• Sonuç bulunamadı

BÖLÜM 3: YAĞIŞ- AKIM İLİŞKİSİ

3.1. Korelasyon Katsayıları

Diante desse contexto, exposto nos itens anteriores, Cassirer entende que a Filosofia falhou em suas tarefas. E quais são essas tarefas? Para Cassirer, os avanços da cultura humana nas mais diversas áreas, como poesia, arte, religião etc., não estão tão solidamente estabelecidos como se pensava. Todas essas produções são o extrato superior de outro mais antigo e profundo: o mito. Enquanto as forças da cultura estão ativas, em pleno vigor, o mito permanece contrabalançado, mas quando essas forças se debilitam o mito retorna e se reafirma. No final de O mito do Estado, Cassirer chama a atenção para o fato de que o

27 Ver Symbol, Myth, and Culture: Essays and lectures of Ernst Cassirer. 1935 – 1945. Yale

University Press, 1979.

28 No entanto, Cassirer também procurou se prevenir em relação ao caráter sintético do livro:

“Contudo, devo avisar meus críticos que o que apresento aqui é mais uma explicação e uma ilustração que uma demonstração da minha teoria. Para uma discussão e uma análise mais minuciosas dos problemas envolvidos, devo pedir-lhes que vejam a descrição detalhada da minha Filosofia das Formas Simbólicas”. (1994, p.3)

pensamento mítico permanece latente mesmo nas sociedades modernas, uma vez que os líderes nazistas fabricaram um mito político e ele foi aceito por ampla maioria dos alemães.

Em 1944, Cassirer faz uma conferência na Faculdade de Connecticut em New London e ao abordar a crise contemporânea (contexto em que decorria a Segunda Guerra Mundial) afirma concordar com as análises de Albert Schweitzer, escritas na década de vinte:

Se você estuda estas conferências [...] você ficará pasmo por achar aqui um diagnóstico perfeito da presente crise da cultura humana. Há duas coisas que são pensadas por Schweitzer como responsáveis por esta crise. A primeira é a predominância do nacionalismo; a segunda a influência opressiva do que Schweitzer descreve como “espírito coletivo”. (1979, p. 231)

Cassirer endossa as análises de Schweitzer, que constata uma crise geral na cultura do século XIX, que teria levado à passividade na ação, ao desaparecimento da ética e ao crescimento de um espírito coletivo manipulável. Com tal estado de coisas ocorreu uma tendência em seguir de forma mecânica o coletivo em vez de se questionar esse mesmo estado das coisas. E o que fez a Filosofia? Segundo Cassirer, essa crise de pensamento passou despercebida pela filosofia acadêmica, que ficou limitada nas suas preocupações escolásticas e perdeu sua conexão com o mundo. Krois, em Symbolic forms and history, afirma que:

Schweitzer fez Cassirer perceber que aquela filosofia tinha se tornado uma disciplina puramente acadêmica que ‘filosofou sobre tudo, menos a civilização’.(SMC, 232). A filosofia ou teve muito pouco ou coisas erradas para dizer sobre o estado de civilização. Ou se separou da crise espiritual da época por sua absorção em assuntos técnicos ou teve um efeito prejudicial ajudando a instilar o sentimento de desamparo. (KROIS, 1987, p.171)

Krois resume a posição de Cassirer em relação à crise cultural, que ele expõe em O Mito do Estado, nesses termos: “As forças do pensamento mítico são sujeitas ao controle crítico pelas forças intelectuais, éticas e artísticas da alta cultura. Se estas estão debilitadas as forças míticas primitivas se reafirmam” (1987, p.213). O mito é a forma simbólica mais primária, é pautado em uma consciência coletiva e em uma visão afetiva do mundo. Acontece que o nazismo se utilizou desses componentes para criar um mito político moderno como arma de dominação da massa.29

Cassirer não diz como essas forças da alta cultura recuperam sua posição ocupada

pelo pensamento mítico instrumentalizado. Ele comentou pouco sobre isso. Mas, embora Cassirer não tenha uma resposta completa para essa questão, ele alerta que a Filosofia deve assumir esse compromisso. Ou seja, a Filosofia não deve ser apenas uma disciplina técnica e acadêmica, mas sim refletir os problemas que afetam a vida social de todos. Cassirer também está de acordo com Schweitzer sobre o fato de que a filosofia tem deveres a cumprir e que o próprio filósofo deve atuar como defensor dos valores da cultura e civilização. Segundo Krois,

Pela leitura dele de Schweitzer, percebeu Cassirer que as críticas de lei natural que proliferou nos décimo nono e vigésimo séculos e a subida de totalitarismo eram ambas os efeitos de uma geral crise da cultural - uma ‘crise no conhecimento do homem dele mesmo’, como Cassirer chamou isto em Ensaio sobre o Homem. O conceito de direitos humanos ficou problemático porque a idéia de humanidade tinha perdido seu significado. Em seu último trabalho Cassirer buscou entender esta crise. Para esse fim ele reinterpretou a filosofia das formas simbólicas como uma filosofia de história. (1987, p.171)

É justamente nesse sentido que Cassirer se questiona, em O Mito do Estado, sobre o que a Filosofia pode fazer diante dos mitos políticos. Para ele, os filósofos modernos parecem não depositar esperança alguma em alterar o rumo da história política e social. Nesse aspecto, refere-se a Spengler e Heiddeger. Quanto a Hegel, Cassirer também se coloca contrário à sua posição de que ‘A coruja de Minerva só voa quando caem as sombras da noite’ (apud CASSIRER, 1976, p.313), ou seja, que a Filosofia é sempre pós-fato, que ela não pode transcender a sua época, mas apenas refletir o já acontecido. Para Cassirer, isso é condenar a Filosofia a um papel passivo e limitado diante da situação histórica de cada época. Ele argumenta que grandes pensadores, entre eles Platão, não ficaram apenas presos ao seu próprio tempo, mas refletiram para além dele:

Os grandes pensadores do passado não eram apenas “o seu próprio tempo traduzido em pensamentos”. Muitas vezes tiveram de pensar contra e para além dos seus tempos. Sem essa coragem moral e intelectual, a Filosofia não poderia preencher a sua finalidade na vida cultural e social do homem. (1976, p.314)

Ou seja, a Filosofia deve ter coragem moral para pensar e refletir de forma crítica não apenas o seu próprio tempo, mas deve, com base no passado e no presente, lançar-se para questões ainda em germe que tendem a se desenvolver de forma mais explícita nos tempos futuros.

Fica evidente a mudança de enfoque em relação a como Cassirer concebe o papel da Filosofia nessa sua última obra. Se na Filosofia das Formas Simbólicas, Cassirer se limitou a dizer que a Filosofia não é uma forma simbólica e que o seu papel consiste em analisar em meio à multiplicidade de formas simbólicas seu elemento fundamental comum e suas diferenças específicas (1998a, p.60), em O Mito do Estado, a Filosofia, além de compreender o funcionamento interno das demais formas, tem deveres a cumprir: manter em cheque as forças míticas irracionais e manter-se alerta na preservação dos valores universais. Essa mudança de enfoque de Cassirer foi propiciada diante da nova problemática colocada com a ascensão do nazismo e a fabricação consciente dos mitos políticos. Cassirer, dessa forma, toma partido claramente em favor da Filosofia, enquanto uma reflexão que vise preservar os valores universais.

Benzer Belgeler