2. DOSYA VE DİZİN PAYLAŞIMI
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A prática religiosa está envolvida de agentes que se mostram com pretensões de poder e autoridade. Weber (1997) coloca a dominação como um conceito fundamental para a compreensão das práticas religiosas, entendida essa dominação (Herrshaft) como a probabilidade de que uma ordem com um determinado conteúdo específico seja seguida por um grupo de pessoas.
Em consonância, de certa forma, com essa idéia weberiana de o discurso religioso ter a função de exercer um domínio sobre os indivíduos, Althusser (1985) diz que a formação ideológica da religião (cristã principalmente) interpela os sujeitos a se submeterem a uma ordem superior (o Sujeito), cujo efeito é a total submissão do sujeito-cristão a forças que lhe são superiores. Nessa relação interlocutiva, o sujeito homem reconhece de maneira bem clara e definida o seu lugar e o lugar do Sujeito (com S maiúsculo) Deus, tendo que, a partir dessa posição ocupada, se comportar de forma adequada ao tom de onde fala.
O que Grangeiro (2002, p. 96) assevera sobre o discurso religioso exemplifica bem o posicionamento althusseriano exposto acima, para o que usa como exemplo as parábolas bíblicas de Jesus:
[...] lugares discursivos bastante delimitados, uma hierarquia bem definida. Esse discurso apodera-se do que podemos chama de “discurso familiar”, na sua forma patriarcal, cuja estrutura hierárquica baseia-se na autoridade paterna, oriunda do direito romano – o pater familiae, detentor do pátrio poder, o que, naquele contexto, significava direito de vida e morte sobre o filho [...]. No discurso religioso, Deus é o Pai Todo Poderoso, o que criou o mundo e o homem, e que detém, portanto, o poder de determinar a vida de todos [...]. O homem, por sua vez é o filho, a criatura que deve ouvir a palavra do Pai e obedecê-la. Há, na Bíblia, várias parábolas em que Deus é simbolizado por um pai, conforme o próprio Jesus O denomina: “Eu e meu pai somos um” (Lc.10,22); a parábola do filho pródigo, em que Deus é associado ao pai que recebe o filho de volta (Lc.15,11). Deus está, portanto, no lugar reconhecido pelos filhos, pelo “princípio da autoridade” [...].
Seguindo de perto essa perspectiva, Orlandi (1996) encontra, na analogia entre a religião e a autoridade, a dimensão mais profunda da discursividade presentes nas práticas religiosas. Empreendendo a tarefa de criar uma tipologia de discursos, a autora chega a uma classificação, levando em consideração dois critérios: a) a interlocução (reversibilidade, troca de papéis ou de status entre os interlocutores; b) o nexo entre polissemia e paráfrase, isto é, a possibilidade ou não de múltiplos sentidos. Dessa proposta, tem-se o discurso polêmico, o
lúdico e o autoritário. O discurso polêmico vive a tensão equilibrada ou controlada entre a polissemia e a paráfrase; já no discurso lúdico a polissemia e a reversibilidade se estabelecem totalmente, promovendo a inauguração de outras formas de dizer e atribuição de significado, enquanto o discurso religioso tende à monossemia e à paráfrase e contém a reversibilidade, pela qual “o objeto do discurso fica dominado pelo próprio dizer” (p. 42). Para a autora, o discurso religioso é, por sua especificidade, autoritário, pois procura absolutizar um sentido de tal maneira que se torne o único, o que, por conseguinte, torna a sua polissemia contida. Assim, é próprio do funcionamento discurso religioso a tendência para a monossemia, visto que a interpretação dos sentidos é fortememente monitorada pela autoridade incumbida para tal. Para Orlandi, o discurso religioso é também um discurso assimétrico, sustentado pela desigualdade dos papéis e lugares na interlocução entre Deus e o homem. O espaço dessa discursividade, portanto, é ocupado por dos tipos de sujeitos: um Sujeito maior que interpela, institui, ordena, salva, etc., e, do outro lado, um sujeito menor, que está fadado a responder, pedir, agradecer, etc.
