Para se refletir acerca do papel do Estado e da sociedade na educação inclusiva, faz- se necessário uma retomada da Constituição Federal de 1988, capítulo III nos seus artigos 205 e 208, em particular. O artigo 205 está assim redigido:
A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.474
A interpretação mais apropriada a este artigo da Constituição é a de que é direito de todos, deficientes ou não, o acesso à rede regular de ensino. O sujeito da educação é o aluno. Viu-se com dificuldades que no direito de todos, as pessoas com deficiências estavam incluídas.475
O artigo 208, alínea III diz que ―o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência,
472 ―Por maior que seja a deficiência, valorizar as capacidades da pessoa que ali está‖. Texto-base, CF-2006, n.
318.
473 Cf. SEMINEDI: V seminário internacional de educação inclusiva. Conferência de Maria Aparecida
Cormedi: Fatores de sucesso para a inclusão de crianças com deficiência múltipla e surdocegueira. 14 e 15 de abril de 2011. São Paulo – Brasil.
474 NISKIER, Arnaldo. LDB: a nova lei da educação. 7 ed. Rio de Janeiro: Consultor, 1997, p. 296.
475 Cf. SEMINEDI: V seminário internacional de educação inclusiva. Conferência de Júlio César Botelho: A
atuação do ministério público no processo de educação inclusiva – I. 14 e 15 de abril de 2011. São Paulo –
preferencialmente na rede regular de ensino‖.476 Considerava-se contemplada a pessoa com
deficiência neste artigo. Porém o artigo em questão não fala de educação em escola regular, mas de um contraturno de atendimento educacional especializado. Este atendimento nunca é substitutivo, mas complementar.
O papel do Estado e da sociedade está em viabilizar uma escola para todos, nascida junto da construção de uma sociedade para todos. Uma sociedade inclusiva traz benefícios não só às pessoas com deficiência, mas para todas as pessoas. A sociedade e o Estado que se preocupam com todos e cada um de seus membros elevam-se nos princípios do bem comum e da justiça social. O caminho de mão dupla que se reclama neste processo, pode ser posto na seguinte sequência: família inclusiva, escola inclusiva, sociedade inclusiva, Estado facilitador da cultura inclusiva. Partindo-se do Estado como ponto inicial deste processo também é possível alcançar o objetivo.477
Da década de 1990 para cá, com os trabalhos das promotorias dos direitos humanos da pessoa com deficiência, entre outros tantos esforços, houve uma evolução do paradigma de integração para o de inclusão. Este paradigma exige que se identifiquem as convergências e se deixem de lado as divergências. No paradigma de integração, o problema está na pessoa e a sociedade a instrumentaliza para que ela possa participar o mínimo possível em seu meio. Já no paradigma de inclusão a deficiência não está na pessoa, mas na sua relação com o meio. Sociedade inclusiva é aquela pensada para todos.478
Vive-se um momento de transição importante no que se refere à escola e também à sociedade como um todo. Questões como: o que fazer com o volume de alunos que ingressam na educação inclusiva? O que fazer com o rompimento de convênios de secretarias? O Estado, por meio das promotorias, discute fatores que envolvem além da secretaria da educação, a da saúde e a da assistência social. O processo sócio-educativo inclusivo não é algo que está concluído, é um processo. Só haverá inclusão plena, quando houver ambientes sócio-escolares inclusivos. Ao se admitir a convivência com a pessoa com deficiência, admite-se consequentemente a necessidade de preparação do corpo social que seja acolhedor, do contrário estabelecer-se-á um ambiente repleto de bullyng.479
476 NISKIER, Arnaldo. LDB: a nova lei da educação, p. 297.
477 Cf. SEMINEDI: V seminário internacional de educação inclusiva. Conferência de Júlio César Botelho: A
atuação do ministério público no processo de educação inclusiva – I. 14 e 15 de abril de 2011. São Paulo –
Brasil.
