A Igreja Católica oficialmente prega que o homem só está submetido à morte por causa do pecado. Depois da morte, sobrevive à alma, elemento espiritual dotado de consciência e vontade, como afirmado na Declaração da Congregação da Doutrina de Fé. No tempo intermediário entre a morte e o Juízo Final, a alma permanece sem o complemento do corpo.177 Sendo assim, depois da morte ocorre imediatamente um juízo especial para destinar a alma ao céu, purgatório ou inferno. Porém, antes de reinar com Cristo, as pessoas terão de prestar contas diante Dele sobre sua vida corporal e terminarão como bem-aventuradas ou condenadas, conforme o que houverem feito enquanto eram corpo.
É no purgatório que os homens serão purificados; ou seja, sofrerão uma ação que não denota condenação final. Afirma-se a existência do purgatório, entre outros lugares , na carta “Cum Dudum” de 1341 aos armênios,178 embora mediante a Sagrada Escritura contida no cânone, saiba-se que sua existência não pode ser provada. O resultado desse período intermediário de purificação, pois ela é concebida como um fogo transitório.179 é que as almas no purgatório não estão convictas da própria salvação – nem condenação – e não está provado por nenhum argumento racional, nem pela Escritura, que elas se encontram fora da condição de merecer a caridade. Sendo assim, podem ser libertadas do purgatório pelo sufrágio dos que estão vivos. No entanto, as almas assim libertadas gozam de menor felicidade do que se houvessem cumprido a purgação por si mesmas.180
Com relação ao sofrimento e morte, o ser humano teme e recusa com razão a destruição total e a extinção definitiva de sua pessoa porque carrega dentro de si uma semente de eternidade. O prolongamento da vida biológica não satisfaz o desejo de uma sobrevida. Entretanto, a fé oferece ao ser humano, ansioso com respeito ao destino
177
Henrich DENZINGER. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007, p. 123.
178 Idem, ibidem, p 325. 179
Henrich DENZINGER, op. cit. p 729.
180
futuro, uma resposta. Essa resposta afirma que somente Deus responde a pergunta do sentido da vida e da morte do ser humano, e o faz por meio da revelação em seu Filho. É por meio de Cristo e em Cristo que se esclarece o enigma da dor e da morte, que, fora do Evangelho, abala o homem. É por essa razão que a pessoa humana, com sua ansiedade e suas dúvidas, sua natureza fraca e pecaminosa, sua vida e morte, deve buscar refúgio em Cristo.
Foi mediante a paixão, sofrida em prol da humanidade segundo a Igreja, que Cristo preparou o caminho que as pessoas devem seguir, para que a vida e a morte sejam santificadas. Cristo compartilhou com os homens o sofrimento e a morte. Sem o fundamento divino e a esperança na vida eterna, os enigmas da vida e da morte, da culpa e da dor, permanecem sem resposta e, com isso, as pessoas caem em desespero. A existência da igreja recorda ao ser humano o significado de sua vida e morte. Assim, a igreja está em união estreitíssima, desde sua origem, com a alegria, a esperança, a ansiedade e a dor dos homens contemporâneos, especialmente com os pobres e oprimidos de todo tipo.
A missão da Igreja, pois, constitui uma missão religiosa e, por conseguinte, profundamente humana. A igreja se diz comprometida com a pessoa humana e especialista em questões de humanidade. A igreja crê na aparição da morte física como uma conseqüência do pecado original e prega a vitória sobre a morte mediante a Morte e a Paixão de Cristo. Assim, a vocação do ser humano é a imortalidade e o ser humano ressuscitará dentre os mortos, entendendo-se com essa afirmação que a ressurreição será da pessoa em sua totalidade. Dessa forma, o indivíduo ressuscitará em sua própria carne e não em alguma outra ou em uma sombra etérea. Portanto, conquanto não seja partidária da consumação desejada dos corpos pelo fogo, a Igreja autoriza a cremação de corpos, sobretudo nas regiões onde é difícil encontrar espaços adequados para satisfazer as prescrições de higiene ligadas aos lugares de sepultura, ou onde a inumação contraria os sentimentos religiosos, como na Índia por exemplo, conforme a Instrução do Santo Ofício “Piam etruscos constante” de 1963.181 Segundo a teologia católica, a entrada para a bem-aventurança estava fechada a todos até a morte de Cristo. Com a ressurreição e ascensão de Cristo, a porta da bem-aventurança foi aberta a todos os fiéis. Portanto, a idéia de que “os Patriarcas e os Profetas ou mesmo todos os maiores santos, mesmo antes do tempo de redenção, tenham habitado as moradas do paraíso” é
181
totalmente reprovada.182 Uma condição para a entrada no paraíso, entretanto, é a morte em estado de graça ou no amor de Cristo, uma vez que a Igreja crê na bem-aventurança dos justos, sendo os justos aqueles que depois do batismo não cometeram mais nenhum pecado ou aqueles que na terra ou no purgatório foram purificados. As crianças que morrem depois do batismo e antes do uso do livre arbítrio também se encontram nessa categoria.
As almas purificadas alcançam, imediatamente depois da morte e, portanto, antes da ressurreição de seus corpos e do juízo universal, a bem-aventurança. Nesse sentido, a Igreja Romana reprova a proposição contrária segundo a qual a alma separada do corpo não alcança a visão beatífica antes da ressurreição da carne. No entanto, a Igreja afirma ser impossível adquirir a bem-aventurança definitiva nesta vida.183 A bem- aventurança consiste no gozo da essência divina na visão e no amor de Deus; na união plena com Deus e os homens, em que Deus é tudo em tudo e em que já não há mais lágrimas. Recebe os nomes de céu, paraíso celeste e pátria eterna, por exemplo. Nem as Sagradas Escrituras nem os teólogos oferecem luz suficiente para descrever corretamente a vida futura depois da morte. Entre a vida presente em Cristo e a vida futura existe tanto uma conexão básica quanto uma grande diferença. Entretanto, como já dissemos, os corpos serão igualmente ressuscitados, pois os homens aparecerão com seus corpos diante do Juiz para prestar contas dos atos realizados na vida corporal. Porém, após o julgamento final, tal corpo será substituído por outro, pois Cristo nos transformará o corpo em um corpo glorioso semelhante ao seu.
Assim, a missa é considerada um sacrifício expiatório para vivos e defuntos, de modo que fazia sentido o enterramento dentro das igrejas, perto do altar e dos santos, bem como a encomenda de missas póstumas. Acreditamos até que a necessidade de sufrágios na Igreja Católica Romana se deve a essa íntima relação entre um mundo místico e outro temporal. Confiamos também que a crença católica na relação íntima entre esses dois mundos, motiva a fé no purgatório, bem como aquilo que a Igreja Romana classifica como superstições. Constataremos a veracidade ou não dessa afirmação no item que se segue.
182
Sínodo de Arles, ano 473: Fórmula de submissão do presbítero Lúcido. In: Henrich DENZINGER, op. cit., p. 123.
183
Constituição “Ad nostrum qui” de 1312 referindo-se aos erros dos begardos e beguinos sobre o estado da perfeição. In: Henrich Denzinger. Ibidem, p. 308.