No interior do discurso religioso em que as parábolas de Jesus surgem, como mostramos na seção anterior, a interpretação desse discurso precisa, para ter garantida a contenção da polissemia, ser feita realmente por alguém apto para tal, que se utiliza de determinados procedimentos discursivos para controlar o capital simbólico que a narrativa carrega, como a parafrasagem, recurso de que trataremos no próximo capítulo quando nos empenharemos em mostrar a configuração discursiva do gênero “parábola bíblica”. Nessa prática discursiva, funciona o que Maingueneau (1998, p. 18), baseado em Ducrot, chamou de “raciocínio por autoridade”, entendido como:
um raciocínio em que a validade de uma proposição decorre da autoridade de seu enunciador: “ Parte-se de um fato “X disse que P”, baseia-se na idéia que X (“que não é um imbecil” tem bons motivos para não estar enganado dizendo isso, e conclui-se daí a verdade ou a verossimilhança de P”. (Ducrot, 1984, 167)
Todavia, vários estágios de polemicidade perpassam a interlocução parabólica em que os atores disputam pela legitimação do sentido válido, forçando a criação de uma espécie de anti- ethos, como ficará claro no capítulo final da tese. Para agora, podemos dizer com Palmer (2005, p. 34) que:
Jesus era democrático em seus ensinamentos, mas ensinava com autoridade – uma autoridade não assentada em certificados acadêmicos. De fato, a sabedoria tecida nas conversas com o povo e suas muitas parábolas confundiam os líderes cultos daqueles dias. Espantavam-se como um pregador itinerante, saído de uma família
simples de camponeses e de uma cidade como Nazaré podia falar com tanto carisma e autoridade. Como podia um homem, que ignorava as rigorosas leis judaicas – como promover curas no Sábado e comer com taverneiros -, cativar centenas e milhares de judeus de todos os tipos?
Quanto à relação interlocutiva, a narrativa das parábolas de Jesus contada aos seus ouvintes procura instituir e legitimar, sim, uma certa assimetria na troca entre os interlocutores, gerando o princípio a que Orlandi denomina “princípio da não- reversibilidade”. Por esta interpretação, no discurso parabólico, o enunciador, por pertencer a um plano hierárquico superior (Jesus, Filho de Deus Eterno, Santo, o Deus encarnado, o Salvador) em relação ao do enunciatário (homens mortais, pecadores, carentes de salvação), procuraria, muitas vezes, utilizar este trunfo como forma de subjugar o seu enunciatário à ideologia que deseja estabelecer e aos efeitos de sentidos que pretende provocar.
É, assim, pois, que o ethos do locutor se representa nas parábolas. Quanto ao ethos do interlocutor, poderíamos indagar se sua identidade é a de se mostrar manso e passivo, como um simples sujeito-assujeitado que apenas decodifica dos sentidos já estabelecidos, ou se ele participa ativamente de construção dos sentidos, mostrando-se ativo, indagador e probelamatizador frente às idéias que lhe são expostas.
O que se observa é que a interação instaurada pelo gênero parábola não parece ser plenamente assimétrica. Nesse jogo de trocas verbais, o enunciatário assume, para utilizar um termo utilizado por Bakhtin (1997) uma atitude responsiva ativa, com a qual adota, em relação aos proferimentos, uma postura de concordância ou não, o que gera, pelo efeito de polemicidade do discurso, um certo anti-ethos. Segundo Bakhtin (1988, p. 153): “num campo de quase todo enunciado ocorre uma interação tensa e um conflito entre sua palavra e a de outrem, um processo de delimitação ou de esclarecimento mútuo”.
É evidenciada nas parábolas essa atitude responsiva ativa do interlocutor no instante em que, camuflados no jogo entre o dizer e o não-dizer, os enunciados parabólicos responsabilizam o enunciatário a se inscrever no discurso como um sujeito participante do sentido. Parece não haver, de todo, portanto, um monopólio do sentido, nem da palavra. Sob essa ótica, as noções de monossemia e irreversibilidade, postulados por Orlandi (1996) para descrever o discurso religioso, não servem para caracterizar, inteiramente, o discurso parabólico.
