1. KONYA’DA KARAYOLU TAŞIMACILIĞI
1.2. Konya’da Karayolu Nakliye Sektörünün Durumu
Situar o leitor acerca dos profissionais72 que atuam no CEI “Hora Marcada” é uma etapa importante e que visa contribuir para a melhor contextualização do tema investigado nesta dissertação, afinal, conforme Tardif e Lessard (2015a, p. 35), a docência consiste em uma atividade essencialmente relacional, haja vista que “é um trabalho cujo objeto não é constituído de matéria inerte ou de símbolos, mas de relações humanas”.
As relações das Auxiliares, nas atividades que desenvolvem, não estão restritas às crianças e às professoras com as quais trabalham diretamente. Isso ocorre porque, inseridas no cenário do CEI, relacionam-se com uma variedade de outros profissionais. As atribuições que exercem, bem como a forma que realizam essas tarefas, resultam das influências desse contexto interativo, em que as práticas e o modo de se fazer educação é cotidianamente construído.
Partindo desse pressuposto, faz-se importante destacar que o CEI “Hora Marcada”, no ano de 2016, contou com 24 funcionários. O Quadro 3 apresenta, de forma organizada, os cargos, o quantitativo de profissionais, o nível de escolaridade e o vínculo empregatício de cada função. As siglas PRA e PRB designam, respectivamente, professora regente A e professora regente B. Os numerais I, II e III fazem alusão aos agrupamentos atendidos por essas professoras que, respectivamente, correspondem a Infantil I, Infantil II e Infantil III. Quanto aos demais funcionários, há referências às suas funções sem abreviações.
72 O uso da expressão no masculino decorre da existência de homens no quadro de funcionários do CEI “Hora
Quadro 3 – Caracterização dos profissionais do CEI “Hora Marcada”
Função Quant. Nível de Escolaridade / Titulação Vínculo
empregatício
Coordenadora
1
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em
Psicopedagogia
Efetivo
PRA I
1
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em
Psicopedagogia
Efetivo
PRA II 1
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em
Psicopedagogia
Efetivo
PRA II 1
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em Gestão e
Coordenação Pedagógica
Efetivo
PRA II 1
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em Gestão
Escolar
Efetivo
PRA III 1
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em
Psicopedagogia
Efetivo
PRA III
(substituta) 1
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em
Psicopedagogia
Terceirizado
PRB I e II 1
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em Educação
Inclusiva
Efetivo
PRB II 1
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em
Psicomotricidade
Efetivo
PRB II e III 1
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em Língua
Portuguesa e Arte
Auxiliar
Infantil I 1 Ensino Médio na modalidade Normal Terceirizado Auxiliar
Infantil II 1 Nível Superior Completo em Pedagogia Efetivo Auxiliar
Infantil II 1 Ensino Médio na modalidade Normal Efetivo Auxiliar
Infantil II 1 Ensino Médio (sem formação pedagógica) Efetivo Auxiliar
Infantil III 1 Ensino Médio na modalidade Normal Efetivo Serviços
Gerais –
Cozinha 3
Ensino Médio Completo Terceirizado
Serviços Gerais -
Limpeza 1
Ensino Fundamental Completo Terceirizado
Serviços Gerais –
Porteiro 3
Ensino Fundamental Completo (1) e Ensino
Médio Completo (2) Terceirizado
Auxiliar de
Coordenação 2
Nível Superior Completo em Pedagogia e pós-graduação (especialização) em
Psicopedagogia (2)
Efetivo
Fonte: elaborado pela autora.
Com o Quadro 3, pode-se observar que havia o total de sete profissionais que trabalhavam nos serviços gerais. Dentre toda a equipe do CEI, esse grupo profissional é o que possui o menor nível de escolaridade: dois concluíram o Ensino Fundamental, enquanto os outros cinco funcionários estudaram até o Ensino Médio.
Parece não haver um perfil escolar predeterminado para ocupar essas funções. Esta impressão foi reforçada quando alguns desses funcionários, indagados sobre o nível de escolaridade exigido para se candidatar ao cargo que ocupam, afirmaram que “não precisava ter estudo pra trabalhar nos serviços gerais”, porque o contato com pessoas influentes, da prefeitura ou das empresas que terceirizam trabalhadores para a rede municipal, garantia a admissão para atuar em locais como as Creches. Ao contrário disso, outros funcionários
explicaram que foi preciso entregar “currículo nas empresas que terceirizam profissionais para a prefeitura de Fortaleza e apresentar o certificado de conclusão do Ensino Médio”.
