CARACTERÍSTICAS FORMATIVAS
O tópico que se segue tem como referência fundamental a entrevista realizada com o sociólogo e educador popular Alder Julio Ferreira Calado. Nossa intenção era extrair do referido professor sua leitura das relações de complementaridades entre a teologia da enxada e a educação popular em sua feição combliniana e freireana respectivamente, uma vez que o mesmo vinha acompanhando ambas as experiências desde meados da década de 1960. Cabe destacar inicialmente que as relações de complementaridade entre a teologia da enxada e educação popular se relacionam fortemente quando trabalham com a população cada vez mais pobre de tudo. Partem da experiência e têm objetivos essencialmente comuns: os pobres como sujeitos históricos e teológicos. No fundo, a teologia da enxada, assim como a teologia da libertação, é uma forma de educação popular em que fé e vida interatuam.
Calado nos falando acerca das singularidades entre essas duas propostas de formação, a teologia da enxada e a educação popular, singularidades estas, aqui entendidas como complementaridade, agrupou-as em três aspectos axiais: 1) o horizonte; 2) os caminhos e 3) a postura dos/das caminheiros/as. Ao fazê-los, teve a preocupação de observar que os aspectos destacados se acham dinamicamente interpenetrados, de modo que dificilmente pode-se remeter a um, sem que os demais estejam aí presentes, de alguma forma.
Com relação ao horizonte, por exemplo, o ponto de partida está relacionado com a convicção de que todos somos “seres inacabados”, expressão que pode-se ler em Freire (2008, p. 83) É de fundamental importância que o sacerdote leigo, agente de pastoral bem como o educador popular tenham consciência da sua incompletude. Todos são vocacionados a desenvolver suas respectivas caminhadas à medida que vão se tornando gente. Segundo Calado a consciência desse limite é que faz uma grande diferença, na avaliação de Paulo Freire e de José Comblin, para mencionar apenas os dois autores referenciais de nossa incursão.
Com efeito, em distintos textos, um quanto o outro costumam lembrar essa nossa condição. De modo talvez mais explícito e mais freqüente, Freire retoma tal aspecto, em distintos textos seus. Somos seres inconclusos, inacabados. Mais e melhor:
temos consciência de nosso inacabamento. Isso é recorrente em Freire. Quanto a
José Comblin, ainda que tal aspecto não apareça com essa mesma formulação, com certeza tem uma incidência notável, à medida que insiste na nossa vocação a tornar- nos seres livres, constituindo-nos em povo, em sociedade, numa nova sociedade, alternativa à atualmente imperante, uma sociedade que permita a emergência de uma nova humanidade, livre das diversas opressões, justa, solidária, em harmonia com a mãe-natureza e solícita ao Espírito de Liberdade.29
Essa consciência de ser “ser inacabado” por outro lado, revela que eles, homens e mulheres, são seres concretos que desfilam diante de todos, na sua realidade fundamental, superando inclusive conceitos e pré-conceitos como se isso fosse a palavra ultima sobre o humano mesmo. Daí que todo projeto humano, pessoal ou comunitário, na construção de um espaço em prol de todos é uma proposta de humanização cuja origem é o próprio estado de ser inacabado.
A natureza relacional dos seres humanos constitui, também, outro aspecto comum observável em ambas as propostas formativas. A consciência do inacabamento é o primeiro passo na busca em direção a uma participação efetiva no processo de humanização. Humanização do ser humano como um todo e de todos os seres humanos. E, justamente por ser uma luta em busca de humanização, trata-se de lutar, ao mesmo tempo, contra toda força de desumanização, sob qualquer de suas formas ou manifestações. É essa mesma consciência de inacabamento que leva os seres humanos a inserir-se num processo de busca de superação de seus limites, sendo um deles o deles o isolamento, donde o empenho pelo seu progressivo relacionamento com os demais seres, com o mundo, com a natureza, com o “Sopro vital”.30
De fato, Comblin e Freire, cada um em seu campo especifico de atuação e reflexão, a dimensão relacional é uma condição fundamental no processo de humanização. Está relacionado inteiramente, inclusive, com a necessidade de entendimento e de busca da
29 Entrevista concedida por ocasião da comemoração dos 40 anos da Teologia da Enxada em outubro de 2009,
em Serra Redonda – PB. Esta entrevista foi posteriormente publicada no site www.consciência.net.
necessidade de se entender e de se querer como gente, como comunidade, como povo, como classe popular, sem que isso apague ou neutralize a dimensão individual ou deságüe numa experiência coletivista. Lutar pelo desenvolvimento de uma dessas dimensões implica necessariamente o desenvolvimento da outra, de maneira que a vinculação orgânica permite a complementaridade.
