Por se configurar no âmbito de um sistema produtivo capitalista, a sociedade em rede é permeada por profundas desigualdades sociais e, assim como na sociedade moderna, continua a perpetuar uma legião de excluídos de bens e serviços que circulam na sociedade. Assim, a tecnologia digital está posta a favor do capital e cada sociedade é afetada de forma diferente pelas tecnologias.
Nesse panorama de exclusão, Castells (1999)exprime o modelo informacional para definir o modo de produção que permeia a sociedade em rede na qual a informação se relaciona com as tecnologias. Esse modelo se fundamenta no “paradigma da tecnologia da informação” a produtividade e a competitividade depende da capacidade das instituições e empresas de criar, processar e aplicar de forma eficaz e eficiente a informação e o conhecimento. Castells (1999) destaca algumas características desse paradigma da tecnologia da informação.
1) As TDIC são tecnologias para se agir sobre a informação, ou seja a informação é sua matéria prima.
2) A forma como as novas tecnologias penetram em todas as atividades humanas, que por sua vez são formadas por informações, a “penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias”.
3) A lógica das redes das TDIC que permeia os sistemas e relações.
4) A flexibilidade que é capacidade de modificações, alteração e reorganização nas organizações.
5) A Sistema de tecnologias altamente integradas que envolve a convergência de tecnologias.
Essas características da sociedade em rede e suas consequências são de alcance global. Numa sociedade em que a informação e o domínio de tecnologias com base informática são partes fundamentais para a inserção no mercado de trabalho, aumentam-se a exigência na formação profissional e no nível de escolarização dos trabalhadores, na apropriação desses novos saberes tecnológicos e seus usos na resolução de problemas do cotidiano.
Essa realidade social traz problemáticas com as quais é difícil lidar, principalmente num país como o Brasil com grandes desigualdades sociais e uma grande população de analfabetos e ou “analfabetos funcionais”.
Pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil(http://www.cetic.br) apresenta, no Relatório publicado em junho de 2013, dados importantes sobre uso das TDIC.Os resultados da pesquisa apontam que existe o seguinte quadro.
Diferenças regionais e socioeconômicas ainda dividem o Brasil em grupos: sul (47%), sudeste (48%) e centro-oeste (39%) possuem maior quantidade de domicílios com acesso à internet e norte (21%) e nordeste (27%) a menor quantidade de domicílios com acesso a internet.
42,8 milhões de pessoas de 45 anos ou mais nunca usaram à internet. 68 milhões de pessoas das classes C e DE nunca usaram a internet. Atividades online mais complexas continuam com baixo índice de uso.
Esses dados nos mostram um quadro de exclusão em relação aos instrumentos e processos digitais em regiões que já sofrem pela falta de acesso aos direitos básicos, como, saúde, educação e segurança. O olhar superficial pode indicar a ideia de que atualmente “todos” têm acesso à internet, pois está em todo lugar, inclusive nas periferias, mas as classes menos favorecidas (C,D e E) e adulta ainda estão à margem do processo.
Sobre a inclusão/exclusão digital, Borges Neto e Junqueira (2009) delineiam um referencial teórico para se pensar as políticas de inclusão digital, buscando superar a perspectiva “difusionista” (entrega de equipamentos) que predomina sobre os projetos e programas direcionados por políticas públicas.
Os autores defendem a ideia de que para uma apropriação e inserção das pessoas na cultura sociodigital, são necessárias políticas que enxerguem além da entrega de equipamento e acesso à rede, mas que proponham uma formação mais ampla, em duas vertentes: “no que tange à interação e à relação do sujeito com as tecnologias digitais (a relação homem- máquina); e no que diz respeito às práticas e usos do computador pelo sujeito no contexto social”. (BORGES NETO E JUNQUEIRA, 2009, p.350)
A reflexão proposta pelos autores sobre os usos e apropriação dos recursos tecnológicos é uma problemática que se volta também as pessoas letrados e com alto nível de formação, como o público desta pesquisa, que são professores universitários. Esses agentes sociais possuem grande articulação e são multiplicadores do conhecimento, por atuarem na formação de outros sujeitos que, por sua vez, também são formadores, mas que muitas vezes
não dominam as TDIC e continuam a ensinar ignorando as mudanças sociais e tecnológicas que ocorrem à sua volta. O “conhecimento digital”, proposto por Borges Neto e Junqueira (2009), constitui elemento a ser agregado aos saberes dos professores formadores para contextualizar as práticas educativas e seu papel profissional.
Um conhecimento digital que leve à reflexão crítica sobre a prática pedagógica, pois ao olhar os TDIC e sua contextualização na sociedade atual percebemos inúmeras relações e possibilidades pedagógicas e comunicativas – então, como refleti-las no trabalho docente?
É importante enfatizar que não defendemos a centralidade das TDIC na prática docente, como um modismo, mas entendermos o uso e a apropriação das TDIC como tecnologias do nosso tempo disponíveis na vida de grande parte da população brasileira e que tem significado para a cultura local e mundial, refleti-las com curiosidade, pesquisa e crítica e não como imposição ou discurso neoliberal modernizador que tem como objetivo a educação como mercadoria.
Sobre essa questão, Castells (2005, p. 18) se alinha à visão proposta por Borges Neto e Junqueira (2009), afirmando que a organização social e as práticas empíricas que dão suporte à rede são definidoras dos limites, avanços e mudanças. “É por isso que difundir a internet ou colocar mais computadores nas escolas, por si só, não constitui necessariamente grandes mudanças sociais. Isso depender de onde, por quem, para que são usadas as tecnologias da informação e comunicação. ”
Nessa realidade de avanço tecnológico mundial e em todos os âmbitos sociais, destacamos seguir o modo como as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação foram apropriadas por políticas educacionais no Brasil, voltadas para o ensino superior impulsionando seu grande crescimento e sendo fundamentada por orientações de organismos internacionais, conduzindo o crescimento instituições privadas em todo o País.