• Sonuç bulunamadı

4. NÜMERĠK ANALĠZLER

4.3 Kompozit Yaprak Yayların Analiz Sonuçları

4.3.3 Hasar Kriteri Belirleme Kısmı

Como vimos, a miscigenação praticada na sociedade brasileira não era uma excentricidade, pois os norte-americanos estavam familiarizados com o fato de, no seu país, também existirem pessoas frutos de relações que ultrapassavam as barreiras de cor. O próprio abolicionista negro Frederick Douglass, ao ser inquirido das razões de se ter casado com uma mulher branca, afirmou que, no seu primeiro casamento, havia prestado uma homenagem à raça da sua mãe, que era negra, enquanto, no segundo casamento, estava prestando cumprimentos à raça do seu pai, que era branco.52 Qual seria, então, a razão do interesse pelo Brasil e do tratamento da miscigenação do país como uma excentricidade?

Para entender as razões que levaram dois importantes militantes do movimento abolicionista negro, Frederick Douglass e William G. Allen, a utilizarem o Brasil como exemplo de país onde, surpreendentemente, a mistura de raças era algo social e politicamente aceito, cumpre entender a importância deste debate na sociedade norte-americana. Como vimos anteriormente, desde a década de 1840, havia uma produção científica, nos Estados Unidos, dedicada a provar a inferioridade dos povos não brancos, sobretudo de negros e mestiços.53 Em uma sociedade escravista como aquela, tais argumentos tanto serviram para defender a escravidão quanto para repreendê-la, uma vez que alguns abolicionistas acreditavam na impossibilidade de brancos e negros viverem juntos e defendiam que os afro- americanos não eram considerados dignos de gozar dos mesmos privilégios reservados aos cidadãos brancos. Além disto, esta produção dita científica também afirmava que a mistura de raças, ou amalgamação, trazia consequências negativas para a sociedade.

Já afirmamos que, desde a década de 1840, o naturalista suíço-americano Louis Agassiz, que somou a sua teoria poligenista à teoria da degeneração, rezava que a mistura de raças distintas (também chamada de amalgamação) levava à degeneração racial e que o fruto desta mistura, o mulato, carregaria as piores características de ambas as espécies.54 Durante e após a Guerra Civil, houve um uso intenso das teorias científicas racialistas para justificar que a população negra liberta não estava apta para receber os privilégios da cidadania e os mesmos direitos que a população branca. A questão do voto, por exemplo, dividiu opiniões no

52

Essa frase de Frederick Douglass é citada em: JOHNSON, James Weldon. Along this way. New York: 1933 (reprint 1973), p. 61.

53

Sobre o debate das desigualdades raciais no discurso científico norte-americano, ver Capítulo 1.

54

A seguir, veremos como Agassiz aprimorou estas teses sobre a degeneração das “raças impuras” durante uma expedição ao Império do Brasil.

96

Norte e no Sul do país, sob o argumento de que pessoas que haviam acabado de sair do cativeiro não estariam aptas para votar. Na Região Sul, os black codes garantiram, inclusive com o uso da violência, o emprego de medidas que mantinham a população negra em uma condição muito próxima da escravidão. Mesmo na Região Norte, a mistura racial continuou a ser vista de forma negativa, justificada pelas diferenças raciais e pela superioridade da raça branca sobre a negra. As teorias do criacionismo, do poligenismo e a condenação da amalgamação (ou hibridismo) serviam para sustentar as crenças de que negros e brancos, por serem espécies diferentes, não poderiam conviver juntos após a abolição. Caso isto acontecesse, os resultados seriam desastrosos para a nação norte-americana.55

Agassiz precisava de um exemplo real para demonstrar suas teorias, que afirmavam a diferença das espécies e a degeneração das raças híbridas. Além disto, o cientista também precisava demonstrar as consequências consideradas desastrosas do convívio entre negros e brancos após a abolição, de maneira que a sociedade norte-americana pudesse se visualizar naquelas condições. Foi então que Agassiz empreendeu uma missão científica ao Brasil que, embora ainda fosse um país escravista, já havia sido utilizado como observatório de raças puras e mestiças e de suas degenerações. O momento escolhido para realizar tal empreitada não foi acidental: o ano de 1863, durante a Guerra Civil Americana, cuja questão central era a disputa pela continuação ou pelo fim da escravidão no sul dos Estados Unidos.56

