O desenvolvimento da mediação ainda é incipiente no Brasil, mas já existe grande preocupação em relação à institucionalização de tal forma de resolução de disputas no contexto jurídico nacional. Além disso, existem diversas propostas legislativas em andamento209 que buscam regular seu procedimento, o que denota a importância do tema e a necessidade na regularização da matéria. Destacaremos algumas delas:
- Projeto de Lei nº 4.827/98, substitutivo ao Projeto de Lei da Câmara nº 94/2002 que “institucionaliza e disciplina a mediação, como método de prevenção e solução consensual de conflitos”. Elaborado pela Deputada Federal Zulaiê Cobra, o projeto iniciou sua longa trajetória legislativa junto ao Congresso Nacional no ano de 1998. Inicialmente continha apenas sete artigos, mas sofreu alterações diversas ao longo de sua jornada.
No dia 21 de junho de 2006, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado aprovou o PL 94/2002 e, posteriormente, o Plenário do Senado Federal confirmou a aprovação do texto. Em novembro de 2006, o Deputado José Eduardo Cardozo apresentou parecer pela aprovação do Substitutivo do Senado210 e desde março de 2007 encontra-se parado na Câmara dos Deputados, em razão das alterações sofridas.
208AMARAL, Lídia Miranda de Lima. Mediação e arbitragem: uma solução para os conflitos trabalhistas no
Brasil. São Paulo: LTr, 1994. p. 24. Segundo a autora, “o mediador intervém quando os recursos das partes em termos de conhecimento, persuasão e, em alguns casos, violência econômica (greve ou lockout), não conseguiram que se chegasse a uma solução. Cabe-lhe, então, apresentar algo de novo ou diferente às muitas possibilidades levadas em conta pelas próprias partes, podendo estimular ou mesmo ajudar os próprios interessados para que façam ofertas e propostas com base para chegarem a um acordo. Fica ele diante da necessidade de sugerir soluções para situações consideradas, às vezes, impossíveis.”
209Os projetos de lei seguem anexos ao presente trabalho.
210Interessante observar que em seu voto pela aprovação do Substitutivo do Senado, o Deputado lança críticas
ao próprio conceito de mediação: “apesar de entendermos que o conceito de mediação é muito mais abrangente do que aquele delimitado no presente projeto, conforme oportunamente lembrado pelo Instituto
O referido Projeto pretende criar a mediação paraprocessual, obrigatória para quem pretende demandar em juízo, tornando requisito obrigatório ao desenvolvimento regular de todo processo de conhecimento de natureza civil. Para cumprimento desse requisito obrigatório, poderá se optar por uma mediação prévia, que é anterior à propositura da ação ou incidental, que ocorre no curso do processo, devendo o juiz suspender o feito para tal fim. Ambas podem ser judiciais, quando se utilizarem de mediadores advogados, com três anos de experiência, aprovados para essa finalidade e integrantes do “Registro de Mediadores” dos Tribunais de Justiça ou extrajudiciais, quando fizerem uso de instituições de mediação ou mediadores independentes. Ele não exclui a possibilidade de mediação nos conflitos trabalhistas, mas seria importante inserir tal possibilidade no seu artigo 1º.
- Projeto de Lei nº 1345/2003, que institui instância conciliatória nos Tribunais;
- Projeto de Lei nº 4948/05, que altera o artigo 1571 do Código Civil para inserir a recomendação na regulação dos efeitos da separação e divórcio;
- Projeto de Lei nº 4891/2005, que regula o exercício das profissões de Árbitro e Mediador;
- Anteprojeto de Lei sobre Mediação encampado pela OAB do Brasil211; - Projeto de Lei Estadual nº 632/2007, que disciplina a criação dos Setores de Conciliação para as Varas Cíveis e de Família, em fase processual ou extraprocessual.
Ainda, o instituto da mediação tem sido desenvolvido por meio de programas de acesso à justiça e de justiça comunitária e implementados por Tribunais e ONGs. Alguns deles serão abaixo destacados:
- Instituto Pró-Mulher, Família e Cidadania é uma Instituição sem fins lucrativos, fundada em 11/11/1977, que presta atendimento gratuito em Mediação, nas áreas jurídica, psicológica e social à população de baixa renda. Suas principais atuações estão voltadas para a área de violência doméstica, de gênero e urbana. Pratica intervenção direta à população em sua sede, na sede da PAJ-Procuradoria de Assistência Judiciária do Brasileiro de Direito de Família, representado pelas Doutoras Giselle Groeninga e Águida Barbosa, o que deverá ser levado em conta nas regulamentações futuras sobre essa matéria, parece-nos que o substitutivo apresentado pelo Senado melhorou substancialmente o projeto inicial aprovado pela Câmara.”
211Texto publicado no Boletim da Associação dos Advogados de São Paulo, São Paulo, n. 2.180, 9 a 15 out.
