4. Görme alanı muayenesi
2.4. Koroid
2.4.6. Koroidin görüntülenmesi
Todo mundo me dava atenção no crime... (Adolescente da internação).
Eu acho que fui pra essa vida por causa de carência familiar. Queria chamar a atenção das pessoas pra mim. Fui buscar outra família. Fingia uma loucura na hora do roubo. Todo mundo falava “Olha só, o cara é locão”. Todo mundo me dava atenção no crime. Os caras do crime falavam “O menino é bom”. Me davam atenção porque eu não tinha medo, fazia loucura mesmo. .
Até aquela vizinha fofoqueira, que fica o dia inteiro na rua para ver o que os outros estão fazendo, fala “O bandidinho voltou, acabou o sossego”. Não acreditam no potencial das pessoas de mudar de vida. A sociedade, a maior parte, acham que nós somos drogados. Na Fundação acham que a gente foi lá tomar danone, ficar fortinho e voltar a roubar.
Eu acho que o difícil é o passado. O passado me condena. Quando a gente tem passado no crime, o policial já me condena. Posso não tá fazendo nada, mas o policial já me condena.
Na outra internação eu estava fazendo tratamento para parar de cheirar. Me levavam para fora. A senhora me atendia algemado, o funça dentro da sala. Eu via que ela morria de medo de mim. Medo de que? Não dá pra fazer nada algemado. Até que falei pra ela “Senhora, eu estou bem, não preciso mais vir”. Ela aceitou rapidinho.
Teve uma vez que eu e mais dois fomos no oftalmo. A gente tava sentado e os caras ficaram olhando. Tinha um senhor que não percebeu que a gente tava algemado e começou a perguntar. Perguntou se a gente era do exército, acho que por causa do uniforme. O corredor tava cheio de gente, respondi: “Não, somos da Fundação”. Rapidinho perto da gente ficou cheio de cadeira vazia. Algumas meninas queriam pagar
simpatia, foram para o outro lado e ficaram olhando. Foi até engraçada a situação.
Os relatos colhidos dos adolescentes em relação ao olhar do outro, demonstram situações em que, ao serem identificados como adolescentes infratores, quase que automaticamente houve um distanciamento, inclusive físico. “Não, somos da Fundação. Rapidinho, perto da gente ficou cheio de cadeira vazia”. (Adolescente da internação).
Ou mesmo situações onde assumem lugares estereotipados, sem possibilidades de ocorrerem transformações identitárias “O bandidinho voltou, acabou o sossego. Não acreditam no potencial das pessoas de mudar de vida” . (Adolescente da internação).
Gaulejac (2006), ao tratar sobre as origens da vergonha, nos diz sua compreensão deste olhar e o que ele auxilia a instaurar.
O outro me faz existir, ao fazê-lo me leva a ser aquilo que sou para ele. Sartre retoma esta tese a respeito de J. Genet, ao evocar a cena na qual este último é pego roubando e lhe dizem: “Você é um ladrão”. A partir deste momento, “um menino morreu de vergonha e, em seu lugar, surgiu um marginal, um marginal está assombrado pelo menino”. O menino desaparece e Genet torna-se quem o outro lhe disse ser. Ele se conforma a esse julgamento. Genet é “invertido”, “virado do avesso como uma luva”, o menino inocente vai se tornar o culpado ideal”: Ele roubou, logo é ladrão... Genet aprende o que é objetivamente (SARTRE, 1952, p. 27). (GAULEJAC, 2006, p. 102). Para o autor, há uma internalização da imagem social que lhes é remetida e conformam-se com as expectativas de que são objeto. “Estas imagens e estas expectativas tornam-se assim ativas, no próprio interior do indivíduo, produzindo comportamentos que ‘justificam, a posteriori, a conduta dos outros em relação a ele’” (GAULEJAC, 2006,p. 128).
Diante desse funcionamento, o próprio sujeito assume a imagem negativa de si, a “verdade objetiva”, o que ele é para os outros, que contraria a sua “verdade subjetiva”, o sentimento que tem de si mesmo (GAULEJAC, 2006, p.129). É assim que o negro passa a pensar que é inferior ao branco, que o desempregado é um “desclassificado” e que a criança maltratada é má, o adolescente revoltado, culpado, e assim por diante.
A contradição presente pode fazer com que o sujeito caia no “subjetivismo” ou no “objetivismo”:
num caso, “autoriza-se apenas a partir de si mesmo”, não leva em conta o que sente, tenta impor a “sua” verdade e acaba se isolando do mundo e mergulhando num delírio megalomaníaco. No outro, conforma-se com o que o outro espera dele, encontra-se abalado pela dúvida, perde toda a “confiança em si”, toda possibilidade de singularizar-se, como se sua própria identidade se dissolvesse permanentemente nas expectativas dos outros. Num caso, isola-se do mundo; no outro, perde-se nele”. (GAULEJAC, 2006, p. 135).
Segundo o autor, o sentimento de vergonha é trespassado por essa contradição, impede o sujeito de se isolar do mundo no momento em que sai da onipotência para tornar-se “um” em meio aos outros. Obriga ao sujeito “constatar que não é pior nem melhor do que os outros, mas simplesmente como eles, nem deus nem diabo, nem onipotente nem impotente por completo” (GAULEJAC, 2006, p. 140).
Assim, ela tanto é inclusão como exclusão, nas palavras do autor:
ela dilacera o eu em duas partes: uma, objeto de vergonha e rejeição; outra, que causa vergonha e rejeita. Uma é objeto de ignomínia, a outra de socialização, já que permite ao indivíduo afirmar o laço com os valores e normas de sua comunidade local. [...] A vergonha nos socializa, nos obriga a nos posicionarmos como sujeitos, em meio aos outros, nossos semelhantes. (GAULEJAC, 2006, p. 129).
Por outro lado, o mundo do crime aparece como um lócus de reconhecimento e valorização: quanto mais destemido mais valorizado. Segundo os adolescentes, esse reconhecimento de um lado e o preconceito, de outro, acabam por contribuir na prática da reincidência.