Segundo a historiadora Maria Helena Machado, o Brasil foi o ambiente onde Agassiz fortaleceu seus argumentos sobre a ameaça representada pela miscigenação à sociedade norte-americana, caso, após a abolição, os afro-americanos permanecessem no país. A proliferação de negros de diversas etnias (que só poderiam ser vistas em uma longa viagem ao continente africano) e de indivíduos mestiços, que carregavam intrigantes características físicas, fazia da sociedade brasileira uma projeção daquilo que deveria ser evitado na sociedade norte-americana. Ao fotografar pessoas não brancas no Rio de Janeiro e Manaus, o cientista definia aquela sociedade como exemplo da degeneração social e do atraso que marcavam as sociedades latino-americanas. Com esta coleção, Agassiz voltou aos Estados

55

Sobre o papel das ideias racialistas e das políticas destinadas à população liberta após a Guerra Civil ver: FREDRICKSON, The black image in the white mind..., cit., p. 175-197. Elise Lemire enfatiza a permanência de ideias elaboradas pela ciência racialista durante a Guerra Civil e como elas se mantiveram no Norte após a abolição, como as afirmações sobre o cheiro da população negra, os males da amalgamação e o comportamento animalesco que marcava a sexualidade dos homens negros. Além disto, segundo a autora, havia um forte sentimento de resistência à igualdade racial. Ver: LEMIRE, Miscegenation: making race in America..., cit., p. 135-143.

56

MACHADO, Maria Helena P. T; HUBER, Sasha. (T) Races of Louis Agassiz: photography, body and science, yesterday and today/Rastros e raças de Louis Agassiz: fotografia, corpo e ciência ontem e hoje. São Paulo: Capacete, 2010, p. 30-33.

97

Unidos defendendo e justificando porque os afro-americanos, uma vez libertos, não deveriam ser incorporados à sociedade.57

Nos Estados Unidos, o estudo de Agassiz sobre as raças puras e mestiças brasileiras e a degeneração causada pela prática desenfreada de amalgamação foi bem recebido e amplamente divulgado pelos grupos conservadores da sociedade norte-americana, que também fizeram uso e se apropriaram destes estudos para justificar seus projetos políticos segregacionistas. Vejamos como isto aconteceu, na revista Saturday Evening Post, em 4 de abril de 1868, quando foi publicado um artigo intitulado “Brazil as seen by Mr. Agassiz”, ou seja, “O Brasil como foi visto pelo Sr. Agassiz”:

A questão emancipação [no Brasil] é tratada num espírito muito mais moderado do que tem sido no caso nos Estados Unidos. A escravidão está gradualmente morrendo sob um sistema razoável, a emancipação é freqüente e o trabalho escravo está paulatinamente sendo limitado aos fins agrícolas. Por outro lado, a mistura de raças parece produzir os piores efeitos. Segundo o professor Agassiz, a amalgamação das raças do branco, negro e índio está produzindo um ‘tipo mestiço indescritível, deficiente em energia física e mental’, e sem as boas qualidades de qualquer um dos progenitores.58

Embora o artigo tenha sido publicado depois do fim da Guerra Civil e da abolição, o texto refletia um impasse que se arrastaria na sociedade norte-americana por décadas: o que fazer com a população liberta e como evitar os efeitos extremamente negativos provocados pelo convívio entre negros e brancos, sendo o pior deles a mistura racial? Uma vez que os problemas dos Estados Unidos não estariam resolvidos com a abolição, para os grupos que defendiam a segregação racial, o Brasil miscigenado era o exemplo da decadência de uma nação e dos efeitos negativos da mistura de raças sobre os grupos humanos.

No entanto, para os abolicionistas negros, Frederick Douglass e William G. Allen, como vimos nos artigos anteriores, para não citar outros tantos exemplos, o Brasil era um exemplo a ser seguido justamente pela razão que o fazia ser condenado pelos racialistas: a mistura de raças e a inserção social de negros e mulatos na sociedade. Estas afirmações sobre a suposta aceitação da prática da amalgamação e da participação dos mulatos na sociedade brasileira nos fazem questionar se, em nenhum momento, os abolicionistas afro-americanos

57

MACHADO, Maria Helena. Os rastros de Agassiz nas raças do Brasil: a formação da coleção fotográfica brasileira. In: ______; HUBER, Sasha. (T) Races of Louis Agassiz…, cit., p. 34-40. Ver também, na mesma obra, os artigos de: GOMES, Flávio dos Santos. Agassiz e as “raças

puras” africanas na cidade atlântica, p. 54-62; e MONTEIRO, John M. As mãos manchadas do Sr. Hunnewell, p. 72-78.