Para o professor Alder Julio as propostas de Jose Comblin e Paulo Freire se mostram implicadas com um horizonte comum, ainda que categorias e palavras diferentes sejam por ambos utilizados, até por conta de suas abordagens específicas – Comblin lida com o campo da teologia procurando sempre e continuamente estabelecer do diálogo desta com outras ciências, tais como a sociologia, economia, antropologia, historia, pedagogia; enquanto Freire lida mais diretamente com o campo da Pedagogia também estabelecendo uma mesma linha de diálogo.
Um primeiro aspecto que o professor Alder Julio destaca que a nosso ver aparece como complementaridade dentro desse horizonte comum, tem haver com a insistente perseverança pedagógico-teológica na construção de uma sociedade alternativa ao modelo atual.
Seus protagonistas – de um lado e de outro – se acham convencidos de que o atual modelo capitalista de organização social – o Capitalismo – não condiz com as aspirações mais generosas do gênero humano, de modo a corresponder satisfatoriamente com às necessidades fundamentais e às aspirações gerais do conjunto dos membros da sociedade. Por definição, o sistema capitalista atende aos interesses materiais fundamentais de uma pequena minoria. E, assim mesmo, à custa da exploração e da marginalização de amplas maiorias da mesma sociedade. Na formulação freireana, por exemplo, é recorrente o termo “Utopia”, a designar esse horizonte de transformação social. Em José Comblin, o mesmo sentido (não tanto o mesmo termo) aparece em vários textos, em especial em sua relevante contribuição aos estudos da missão do Espírito Santo no mundo. Aqui, esse horizonte utópico aparece como um futuro que é construído já agora, no presente. Em Tempo da
Ação, por exemplo, nossas ações libertadoras do presente se acham grávidas desse
futuro em incessante construção.
Outro ponto comum que potencializa características de ambas as propostas formativas em apreço, está relacionado inteiramente com os caminhos perseguidos. Na Teologia da Enxada, o horizonte de liberdade que os protagonistas desejam alcançar só se faz possível por caminhos igualmente de liberdade. Não é possível alcançar uma nova sociedade, uma nova humanidade que se queira livre e solidária, por meio de caminhos autoritários e individualistas diante dos quais, o resgate dos pobres, a abertura à positividade da política e a sinalização de uma nova dinâmica pedagógica de respeito e cuidado para com a natureza, por
exemplo, sejam em nome do capitalismo neoliberalista excluídos.
O mesmo entendimento se dá por parte da Educação Popular, na perspectiva freireana. Desde a Pedagogia do Oprimido, a Pedagogia da Autonomia, passando por Educação como Prática da Liberdade, Extensão ou Comunicação?, Ação Cultural para a Liberdade, Pedagogia da Esperança e outros, sem falar em seu próprio legado existencial, Freire não concebe a busca de uma nova sociedade, alternativa ao sistema hegemônico, que também não se faça por caminhos que se contraponham igualmente aos do modelo vigente.31
A TdE bem como a EP sempre estiveram abertas e disponíveis aos desafios dos tempos. Suas respectivas identidades foram sempre marcadas por dinamicidade e abertura: uma identidade em permanente construção. Foram inúmeros os desafios assumidos ao longo de seus itinerários. Daí, segundo Alder Julio, resulta, também, o investimento decisivo, por parte de ambas as propostas formativas, em estratégias de ação, procedimentos e atitudes concretas, numa e noutra conhecidas por conceitos e princípios tais como:
O critério da “Práxis”: a busca incansável e efetiva de construção do horizonte almejado não se avalia tanto pelo que dizemos, mas, fundamentalmente, pelo que andamos fazendo, no presente. O que se pretende ressaltar aqui é que nos critérios dominantes, e assimilados e reproduzidos pelos mais diversos espaços sociais (família, escola, igrejas, sindicatos, partidos...), prevalece a tendência de se confiar no discurso, nas declarações, na boa lábia. O resultado culmina numa contradição: um abismo enorme entre o que se afirma de boca para fora e o concreto do dia-a-dia. Nas propostas formativas ora investigadas, além de insuficiente, é profundamente enganoso avaliar nossas vidas e as dos outros pela magia do discurso. Importa fazê-lo pelas práticas concretas do dia-a-dia;