Mesmo com as fragilidades do Ensino Médio como etapa formativa (GADOTTI, 2000; SAVIANI, 2008; LIBÂNEO, 2012), esta etapa de escolaridade seria a condição mínima exigida para, quem sabe, conseguir despertar nesses funcionários uma percepção crítica sobre o papel que devem desempenhar no âmbito do CEI “Hora Marcada”. Esta situação merece ser refletida, pois ainda que os serviços gerais seja um grupo de profissionais não docentes, a função exercida por esses funcionários é educativa (BRASIL, 2004).
Ainda com relação aos funcionários dos serviços gerais, observa-se no Quadro 3 que nenhum deles é efetivo. De acordo com Antunes (2013), a terceirização é de uma tendência que tem sido conferida aos vínculos empregatícios no contexto da sociedade atual. O autor entende que este é um processo que decorre do modelo capitalista vigente, visando criar relações de trabalho flexíveis, situação que parece ocorrer com o caso de alguns funcionários no contexto do CEI.
Diferentemente dos funcionários dos serviços gerais, coordenadora e Auxiliares de coordenação são profissionais efetivas. A coordenadora, antes de assumir este cargo, atuava como professora no Ensino Fundamental, pois possui o título73 de pedagoga. Lecionou durante bastante tempo, pois afirmou que adentrou à rede municipal há quase dez anos e até o ano de 2015 nunca tinha atuado em outro contexto que não a sala de aula.
Nos diálogos informais, ocorridos durante o período de pesquisa de campo, explicou que após concluir o curso de especialização, sentiu-se mais segura para vivenciar outras experiências na rede pública. Afirmou que sua opção pela coordenação pedagógica deu-se por sentir-se “cansada da sala de aula”. Sua atividade está relacionada à organização institucional, no âmbito pedagógico e estrutural, sob uma perspectiva de contemplar funcionários, famílias e crianças de maneira individual, mas também, coletiva (FORTALEZA, 2015a, 2016).
As duas auxiliares de coordenação também possuem formação em Pedagogia e especialização em áreas do conhecimento voltadas para a Educação. O trabalho desenvolvido por essas profissionais visa complementar e facilitar a atividade da coordenadora. Ambas são concursadas há mais de quinze anos e foram “desviadas de função”. Antes disso ocorrer, eram professoras, mas devido a problemas de saúde, que as impossibilitaram de dar continuidade ao
73 Costa e Cruz (2013) asseveram que titulação e formação não podem ser vistas como sinônimos, pois se tratam
de conceitos diferentes. A titulação diz respeito à aquisição de um título. Deste modo, formação se refere a um processo ainda mais complexo, por ser contínuo, permanente e atrelado à ideia de práxis (PIMENTA, 2012), que, portanto, está para além da aquisição de um título.
exercício da docência, fosse na Educação Infantil ou nos anos iniciais do Ensino Fundamental, acabaram sendo realocadas para desempenhar a atual função.
No que tange às professoras, o CEI possuía o total de nove profissionais, as quais tinham como tempo mínimo de magistério um período de sete anos. Entre as professoras, oito eram concursadas, portanto, efetivas à rede municipal de Fortaleza, e somente uma estava na condição de substituta, ocupando, provisoriamente, o lugar de uma funcionária efetiva afastada por licença médica relacionada a um problema crônico nas cordas vocais, diagnóstico bastante comum em agrupamentos docentes (DRAGONE; BEHLAU, 2006; PENTEADO, 2007).
Os diferentes vínculos empregatícios geravam nas professoras sentimentos variados. Em certa ocasião, durante a pesquisa de campo, a professora substituta comentou sobre as dificuldades de estar empregada nessas condições, pois, segundo ela, “não se tem lugar certo para trabalhar”. Por outro lado, muitas dentre as professoras efetivas reconheciam os benefícios de ser concursada e destacavam, principalmente, a “estabilidade” do emprego.
Cabe salientar, como esclarece Dourado (2007), que o vínculo empregatício efetivo proporciona menor rotatividade entre os profissionais e isso influencia na qualidade do trabalho desenvolvido em um determinado estabelecimento.
Além da licenciatura são especialistas em diferentes áreas da Educação. Portanto, profissionais que atendiam ao perfil exigido por leis, nacional e municipal, para atuar com o trabalho direto e diário com crianças no setor educacional. Este é um dado de suma importância, haja vista que contratar professores devidamente habilitados é uma forma de imputar à Educação Infantil o status de espaço reservado à atuação de profissionais, desatrelando-a da “histórica articulação da feminização ao processo de desvalorização social da profissão caracterizada como vocação, doação” (ALVES, 2006, p. 11).
O CEI “Hora Marcada” possuía o total de cinco Auxiliares. Joana trabalhava no grupo do Infantil I, Maria, Francisca e Raimunda estavam inseridas nas turmas de Infantil II e Socorro trabalhava com o agrupamento do Infantil III.
