I. GRUP KATYONLARININ ÖN DENEMELERİ
3. Kral Suyu
Médico. (…) varado de lado a lado por um terror fundo que não diz donde vem nem para onde vai.
(Torga, 1999: 33)
É bom isto de ser médico e poeta. São dois a dar.
É sempre a brocar o inconsciente dos padecentes que consigo compreendê-los e ajudá- los. (Torga, 1999: 1709)
Que continuemos a ser amanhã o que somos hoje e fomos sempre: dentro do hábito branco da bata, os monges professos e laicos de uma Ordem civil e sagrada.
Torga, 1999: 1785) Não é só a poesia que eleva Torga a um patamar sagrado. É também a medicina. Repare-se na definição que, já perto do fim da sua vida (e na ante-penúltima nota do
Diário), dá da profissão de médico, definição apresentada no discurso que proferiu
aquando da inauguração de uma sala com o seu nome, na Ordem dos Médicos (delegação de Coimbra), já citada em epígrafe deste sub-capítulo: «ser-se médico significa, segundo o médico-poeta, pertencer a uma «Ordem (…) sagrada.». (p. 1785) Terminado o curso, e por conseguinte ingressado numa «Ordem sagrada», Adolfo Rocha exerce, durante alguns meses, medicina na sua terra natal, mas nada de particularmente relevante lhe acontece, nesses meses de 1934.
Será em Vila Nova de Miranda do Corvo, aldeia onde exerceu medicina entre finais de 1934 e inícios de 1937, que o poeta se apercebe do quão importante era para a sua criatividade poética exercer medicina. As vivências médicas exigentes diziam-lhe amiúde se os poemas faziam «sentido» ou se deviam murchar, por serem uma «vergonha»:
às vezes pareceu-me dura a disponibilidade que exigiam de mim, fazendo-me erguer da cama a desoras, quando o poema estava no meio ou quando o corpo me pedia um pouco de repouso e de paz. Mas o sacrifício tinha a recompensa em si próprio. E o poema, depois, ou ganhava sentido, ou murchava de vergonha. (Torga, 1999: 444).
E aqui temos uma resposta à pergunta que o próprio escritor coloca: «Chego às vezes a perguntar se poderia ser apenas um escritor de banca.» (Torga, 1999: 677)
Outra resposta a esta pergunta encontramo-la no discurso proferido na Universidade de Coimbra em Setembro de 1967. Neste discurso, feito no âmbito das comemorações do centenário da abolição da pena de morte em Portugal, o escritor coloca a medicina no mesmo patamar da poesia no que respeita ao sagrado humano: «Sacralizando a vida pela exaltação do seu íntimo significado, e defendendo-a tenazmente das agressões
maléficas de que é alvo constante, Orfeu e Hipócrates ajudaram a dar limites racionais à ilimitada força irracional que lateja dentro de nós.» (Torga, 1999: 1113).
Para além da sua enorme dificuldade em compreender o «escândalo» (Arnaut, 1996: 27) da morte, com o qual o médico tem de lidar quase diariamente, Torga, como discípulo de Orfeu e de Hipócrates, sabe que a vida é sagrada, e sabe também que a introspecção pode descer aos abismos do inconsciente (ver Torga, 1999: 1113 e 1115). Pensamos que foi a consciência apaixonada destas realidades tão exigentes e também a consciência de que o curso não o preparou suficientemente [pois ensinou-lhe apenas a observar e a tratar os doentes «por fora» (Torga, 1999: 1046)] que o levou a sentir-se «varado de lado a lado por um terror fundo que não diz donde vem nem para onde vai.» (Torga, 1999: 33) no dia em que terminou o curso de medicina.
Lendo a obra de Torga, temos a sensação de que Adolfo Rocha teve sempre a preocupação de não se limitar a observar e a tratar doentes «por fora». Esta aprendizagem foi certamente duríssima, pois obrigou-o a ser autodidacta. Terá Freud sido muito importante para o autor de Libertação? São poucas as referências, na obra torguiana, ao fundador da psicanálise (Diário: 8-8-1946; 31-7-1946; 10-7-1971) e não muito esclarecedoras. Ou terá Torga aprendido psicanálise essencialmente com os grandes mestres da literatura? Com a leitura da nota do Diário de 11-7-1959 ficamos certos de que o autor de Pedras Lavradas considerava que a melhor forma de descer ao inconsciente era quando se é «guiado por um poeta» e na nota de 6-4-1991, que merece ser repetida, ele diz-nos que «É sempre a brocar o inconsciente dos padecentes que consigo compreendê-los e ajudá-los.»
E repare-se noutra passagem do Diário que nos revela uma vez mais o respeito e a arte com que o diarista observava os doentes: «Na minha já longa vida de médico, só tive uma preocupação: entender o sofrimento alheio mesmo quando ele objectivamente me parecia injustificado. Não o julgar em caso algum uma fraqueza a reprovar, mas uma desgraça a remediar.» (Torga, 1999: 1627).
