7. HALK MÜZİĞİ
10.2 Konutların Döşenmesi, Kullanımı ve Ev Eşyaları
Na escala da implantação do RSV I, destacamos uma das características sobre as quais discutimos anteriormente, dos empreendimentos do PMCMV - a de padronizar os projetos. Veem-se, em todo o país, as incorporadoras e as construtoras adotarem e disseminarem seus projetos, que vão se constituindo como imensos “carimbos” nas cidades brasileiras, como denomina Ferreira (2012). Esse autor afirma que, nesse caso, são muitos os problemas concernentes à (in)adequação dos projetos para a topografia natural do terreno; à disposição das edificações ao lote; à despreocupação com o paisagismo; à generalização do padrão dos “condomínios-clube”; aos espaços de lazer coletivo, que, no caso dos conjuntos habitacionais populares, seriam a ausência dos espaços públicos de lazer e os problemas que dizem respeito à relação adensamento demográfico/adensamento construtivo.
Nessa perspectiva, Ferreira (2012) aponta como parâmetros de qualidade para se analisar um empreendimento, na escala da implantação do projeto, a adequação à topografia do terreno; paisagismo e impacto ambiental; formas de ocupação do terreno; áreas comuns e de lazer e densidade e dimensão. Tendo em vista os objetivos do presente trabalho, bem como o arcabouço teórico que conduziu às análises empreendidas até o momento, propomos analisar o RVS I, no âmbito da escala da implantação sob os dois últimos parâmetros ou características citadas, não sob o ponto de vista arquitetônico, mas entendendo as condições
sociais e de moradia dos sujeitos que habitam o espaço ora analisado. Também mencionaremos brevemente os usos desse espaço.
Observando a Figura 30 (p. 179) e retomando o processo de incorporação do loteamento, Hardman Cavalcanti, descrito no tópico 3.2, percebe-se que, além dos lotes destinados à construção das unidades habitacionais, de equipamentos públicos e das áreas de preservação, há vários terrenos que foram comercializados antes mesmo da entrega das primeiras casas desses conjuntos. A propaganda dessas vendas (Figura 20, p. 156), em que se divulgava a possibilidade de o comprador construir tanto uma casa quanto um prédio comercial (ambos tido como um investimento), indica-nos a possibilidade de estabelecimentos comerciais se instalarem nessa área, para torná-la mais dinâmica, conquanto se suponha que esse ainda seja um futuro distante, visto que até mesmo os terrenos vendidos nessa época já estão sendo novamente comercializados pelos atuais proprietários (Figura 29).
Figura 29: Placa de venda de terreno entre o RSVI e o RSV II. Fonte: Pesquisa de campo em março de 2014 - Autora: Wilma G. de Lucena
Legenda Lotes das UHs do RSV I
Lotes das UHs do RSV II
Lotes vendidos antes da entrega das UHs do RSV I Lotes reservados pela JGA durante a obra do RSV II Áreas remanescentes
Lotes reservados para PMP
Lotes do RSV I onde há pequeno comércio
Figura 30: Usos e apropriações do Loteamento Hardman Cavalcanti, localizado no Bairro Monte Castelo. Fonte: Escritório da JGA Ltda. e pesquisa de campo em fevereiro de 2014. Imagem: Google Earth.
Elaboração própria.
Como o uso desse espaço é predominantemente residencial e ainda se caracteriza pela quase completa ausência de outros usos, essa localidade, juntamente com seu entorno, é uma área monofuncional. Assim, a sequência de casas formando extensos quarteirões, a ausência de comércio e de espaços públicos de lazer (que ainda serão instalados nas áreas a eles destinados) esvaziam as ruas e induzem ao deslocamento para o consumo em outros locais. Durante a pesquisa de campo, percebemos a monotonia das ruas (mesmo nos fins de semana) e a ausência de pessoas nas calçadas (exceto as poucas crianças que se encontravam brincando no canteiro de obras do RSV II), até mesmo as poucas bodegas (pequenos comércios improvisados) existentes se encontravam fechadas na maior parte do tempo em que realizamos a pesquisa.