58

98

perceberam ou tiveram notícia das desigualdades raciais vigentes no Brasil escravista. Ao que parece, apontar o racismo em outras sociedades não seria uma estratégia escolhida pelos abolicionistas afro-americanos. Aquele seria o momento de lutar por um outro projeto de nação multirracial no seu próprio país.

Enquanto os Estados Unidos ficavam isolados e em uma condição que se tentava caracterizar como vergonhosa, o Brasil, que agregava um conjunto de elementos negativos (escravidão, catolicismo e monarquia) que fazia com que fosse considerado atrasado para os padrões democráticos e republicanos da sociedade norte-americana, mantinha relações raciais mais flexíveis e, até mesmo, aparentemente igualitárias. Até o momento, só encontramos uma sutil menção à rejeição das elites brasileiras em aceitar a abolição da escravidão em uma matéria publicada no The Frederick Douglass Paper, em 1852. Mesmo assim, antes da crítica, a forma como a sociedade brasileira administrava a diversidade da população foi, mais uma vez, elogiada pelos abolicionistas afro-americanos:

Outro sério obstáculo para a disseminação dos princípios anti-escravistas nos Estados Unidos é muito menos presente no Brasil, que é o sentido de casta e a antipatia dos brancos de se misturar ou se associar aos negros. Neste país, a mistura de raças e a mistura de cores já fez muito para nivelar este impedimento com a aceitação da emancipação. Como conseqüência natural é digno de nota que a incapacidade da raça negra de compartilhar com o branco os deveres e privilégios da cidadania livre é um dogma que vem desaparecendo da experiência do país.59

Assim, em plena década de 1850, quando, nos Estados Unidos, a escravidão ainda era fervorosamente defendida pelos senhores de escravos e a rejeição à mistura racial era um sentimento compartilhado entre sulistas escravistas e boa parte da população que vivia no Norte do país, o exemplo da sociedade brasileira apareceu mais uma vez como algo mais democrático e elevado. A prática de amalgamação no Brasil, ao invés de significar o caos social (como diziam que aconteceria na sociedade norte-americana pós-abolição), garantiu, sob o olhar do autor, o bom convívio entre negros e brancos, arrefeceu o preconceito racial, colocando o Brasil escravista no caminho da abolição e em direção a uma sociedade sem desigualdade racial. Para não ameaçar esta perspectiva otimista projetada na sociedade brasileira, os obstáculos impostos à abolição no país foram colocados de forma superficial. A

59

The Frederick Douglass Paper, 19 fev. 1852. A mesma matéria é reproduzida no jornal The

National Era, em janeiro de 1852. Isto revela uma circulação de informações entre os jornais, que

publicavam notícias uns dos outros quando seus editores acreditavam que uma notícia era muito importante.

99

rejeição à liberdade foi justificada pela questão da escassez da mão de obra, já que o Brasil não conhecia outro tipo de relação de trabalho senão a escravista.

Entretanto, existem grandes obstáculos para a emancipação nesse país que são fundados em preconceitos profundamente enraizados pelas pessoas que estão a muito tempo acostumadas com o serviço dos escravos e na suposta dificuldade de obter uma quantidade suficiente de trabalhadores livres e também outros fatores que são peculiares ao Brasil.60

O exemplo do Brasil continuaria a ser apropriado, por muito tempo, pelo movimento abolicionista negro norte-americano como um país que não distinguia os cidadãos pela cor da pele. Mais do que isto, as comparações com a política norte-americana destinada à população liberta visava enfatizar que esta era vítima das contradições e dos desrespeitos aos valores políticos que nortearam a independência daquele país. Se a nação americana era a nação onde havia respeito aos direitos e à liberdade dos cidadãos, como poderiam os afro-

Benzer Belgeler