Recorrer à sabedoria acumulada pela humanidade, em todos os tempos e espaços, o que se concretiza pelo exercício da memória histórica. Tanto a Educação Popular quanto a Teologia da Enxada cultivam um apreço todo especial ao exercício da memória histórica dos povos e de suas lutas, de suas conquistas e de suas derrotas. Aprende-se com a história, não para repeti-la ou copiá-la, mas para refazê-la;
31 Professor Alder Julio em entrevista concedida por ocasião dos 40 anos da comemoração da Teologia da
Outro procedimento que se tem revelado fecundo, é o estímulo ao aprimoramento incessante da capacidade perceptiva: incentivar os jovens e todos os protagonistas do processo formativo a verem, a ouvirem, a sentirem mais e melhor o que se passa na realidade; a estarem antenados aos sinais dos tempos, aos acontecimentos e situações que nos rodeiam, e a buscarem extrair ensinamentos. Aqui também se inclui o fecundo hábito de se fazer análise de conjuntura;
O cultivo do rodízio ou da alternância de tarefas, cargos e funções, o que se traduz pelo cuidado de não se permitir que as mesmas pessoas sigam por muito tempo a desempenhar as mesmas funções. Em vez, disso, importa que se criem condições que favoreçam o rodízio de tarefas e funções, de modo que se favoreça a quem está na base a realizar trabalhos de administração, e a quem tenha cumprido tarefas administrativas volte aos trabalhos de base;
Com o propósito de assegurar a todos os participantes - parte dos quais com pouca escolaridade - as condições de mútuo entendimento, promove-se o recurso a múltiplas linguagens (imagens, desenhos, poesia, teatro, jogral, cordel, etc.). Além disso, insiste-se na clareza e objetividade por parte de quem fala ou escreve, no sentido de garantir o entendimento de seus interlocutores, evitando-se assim o que Comblin, por exemplo, avalia como uma prática excludente;
Promover condições favoráveis a que os protagonistas descubram seus talentos e potencialidades, bem como tomem consciência de seus limites, não numa perspectiva de auto-inibição ou bloqueio, mas numa perspectiva crítico-propositiva. Incentivar um aprendizado em mutirão e com capacidade criativa, o que implica
trabalho em equipe e vigilância em relação à tendência ao estrelismo individual, em vez do exercício do protagonismo de todos;
Estimular o exercício contínuo de uma mística libertadora, isto é, permitir aos protagonistas ocasião contínua de renovação de seus compromissos com a causa libertadora dos oprimidos.32
32 Professor Alder Julio em entrevista concedida por ocasião dos 40 anos da comemoração da Teologia da
Enxada em Serra Redonda-PB. O texto da entrevista foi publica na integra na revista eletrônica www.consciência.net.
Todas essas características citadas pelo professor Alder Julio compõem as redes de ação das experiências formativas da TdE e da EP, possibilitando uma compreensão da dinâmica do trabalho dos primeiros protagonistas da TdE. Mostrou com grande rigor a forma original como o povo cria, trabalha e transforma os seus sistemas religiosos como forma de resistência política. Faz-se necessário ainda, dentro das perspectivas axiais de afinidade entre Educação Popular e Teologia da Enxada, sob a ótica aqui trabalhada, convém pôr em relevo outro elemento, este de caráter mais pessoal. Parte-se da convicção de que, além da busca de adequar os caminhos percorridos ao horizonte almejado, importa, não menos, investir no cuidado com a postura pessoal do protagonista no processo formativo. Não basta apenas trilhar os caminhos coletivamente percorridos pelo conjunto dos participantes. Importa também zelar pelo jeito pessoal de caminhar nesse mutirão.