Para conseguir esta postura no exercício da medicina, Adolfo Rocha necessitava também de uma resistência física e psicológica invulgares; e tinha plena consciência disso. Numa nota de uma só linha, escrita aos oitenta anos, diz-nos: «Abençoada força com que nasci! Morro a dar coragem aos outros.» (Torga, 1999: 1614). Mas
encontramos pelo menos mais duas notas no Diário que nos dão a dimensão da resistência, da determinação e da coragem deste filho das torgas e das fragas:
- «E quando é ela que triunfa [morte], apenas pragmaticamente aceito a derrota. Vencido mas não convencido, retempero os conhecimentos e a coragem, e preparo-me para o combate seguinte. E hei-de acabar assim, a dizer que não.» (Torga 1999a: 905) - «Três dias e três noites sem comer e sem dormir, às voltas com um doente que – o diabo seja surdo! – felizmente está livre de perigo.» (Torga, 1999: 1029).
É esta capacidade de amor pelos seus pacientes que lhe permite e que, essencialmente, o obriga a mentir-lhes:
- «A convicção com que eu às vezes engano os doentes! Mas ser médico é também isso: ter capacidade de mentir persuasivamente quando a verdade é o oposto da esperança.» (Torga, 1999: 1616)
- «Não há maior crédulo do que um desesperado. Mentir-lhe, iludi-lo, é quase uma obrigação moral.» (Torga, 1999: 1627)
- «Minto. Mas de boa consciência. Sei por experiência própria que a esperança é o grande refrigério dos fracos, que são a maioria.» (Torga, 1999: 1638)
Entre os seus pacientes, o médico de S. Martinho não hesitava em privilegiar os membros do povo:
Não trocava por nenhum tesoiro do mundo a comunhão que nos une nas horas que posso roubar à vida citadina. Mas foi no aturado exercício profissional que tive a ocasião de verificar em que medida o terceiro estado constitui ainda o travejamento nobre e robusto da pátria, numa altura em que nenhuns outros valores lhe garantem a perenidade. (Torga, 1999: 751).
E trinta e quatro anos mais tarde, ao escrever sobre «um rústico serrano» diz-nos: «o que eu aprendo com ele sempre que vem à consulta! Num conceito, resume-me filosofias inteiras. (…) A escola que foi para mim o exercício da medicina! No contacto diário com naturezas assim primárias, elementares, é que entendi a vida.» (Torga, 1999: 1628)
Pelo consultório do Largo da Portagem passavam também aquele tipo de doentes que têm o vício da «auto-contemplação». É o caso duma senhora em relação à qual Torga é (quase) implacável e que lhe serve para nos dar um conselho sobre a arte de envelhecer:
A minúcia com que se examina! Dói-lhe tudo, tem enjoos, dorme mal, custa-lhe respirar, só lhe apetece morrer…
(…) Dantes, vivia; agora, via-se viver. Perdera a graça de se ignorar. E não há paz fisiológica e psicológica que resista ao cancro da auto-contemplação. (Torga, 1999: 1653)
Tendo em consideração que o seu consultório do Largo da Portagem era um espaço de prática de medicina, de escrita, de convívio (tertúlias culturais e políticas) e de contemplação da natureza, compreende-se, em boa parte, que o poeta escrevesse: «É aqui que eu tenho esperança de fechar os olhos, sozinho, sem despedidas dilacerantes». (Torga, 1999: 1682).
Mas os senhores desses «gordos casarões de dinheiro» (Torga, 1985: 181), que eram proprietários do edifício do consultório, quiseram-no «na rua, para fazer obras no prédio e aumentar o rendimento. Pareciam fantasmas agoirentos a anunciar-me ainda em vida o meu enterro» (Torga, 1999: 1740)
Ninguém se lembrou (ou ninguém conseguiu?) evitar esse atentado contra a obra e a sensibilidade do autor de Portugal. E por isso ele teve que escrever dias mais tarde: «Desfiz-me do consultório. (…) E adeus, meu velho reduto, onde durante tantos anos lutei como homem, médico e poeta. […] E fiquei naquelas salas vazias vazio como elas. Sem passado, sem presente e sem futuro, com a minha própria vida abolida no tempo.» (Torga, 1999: 1742-3)
Parece-nos que podemos concluir que o monge professo e laico «de uma Ordem civil e sagrada» conseguiu passar sempre uma imagem de competência e de compreensão pelos problemas mais íntimos e angustiantes. Muitos problemas resolveu-os. Mas, para muitos outros, infelizmente, não pôde encontrar solução; contudo todos os problemas que eram verdadeiramente íntimos e angustiantes ficavam indelevelmente gravados na sua sensibilidade e na sua memória, e, posteriormente, transfigurava-os e oferecia-os aos leitores em poemas, notas e contos. Ajudou assim, de uma forma intemporal -
através da solidariedade, da profundidade de análise e da beleza - a mitigar a dor humana e desafiou-nos a procurar soluções para as dores que ele não conseguiu curar.