Dentre essas profissionais, uma concluiu o curso74 de Pedagogia. Esta, portanto, igualava-se às professoras no que concerne à titulação em nível superior. Entre as outras quatro Auxiliares, três haviam concluído o curso de Ensino Médio na Modalidade Normal, porém uma delas concluiu somente o Ensino Médio.
74 Mais a frente, em uma seção posterior, informações relacionadas à formação inicial dessas profissionais serão
É importante ressaltar que quando ocorre a contratação de profissionais para o trabalho docente com crianças pequenas, que não são admitidos como professores, mesmo possuindo formação prévia para desenvolver esta função, há o descumprimento de leis do âmbito nacional e municipal (BRASIL, 1996a; FORTALEZA, 2009a). O mesmo ocorre quando se contrata um profissional, sem formação pedagógica, para atuar no trabalho direto e diário com crianças na primeira etapa da Educação Básica. Ambas situações corroboram para um processo de desprofissionalização da docência. É por ter conhecimento de realidades como esta encontrada no município de Fortaleza, que Kishimoto (1999, p. 74) alerta que:
A educação infantil foi inserida na educação básica, portanto, seus profissionais requerem o mesmo tratamento dos outros que nela atuam. É preciso eliminar preconceitos arraigados da tradição brasileira, como o de que o profissional que atua com crianças de 0 a 6 anos [5 anos e 11 meses] não requer preparo acurado equivalente ao de seus pares de outros níveis escolares.
Em Fortaleza, segundo a SME (FORTALEZA, 2016), as Auxiliares, para serem contratadas, necessitam apresentar titulação prévia. Este contrato pode acontecer por meio de carteira assinada, através das empresas que prestam serviço à prefeitura, mediante aprovação em concurso público e, por fim, via seleção pública, com admissão respaldada pela Lei Complementar Municipal nº 0150/2013 (FORTALEZA, 2013), que dispõe sobre a contratação por tempo determinado. Em resumo, o perfil exigido pela secretaria mencionada aos candidatos à vaga de Auxiliar da Educação Infantil solicita que os profissionais tenham o certificado do Ensino Médio na modalidade Normal e/ou licenciatura em Pedagogia75.
É fundamental salientar que há diferenças entre as Auxiliares do município investigado. As efetivas estão incluídas no Plano de Cargos, Carreiras e Salários da Educação, no Núcleo de Atividades de Apoio à Docência, Grupo Ocupacional Tático, de acordo com o previsto na Lei Municipal nº 9.249, de 10 de julho de 2007. Este agrupamento “compreende os cargos/funções inerentes às atividades de média complexidade, relativas às atividades de suporte à educação” (FORTALEZA, 2007, p. 1). As Auxiliares terceirizadas não possuem nenhuma relação com a prefeitura, pois seus contratos são firmados diretamente com as empresas que prestam esses serviços à rede municipal de educação.
Posto isso, é preciso evidenciar que algumas professoras, em conversas informais durante a pesquisa de campo, afirmaram que, a depender do vínculo empregatício da Auxiliar, era possível identificar uma maior ou menor “entrega” e “compromisso” com relação ao
75 Informações emitidas pela SME da cidade de Fortaleza no processo P470347/2016 (FORTALEZA, 2016).
Cabe ressaltar que, apesar dessas exigências, o CEI possuía uma Auxiliar sem nenhuma formação pedagógica.
trabalho realizado. Refletindo sobre situações semelhantes a esta, geradas pelas fragilidades dos vínculos empregatícios, Gouveia et al. (2006, p. 260) elucida que “a condição de pertencer ao quadro de efetivos pode garantir uma maior estabilidade trabalhista ao docente, possibilitando uma maior segurança para a realização de seu trabalho”. Sendo assim, a percepção das professoras está carregada de sentido, o que parece um dado bem importante para as reflexões relacionadas aos achados da pesquisa.
Inclusive, a opção por apresentar o panorama geral acerca de todos aqueles que contribuem para tornar essa instituição um organismo vivo, educativo e formador provém da consciência de que o modo como as Auxiliares desenvolvem seu trabalho reflete as características do ambiente no qual estão inseridas. Para analisar o papel das Auxiliares foi fundamental conhecer as características dos profissionais da instituição investigada, haja vista que existem “normas que regem o cotidiano educativo e as relações no interior e no exterior do corpo docente” (FONTANA, 2003, p. 48) e para percebê-las é preciso ter um conhecimento mais profundo sobre o lócus de pesquisa.
Tendo feito essas considerações e suscitado a compreensão do leitor acerca do contexto em que a pesquisa foi desenvolvida, o tópico que segue descreve os aspectos do perfil das Auxiliares do CEI investigado.