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com seu manto embebido de justiça a Constituição, mormente os direitos fundamentais por ela albergados. Dentro deste prisma, cabe ressaltar as palavras de Flávia Piovesan, quando nos diz em sua lição que:

No universo da principiologia a pautar o direito constitucional de 1988, o direito constitucional contemporâneo, bem como o Direito Internacional dos Direitos Humanos, desponta a dignidade humana como valor maior, a referência ética de absoluta primazia a inspirar o Direito erigido a partir da segunda metade do século XX.17

Não há, portanto, como negar a natureza especial e peculiar do princípio da dignidade da pessoa humana, pois se trata de princípio supremo, capaz de disseminar seu conteúdo axiológico sagrado em todo o texto constitucional e, conseqüentemente em todo o ordenamento jurídico pátrio. Sobre o tema, ainda é cabível ressaltar o pensamento de José Carlos Vieira de Andrada, exposto em seu livro “Os Direitos Fundamentais na Constituição Portuguesa de 1976”, citado por Cleber Alves:

O princípio da dignidade da pessoa humana está na base de todos os direitos constitucionalmente consagrados, quer dos direitos e liberdades tradicionais, quer dos direitos de participação política, quer dos direitos dos trabalhadores e direitos a prestações sociais. Pode ser diferente o grau de vinculação dos direitos aquele princípio. Assim, alguns direitos constituem explicitações de 1° grau da idéia de dignidade, que modela o conteúdo essencial deles: o direito à vida, a liberdade física ou de consciência, por exemplo, tal como a generalidade dos direitos pessoais, são atributos jurídicos essenciais da dignidade dos homens concretos. Outros direitos decorrem desse conjunto de direitos fundamentalíssimos ou então completam-nos como explicitações de 2° grau, mediadas pela particularidade das circunstâncias sociais e econômicas, políticas e ideológicas; o direito de manifestação, a liberdade de empresa, o direito a férias pagas, os direitos à habitação, à saúde, e à segurança social não decorrem necessariamente em toda a sua extensão do princípio da dignidade humana. Mas, ainda aí, é este princípio que está na base de sua previsão constitucional e de sua consideração como direitos fundamentais.18

3.3.1 A eficácia do princípio da dignidade da pessoa humana

17 PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Princípio da Dignidade Humana. In:Dos Princípios Constitucionais: Considerações em Torno das Normas Principiológicas da Constituição. LEITE, George Salomão (org.). São Paulo: Malheiros, 2003, p. 193.

O princípio da dignidade da pessoa humana emana seu poderoso conteúdo axiológico em toda a Constituição e em todo o ordenamento jurídico pátrio. Este fenômeno repete-se com igual força quando estão em foco os direitos sociais, in casu, os direitos constitucionalizados dos trabalhadores.

Conforme descrito no tópico anterior, o princípio da dignidade da pessoa humana atingiu um status de supremacia em relação aos demais princípios, fato constatado quando se considera que os direitos fundamentais solidificam este princípio. Nem todos os direitos fundamentais se relacionam diretamente com o princípio da dignidade da pessoa humana, mas, certamente, este é o princípio que espraia seu poderoso conteúdo axiológico, não apenas no rol de direitos fundamentais, mas também em toda a constituição e, conseqüentemente, em todo o ordenamento jurídico pátrio.

O Estado deve respeitar o princípio da dignidade da pessoa humana, estimulando condutas e promovendo ações que valorizem o ser humano em sua dignidade. “Como tarefa imposta ao Estado, a dignidade da pessoa humana reclama que este guie as suas ações tanto no sentido de preservar a dignidade existente ou até mesmo de criar condições que possibilitem o pleno exercício da dignidade”.19

Quanto à eficácia da dignidade da pessoa humana enquanto norma jurídico-positiva, convém recorrer aos ensinamentos do professor Ingo Wolfgang Sarlet, quando ao compilar o raciocínio de E. Brenda e K. Stern formulou a seguinte lição:

Num primeiro momento, a qualificação da dignidade da pessoa humana como princípio fundamental traduz a certeza de que o art. 1°, inc. III, de nossa Lei Fundamental não contém apenas uma declaração de conteúdo ético e moral (que ela, em última análise, não deixa de ter), mas que constitui norma jurídico-positiva com status constitucional e, como tal, dotada de eficácia, transformando-se de tal sorte, para além da dimensão ética já apon- tada, em valor jurídico fundamental da comunidade. Importa considerar, neste contexto, que, na condição de princípio fundamental, a dignidade da pessoa humana constitui valor-guia não apenas dos direitos fundamentais, mas de toda a ordem constitucional, razão pela qual se justifica plenamente sua caracterização como princípio constitucional de maior hierarquia axiológico-valorativa (höchstes wertsetzendes Verfassungsprinzip).20

19 SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais: Uma Teoria Geral dos Direitos

Fundamentais na Perspectiva Constitucional 10. ed. (rev, atual., ampl.). Porto Alegre: Livraria do Advogado,

2009. p. 102.

Esse carater de supremacia da dignidade da pessoa humana que resulta numa necessidade de eficácia deste princípio, notadamente para uma concretização dos direitos fundamentais, dentre eles os direitos trabalhistas constitucionalizados, também foi alvo de estudo de Arion Sayão Romita. O autor que corrobora com a doutrina de Ingo Wolfgang sarlet leciona que:

Por ter a Constituição de 1988 elevado a dignidade da pessoa humana à categoria de valor supremo e fundante de todo o ordenamento brasileiro, fácil é atribuir aos direitos sociais a caracteristica de manifestações dos direitos fundamentais de liberdade e de igualdade material porque, encarados em sua vertente prestacional (direitos a prestações não só jurídicas mas também fáticas), tais direitos têm por objetivo assegurar ao trabalhador proteção contra necessidades de ordem material, além de uma existência digna. Cumpre, em consequência, atribuir a máxima eficácia (jurídica e social) aos preceitos que os consagram, com o intuito de obter a realização prática do valor supremo da dignidade da pessoa humana, como recomenda Ingo Wolfgang Sarlet.21

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