede, na secura do riacho e na água que corre dos olhos – “e o rio a correr (...) quem há de dizer a saudade no meio das águas rolando também”.

No espaço-tempo da Tenda do Conto, o sem tempo cronológico da música que se faz sedução e invenção junto às vozes que se entrelaçam à memória e ao esquecimento. Desfilam- se acontecimentos da vida em um sertão contado e cantado, ou melhor, como diria Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa, o sertão vai se fazendo “grandeza cantável”.

O dentista Justiniano Siqueira, integrante da equipe da Tenda do Conto, conta a história da sua viola enfatizando as diferenças entre viola e violão: “a viola faz tudo; toca Beethoven, Bach, bolero de Ravel, tudo. Além de trazer o som do interior ela se presta a tudo. Essa eu comprei no vuco vuco”.

Ao tocar a música “Chão de Estrelas” revela com entusiasmo: “ ‘Tu pisavas nos astros distraída’ me faz lembrar muita coisa bonita. É o verso mais lindo da Música Popular Brasileira, tem mais bonito que isso não!”.

Em tratamento para o câncer durante quase três anos, Justiniano acompanhou a Tenda do Conto até aproximadamente um mês antes de sua morte. Embora fisicamente debilitado pelas sessões de quimioterapia, não se eximia de participar cantando, tocando e narrando sua história.

Desafiando o seu corpo a mostrar o quanto podia, caminhava em direção à cadeira da Tenda afirmando: “estar aqui, tocar, cantar e ouvir vocês, renova a minha alma. Tudo o que

existe de mais precioso nessa vida eu encontro aqui”. Para ele, havia na Tenda do Conto algo que aliviava as dores; uma espécie de cura. A doença que o acometia perdia força e parecia superada – sem que fosse negada –, dando lugar à vida que pulsava com alegria entre poemas, narrativas e canções.

Figura 7 – O Dentista/músico Justiniano Siqueira na Tenda do Conto

Fonte: Arquivo da autora, 2013.

O tempo musical é suspenso; é outro do tempo cronológico – a música se dá como se fabricasse tempos conectando coisas, ligando um momento a outro que passou, a um outro momento mais distante e a um momento mais próximo. A música faz e desfaz territórios. Faz e desfaz lembranças e certezas.

A cada Tenda do Conto, novas canções são acrescentadas ao repertório conforme as lembranças dos participantes. Uma canção lembra outra e, assim, ora são repetidas, ora renovadas. Alguns participantes sentam na cadeira da Tenda do Conto e dizem: “Hoje quero apenas cantar uma música.”. E Cantam. Assim, as vozes que cantam seguem compondo, muitas vezes, um modo de dizer o não dito; cantar o não dito. A canção se faz extensão da voz falada, uma expansão da oralidade.

Além das canções que cantam a saudade, o mar e o sertão, são trazidas as de amor nos tangos e boleros, nos chorinhos, nas modinhas, nos fados e sambas canções que provocam sorrisos ou mesmo lembranças de encontros e desencontros – momentos em que alguns olhos

se fecham para permitirem o fluir da escuta do que emerge de dentro. Escuta atenta de si. Nesse sentido, a música pode ser compreendida na Tenda do Conto como um fator de afetivação6– algo que permite “habitar o ilocalizável” (ROLNIK, 2006, p. 39).

Em todas as Tendas do Conto já realizadas foi possível perceber que a música ocupa importante lugar na história da experiência, que parece já ter em si mesma suas próprias canções. Não raro, uma música, ao ser tocada na Tenda, desperta também nos participantes a lembrança de alguém que partiu ou que não compareceu naquela ocasião.

Alguns usuários trazem letras escritas das canções que lembraram em casa, programam- se para cantá-las ou mesmo solicitam que determinadas canções sejam acrescentadas ao repertório da Tenda. Assim, nas oficinas realizadas em outras unidades de saúde e nos eventos onde não foi possível a presença do dentista/músico, um pendrive com canções previamente selecionadas a partir das indicações dos narradores de Tendas anteriores é acoplado a uma pequena caixa de som sobre a mesa. Em geral, outras canções são lembradas a cada Tenda e acrescentadas ao repertório original.

Na unidade de medicina familiar e comunitária, em Natal/RN, observamos que a equipe que replica a experiência no local pergunta a cada narrador qual música gostaria que fosse tocada no momento de narrar sua história, em seguida, reproduz a música citada utilizando uma caixa de som conectada à internet.

Nos eventos de educação popular, os narradores sugerem cirandas antes de serem iniciadas as histórias e ao serem encerradas as Tendas, emprestando à experiência o movimento brincante das cantigas, da roda, dos corpos que ensaiam, cruzam, tropeçam e combinam passos e vozes sob o compasso de pandeiros, maracás e zabumbas.

6 Sueli Rolnik refere-se a fator de afetivação como algo que permite aguçar a sensibilidade, “habitar o

ilocalizável. Um passeio solitário, um poema, uma música, um filme, um cheiro ou um gosto.... Pode ser a escrita, a dança, um alucinógeno, um encontro amoroso – ou, ao contrário, um desencontro...” (ROLNIK, 2006, p. 39)

Benzer Belgeler