Das três milhões de mulheres que dão à luz no Brasil, tem-se uma taxa de prevalência de 0,42% de mulheres portadoras de HIV, segundo estudo realizado em 2004. São estimadas cerca de 13 mil parturientes infectadas, evidenciando-se a necessidade do diagnóstico precoce da infecção pelo HIV (BRASIL, 2007c). Com o aumento dos casos entre as mulheres na faixa etária reprodutiva, aparecem as exigências de estratégias de assistência e prevenção nessa população, com destaque para o aumento da cobertura de testagem e uso da profilaxia da prevenção da transmissão vertical (ARAÚJO; VIEIRA; BUCHER, 2006).
Cada vez mais mulheres são infectadas pelo vírus HIV, passando estas a representar uma ameaça para o nascimento de crianças infectadas (BARBOSA, 1999). No Brasil a relação homem/mulher nos casos de aids vem apresentando mudanças, com uma tendência à predominância das mulheres nos casos novos, diminuindo a razão entre os sexos. Em 1986 essa razão foi de 15,1 homens por mulher, e em 2005 ficou em 1,5 (BRASIL, 2006a).
Frente às ações governamentais de incentivo a testagem anti-HIV no pré-natal, têm-se observado a descoberta da infecção pelo HIV durante a gestação, situação de grande impacto em momento de maior vulnerabilidade para a mulher, seja em termos biológicos ou psicológicos. Na categoria de exposição perinatal, observa-se no país a manutenção da redução dos casos devido à transmissão vertical em menores de 13 anos (BRASIL, 2006d), devido à adoção do protocolo de profilaxia de TV, além do incentivo a testagem no pré-natal e a testagem rápida pela chegada da gestante à maternidade.
Barbosa (1999), alerta para o fato de muitas mulheres serem diagnosticadas para HIV (muitas vezes compulsoriamente - durante a gestação, ao procurarem assistência pré-natal), pela introdução da oferta do teste anti-HIV na rotina de pré-natal. E, nesse tocante, Porto e Vargas (2000), comentam sobre a necessidade de impedir e combater a testagem de rotina e compulsória, posto que esta prática nada acrescente à mulher, em termos de informação e conhecimento, e sabidamente não ajuda a pensar e a tomar decisões.
Acrescenta-se a esses argumentos, altamente plausíveis, a necessidade de enxergar no momento de oferta do teste uma possibilidade de interação do profissional com essas pessoas, gerando um acolhimento consubstanciado em informações que objetivem oportunizar uma reflexão sobre suas vidas e sobre a necessidade de testagem, esclarecendo sobre transmissão do HIV de mãe para filho, prevenção de infecção, métodos contraceptivos, uso de preservativos, aleitamento materno, entre outros.
O aconselhamento pré e pós-teste é prerrogativa fundamental, pois “pode ajudar a pessoa a lidar com as situações de estresse que se apresentam diante da necessidade de realizar o teste anti-HIV”, devendo estar presente nos serviços de atenção à mulher nas várias oportunidades que esta busca a unidade de saúde, seja para planejamento familiar, consulta ginecológica, pré-natal, entre outros atendimentos, e não somente em decorrência da gravidez (ARAÚJO; VIEIRA; BUCHER, 2006, p.18).
Mulheres e homens que vivem e convivem com HIV/aids têm o direito decidir conscientemente sobre ter ou não filhos, fazendo tal escolha com base no máximo de informações possíveis quanto à perspectiva de contaminação de seus bebês e parceiros soronegativos no momento da concepção, pois a maior parte dos casos de infecção pelo HIV em crianças ocorre por transmissão perinatal.
A transmissão do HIV de mãe para filho pode ocorrer na gestação (cerca de 35%), durante o parto (cerca de 65%) e decorrente da amamentação (risco acrescido de transmissão de 7% a 22%), embora se saiba que o período peri-parto represente o momento mais significativo (BRASIL, 2007a). Houve avanços no conhecimento dos fatores de risco relacionados à transmissão vertical, no uso de antiretrovirais (na gestação, no parto e para o RN verticalmente exposto ao HIV) e do melhor manejo das práticas obstétricas das mulheres nessa condição (GRINSZTEJN, 2002).
A taxa de transmissão vertical do HIV (TV-HIV) ocorre em cerca de 25% das gestações de mulheres infectadas, quando intervenções profiláticas não são realizadas. No entanto, a taxa de transmissão cai para 8,3% se ocorrer a administração da Zidovudina (AZT) na gestação, no parto e no RN (BRASIL, 2007a).
O AZT é muito eficaz na diminuição da transmissão vertical comprovado pelos resultados do protocolo ACTG 076, representando uma redução em torno de 70% nas mulheres com uma condição imunológica ainda preservada. Para àquelas com doença mais avançada os esquemas antiretrovirais potentes, muitas vezes combinados com parto cesáreo, demonstram diminuir o risco da transmissão vertical pelo HIV, embora fatores como carga viral materna (maior determinante), estado imunológico, presença de processos inflamatórios e infecciosos, além de co-infecções e DST possam influenciar no aumento da taxa de transmissão (GRINSZTEJN, 2002).
Entende-se que aos serviços de saúde cabe a tarefa de se preparar para atender e orientar mulheres no que diz respeito ao exercício de sua sexualidade e mediante suas decisões reprodutivas (SANTOS, 2002). Cabe também, no campo das práticas obstétricas, a tarefa de melhorar a qualidade da atenção no pré-natal e durante o trabalho de parto, neste último, buscando a diminuição de procedimentos invasivos e do tempo de rupturas de membranas, que não deve exceder quatro horas, por serem fatores relacionados a maiores taxas de transmissão (GRINSZTEJN, 2002).
O aleitamento materno representa um risco adicional para a transmissão vertical, e por isso, mesmo que o HIV não seja descoberto na gestação, ou no momento do parto, a testagem anti-HIV no momento do puerpério, juntamente com a adoção de AZT para o bebê, poderá representar proteção para a saúde do recém-nato (GRINSZTEJN, 2002). Salienta-se que o AZT deverá ser administrado logo após o nascimento (ainda na sala de parto ou até duas horas após o parto) podendo ser administrado nas primeiras oito horas de vida. Não há comprovação de benefícios com AZT administrado após 48 horas do nascimento (BRASIL, 2007a).