Sob o ponto de vista da densidade e do dimensionamento dos projetos habitacionais do PMCMV na cidade de Patos, vemos claramente a impressão dos “carimbos” das construtoras que chegam à cidade. Ao RSV I, seguem-se o RSV II, o Residencial Itatiunga e os demais projetos que ainda estão em fase de avaliação, sendo que pouco são os elementos que os diferenciam um do outro. Entre essas poucas diferenças, observamos que, enquanto no RSV I as casas são de 32 m², no RSV II, por ser um projeto da fase 2 do PMCMV, as casas são de 36 m², são conjugadas e têm placas de captação de energia solar. Se considerarmos que o RSV I tem 136 UH, poderíamos inferir que, em termos de dimensionamento, trata-se de um pequeno projeto. Todavia, é preciso considerar as características do entorno desse conjunto habitacional, porquanto ele se encontra distante da malha urbana e da dinâmica da cidade; tem uma paisagem da zona rural, está ao lado de dois conjuntos já habitados e de outro que está sendo construído, e todas as famílias que ali habitam têm mesmo perfil socioeconômico.
Ao questionarmos os moradores sobre quais eram suas expectativas em relação ao entorno do RSV I, muitos (36,7%) afirmaram que não tinham nenhuma expectativa. Porém, os demais disseram desejar a vinda de infraestrutura (principalmente a ligação à rede de esgoto e a conclusão da pavimentação) e mais segurança, tendo em vista que moradores de outros bairros se referem ao local como um “lugar perigoso”. Além disso, os próprios moradores não se sentem seguros e apontaram como causa disso a vegetação existente ao redor de todo o conjunto e a ausência de mais casas no entorno83. Entendemos que o RSV I contribui não só para o isolamento físico, mas também social de quem habita esse local, visto que intensifica o processo de homogeneização social desse espaço, fazendo com que a desigualdade na escala da cidade seja vivida de modo a produzir a diferença como negatividade (CARLOS, 2007).
Nas metrópoles, sabemos que a implantação de grandes empreendimentos, principalmente nas áreas periféricas da região metropolitana, forma o que comumente se denomina na literatura de cidades-dormitório, o que, obviamente, não se verifica em Patos, devido ao porte da cidade. Entretanto, no local em que se insere o conjunto RSV I, ocorre o que Villaça (2001, p. 335) descreve sobre o processo de homogeneização do espaço, em que se perdem as características de cidade (diversidade) e se adquirem as de bairro (homogeneidade), porque, na área referida, habita, predominantemente, a população de baixa renda. Na própria paisagem do conjunto habitacional em questão e de seu entorno, traduzem- se o distanciamento físico e o processo de homogeneização social desse espaço. Nesse
sentido, tomamos a afirmação de Leite (2011) de que a paisagem urbana revela as desigualdades evidentes entre a apropriação do espaço pelos ricos e pelos pobres.
Retomando Shimbo (2010; 2011), percebemos que a produção padronizada dos conjuntos habitacionais por parte das empresas construtoras necessita de áreas maiores e de preços mais baixos, já que buscam mais solvabilidade e lucratividade dos investimentos. Assim, formam-se imensos conjuntos monofuncionais e superdimensionados. Mesmo no caso de projetos de pequena dimensão, como o RSV I, ocorre esse mesmo processo, visto que possibilita a implantação de outros de mesmo porte em etapas sequenciais, como aconteceu com a implantação do RSV II e a pretensão do proprietário da construtora de implantar o RSV III.
Nesse sentido, percebemos um espaço que assume as características elencadas por Lefebvre (1974) do espaço dito “moderno”, do espaço do capitalismo avançado. Essas características são muito precisas - a homogeneidade, a fragmentação e a hierarquização. Essa homogeneidade não é somente de planos e projetos, mas também de falsos “conjuntos” isolados84, pois, paradoxalmente, esse espaço homogêneo se fragmenta em lotes, parcelas, em pedaços, em guetos isolados e pseudoconjuntos mal ligados aos arredores e aos centros. Com a hierarquização estrita desse espaço (espaços residenciais, comerciais, de lazer, dos “excluídos” etc.), predomina uma lógica do espaço em que se ocultam, sob sua homogeneidade, as relações “reais” e os conflitos.
Diante disso, entendemos que, como a habitação assume a forma de mercadoria e tem, ao mesmo tempo, o papel de fixar a mão de obra na cidade, sendo o espaço de sua reprodução e constituindo a possibilidade de expansão urbana e de obtenção de renda da terra por parte do capital imobiliário, entendemos que, assim como afirma Martins (2007, p. 21), “o conjunto habitacional é onde se realizam todas as relações sociais”.