Estado de São Paulo e no COJE-Centro de Orientação Jurídica e encaminhamento à Mulher da Procuradoria Geral do Estado. Recebe casos decorrentes de processos-crime de gênero e família processados pela Lei 9.099/95 do JECRIFAM – Juizado Especial Criminal da Família Central, para mediação em sua sede212;
- Projeto Íntegra Gênero e Família, que foi custeado pela iniciativa privada e, em parceria com a Instituição Pró-Mulher, Família e Cidadania, possibilitou a instalação de núcleos de mediação interdisciplinar em crimes processados pela Lei 9099/95, em conflitos de gênero e família;
- Projeto “Porto Alegre” – implementado em outubro de 1993, para aconselhamento familiar junto ao Fórum Central de Porto Alegre. Previa a atuação de um Juiz de Direito aposentado, advogados e profissionais da área de assistência social213;
- NAF – Núcleo de Atendimento Familiar do Judiciário – instalado no Fórum Central de Porto Alegre em 1997, tem como objetivo contribuir para o encerramento rápido e adequado dos processos das Varas de Família e Sucessão, Infância e Juventude, bem como os casos remetidos pelo Projeto Conciliação;
- Programa de Estímulo à Mediação do Tribunal de Justiça do Distrito Federal – a Resolução n. 02 de 22 de março de 2002, instituiu o Serviço de Mediação Forense, representando uma ação específica do Tribunal de Justiça do DF para a implantação e utilização de métodos alternativos de resolução de disputa no processo judicial, aplicando técnicas de negociação da Universidade de Harvard, aliadas às técnicas empíricas da conciliação e algumas teorias da mediação214;
- Projeto de Mediação da Vara da Infância e Juventude de Guarulhos, que teve como finalidade realizar e estudar os resultados de Mediação em casos de conflitos familiares e atos infracionais de menor gravidade215.
Destaque-se, ainda, a importância do núcleo de estudos e debates do CEBEPEJ – Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas Judiciais216, que atualmente estuda
212FREITAS JÚNIOR, Antonio Rodrigues. op. cit. p. 271.
213TARGA, Maria Inês Correia de Cerqueira César. op. cit., p. 191.
214Interessante conhecer a página na internet sobre o PROGRAMA de Estímulo à Mediação. Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Disponível em: <http://www.tjdft.gov.br/tribunal/institucional/prog_estimulo_mediacao/guia/guia.pdf>.
215ISSLER, Daniel. O Projeto de Mediação da Vara da Infância e Juventude de Guarulhos-SP (Parceria Unimesp/FIG). In: GRINOVER, Ada Pelegrini; WATANABE, Kazuo, LAGRASTA NETO, Caetano. op. cit., p. 84-86.
216O CEBEPEJ é uma associação civil, não-governamental, fundada em abril de 1999 e sem fins lucrativos
que tem como objetivo desenvolver estudos e pesquisas sobre a Justiça brasileira. Interessante consultar informações sobre sua criação, suas finalidades institucionais, objetivos e conteúdo disponibilizado no site
novos modelos de gerenciamento de processos judiciais, sendo que a utilização de meios alternativos de resolução faz parte de uma das perspectivas de tais estudos. Desde 2004, referido órgão trabalha juntamente com o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo em iniciativas voltadas à utilização de meios consensuais de solução de conflitos junto ao Poder Judiciário217. E nesse sentido foram realizadas experiências-piloto nas comarcas de Patrocínio Paulista e Serra Negra, onde foram instaladas duas unidades de mediação, uma voltada às ações envolvendo direito de família, questões relacionadas à área da infância e juventude e outra destinada aos casos cíveis em geral. Em ambas é possível o agendamento de sessões destinadas à mediação tanto na fase pré-processual quanto na fase processual. Tal experiência teve a aprovação do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e foi regulamentada pelo Provimento 894/2004 e, posteriormente, substituída e aperfeiçoada pelo Provimento 953/2005218.
Dada a importância do tema e a necessidade de uma maior comunicação e contato entre as diversas entidades que cuidam da mediação, em setembro de 2007 foi instituído o Fórum Nacional de Mediação – FONAME, integrado, voluntariamente, por entidades de qualquer natureza ou núcleos regularmente constituídos, que se dedicam ao aperfeiçoamento, à divulgação e à prática da mediação de conflitos219. O FONAME é composto atualmente por dois coordenadores (Célia Regina Zapparolli e Adolfo Braga Netto) e Comitê Executivo composto por cinco membros (Kazuo Watanabe, Caetano Lagrasta Neto, Rosane Mantilla, Mônica Galano e Antonio Rodrigues de Freitas Júnior).
CENTRO BRASILEIRO DE ESTUDOS E PESQUISAS JUDICIAIS. Disponível em: <www.cebepej.org.br.>.
217GRINOVER, Ada Pelegrini; WATANABE, Kazuo, LAGRASTA NETO, Caetano. op. cit. Importante
esclarecer que a obra citada é fruto de estudos e colaboração de vários membros do Núcleo de Estudos e Debates do CEBEPEJ.
218Conforme anexos ao presente trabalho.
219O Regulamento do FONAME (anexo ao presente trabalho) não realizará apresenta as atividades de
mediação, formação, nem capacitação de mediadores e apresenta os seguintes objetivos: “Art. 2º. O FONAME tem por objetivo:
I - difundir a cultura da paz;
II- – promover a contínua troca de idéias e o intercâmbio de experiências entre profissionais e estudiosos da mediação e de outros meios de solução pacífica de conflitos;
III– formular e definir critérios ou indicadores destinados a constituir parâmetros, mínimos e/ou ótimos a serem observados:
a) na capacitação, na formação e na sensibilização para meios de solução pacífica de conflitos; b) na qualificação de profissionais em meios de solução pacífica de conflitos;
c) na orientação quanto a preceitos e procedimentos éticos, a serem observados por profissionais, voluntários, servidores e estudiosos devotados à promoção de meios de solução pacífica de conflitos. IV - – promover eventos que se ocupem dos meios de solução pacífica de conflitos.
IV – opinar sobre proposituras legislativas e contribuir para a produção normativa sobre meios de solução pacífica de conflitos”.