Assim, pela discursividade bíblica no seu todo, vemos essa dissimetria muitas vezes ser apagada ou minimizada, o que não caracterizaria o que, na terminologia de Orlandi, é chamado como “ilusão de reversibilidade”, em que se tem a impressão de que não se pode fixar o locutor no lugar do locutor e o ouvinte no lugar do ouvinte; daí, que, ao serem afetados pelo simbólico da língua, eles podem perfeitamente transpor o seu lugar de origem. Orientado por um sentimento de afeição, Jesus tira o bloqueio que impede essa reversibilidade, ignorando a autoridade que diz possuir como figura divina para igualar-se ao “homem natural”. (“Antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em
semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana”. (Fl.:2:7))
É interessante ainda mencionar que a religião opera com o conceito de verdade pela qual o discurso religioso fundamenta sua autoridade. Jesus ensinou com grande autoridade (Jo 3.34; 7.16; Mt 7.28-29). Não precisou, em muitas situações, citar várias autoridades humanas para legitimar a sua autoridade. Simplesmente poderia declarar: "Em verdade vos digo" (Mt 5.22-28, 32, 34, 39, 44). Ora, este tipo de discurso, para se constituir, tende a se apresentar como um discurso da Verdade e, portanto, precisa apagar a remissão de outras vozes. Nesse regime de verdade, o discurso de Jesus opera com uma específica concepção do que é verdade. Ele não só a ensinou, mas dizia ser ele a própria verdade (Jo.14.6).
Jesus mostra a sua autoridade pelo poder da sua palavra através do efeito e eficácia que pode causar, pautado no reconhecimento dos que lhe estavam próximos, como se pode observar pelo seguinte trecho tirado do Evangelho de Mateus:
Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, chegou-se a ele um centurião e rogou-lhe: Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico, padecendo horrivelmente. Disse-lhe: eu irei curá-lo. Mas o centurião respondeu: Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas dize somente uma palavra e o meu criado há de sarar. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade e tenho soldados às minhas ordens, e digo a um: vai ali, e ele vai; a outro: vem cá, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz. Jesus ouvindo isto admirou-se e disse aos que o acompanhavam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé. E digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente, e hão de sentar-se com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos Céus; mas os filhos deste reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes. Então disse Jesus ao centurião: Vai-te, e como creste, assim te seja feito. E naquela mesma hora sarou o criado. (Mt.8:5-13). Salientando esse aspecto de autoridade presente no discurso parábolico de Jesus, Haight (2003, p. 105) admite que:
Segundo o Novo Testamento, Jesus falava com autoridade. Pode-se inferir com a emergência do movimento jesuânico. Jesus impressionava as pessoas; foi lembrado como alguém que detinha autoridade. Mas a autoridade em matéria religiosa é, em última instância, mediacional; é a habilidade de revelar e de mediar a autoridade de Deus ou a realidade de uma maneira ou de outra. Parte da autoridade de Jesus revela-se nas parábolas. Embora algumas dessas narrativas continuem obscuras hoje, ou submetidas a múltiplas interpretações, muitas delas são absolutamente simples, claras e radicais. Várias vezes surpreendem a imaginação com um Deus que choca por ser tão misericordioso.
Nas parábolas, Jesus também declara sua autoridade se identificando com a imagem do juiz sentado num trono em glória celestial, que pelo seu poder controlará a eternidade de todos os seres humanos. Desse modo, ele diz ter autoridade para dar vida eterna no reino de Deus, bem como afirma ter poder para condenar pessoas à morte eterna. (Mt.25:31-32).
Outras vezes, declara Jesus, novamente, ter autoridade universal, para o que evoca a figura do Pai, colocando-se a si próprio ao mesmo nível de Deus e tornando os seus próprios mandamentos ao mesmo nível dos do Pai. (Mt.28:18). Ao mesmo tempo, Jesus, ao assumir essa figura do Pai, combina autoridade com amor, o que confere ao seu discurso não apenas um caráter de autoridade, mas empresta a ele também um acento afetivo. No tópico que segue nos demoraremos a discutir essa dimensão afetiva da religião.