478 ―Em 1990, a ONU aprovou a Resolução 45/91, primeiro documento internacional a cunhar a expressão
‗sociedade para todos‘‖. Texto-base, CF-2006, n. 70.
479 Cf. SEMINEDI: V seminário internacional de educação inclusiva. Conferência de Júlio César Botelho: A
atuação do ministério público no processo de educação inclusiva – I. 14 e 15 de abril de 2011. São Paulo –
Ao implementar políticas públicas favoráveis à inclusão, o Estado exerce, junto à sociedade, o seu papel de colaborador do processo. Desvincula, ainda, a escola da tendência a ser tomada, nos dias atuais, como a grande redentora da humanidade. No sistema federal de ensino, artigo 16 da LDB aparece o aspecto da inclusão como dependente das iniciativas do Ministério Público Federal.480 Os artigos 17 e 18 da LDB abordam os sistemas de ensino estadual e municipal.481 O Ministério Público funciona como o articulador da política pública. Diante do apoio do Ministério Público que encaminha as ações políticas do Estado, por uma sociedade sempre mais inclusiva, a partir da escola, como espaço socializante de relevo é lícito perguntar-se: as escolas especiais vão desaparecer? Caminha-se na direção da construção de um ambiente escolar inclusivo, que dê atendimento a toda diversidade social, inclusive às pessoas com deficiência. O artigo 205 da Constituição Federal prevê que a educação é direito de todos. A política do MEC é que os alunos estejam todos na rede regular de ensino e que haja atendimento educacional especializado no contraturno.
Ao menos dois pontos devem ser considerados nesta reflexão. O primeiro pelo fato de as escolas especiais serem historicamente importantes do processo de mudança de paradigma sócio-educativo. O segundo, por outro lado, está fundado sobre o dispositivo do artigo 205 da Constituição Federal, que as escolas regulares sejam para todos. Isso vale para escolas públicas como para particulares. Na verdade, as escolas particulares, de acordo com o artigo 209 da Constituição Federal só podem funcionar ao se adaptarem às normas gerais da educação nacional.482
As escolas especiais, como a APAE, vivem um processo de prestar serviços de apoio às escolas para onde migram seus alunos. As escolas especiais perceberão que terão de mudar de papel. Numa sociedade cada vez mais compartimentada, não se pode perder de vista que um dos pilares da educação é aprender a conviver.
A Deliberação número 68/06 do Conselho Estadual de Educação do Estado de São Paulo contempla questões novas como esta registrada no artigo 6: os alunos com severa deficiência mental ou grave deficiência múltipla têm de fazer a avaliação na presença dos familiares. Até esse momento era só sob a responsabilidade da escola. No artigo 14 está previsto o mínimo de acessibilidade. No artigo 3, lê-se que os com necessidades educacionais especiais têm direito à educação inclusiva. Direito público subjetivo. É um direito do aluno
480 Cf. NISKIER, Arnaldo. LDB: a nova lei da educação, p. 35. 481 Ibidem, p. 35.
em idade escolar. Não é direito do pai, da mãe, da escola, do professor ou do poder público. Aqui, entenda-se, sociedade mais poder público.483
Aos gestores, aos educadores, cabe a função de abrir adequadamente as portas do sistema. Os limites da pessoa com deficiência só ela irá mostrar. Ninguém é alguém para estabelecer os limites quanto ao potencial físico e intelectual para outrem. Quanto às dificuldades objetivas por parte da sociedade e do Estado e também do sistema escolar e familiar é importante ponderar que se se espera tudo ficar pronto nunca há de pôr em andamento ou processar a educação inclusiva, por uma sociedade toda inclusiva.484
É sabido que um dos pilares da Constituição Federal é a dignidade da pessoa humana.485 É importante a conquista de uma sociedade toda inclusiva ao ponto de abarcar a pessoa com deficiência em outras esferas sociais. Não é digno que a pessoa com deficiência fique 30/40 anos em uma sala de aula.486