Para se compreender a trajetória de Auta bem como o lugar social ocupado por sua família é necessário conhecermos a movimentação comercial vivenciada pela Província do Rio Grande do Norte e o lugar de Macaíba a partir da segunda metade do século XIX. Falar de Macaíba, ou na vila do Coité como era denominada inicialmente, é também rememorar lutas de intensa violência pela posse das terras brasileiras e que se estenderam às paragens da então Capitania do Rio Grande, sobretudo com os contatos entre portugueses e indígenas e o advento da Invasão Holandesa e posterior expulsão.
Esse foi tão somente um momento em que diferentes visões acerca de si e acerca do outro falaram mais forte e que justificaram a opressão de uma cultura sobre as outras, quando “comportamentos etnocêntricos resultaram também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas, deprimentes e imorais” (LARAIA, 2004, p. 74). Esse também foi o momento em que “o cruzamento inter-étnico (entre africanos, americanos e europeus) gestou nossa população de cultura sincretizada” (GOMES, 2000, p. 26) 20.
Segundo (GOMES, 2000), as origens desta localidade, que dista apenas 18 Km de Natal, capital do Rio Grande do Norte, estiveram intrinsecamente ligadas aos antepassados de Auta de Souza. Ligação estreitada entre o seu bisavô paterno, o pernambucano Francisco Bandeira de Melo e o genro deste, Fabrício Gomes Pedroza ambos vindos de províncias vizinhas e que eram radicados na região, possuindo negócios relacionados à agropecuária e ao comércio.
Até a primeira metade do século XIX, Coité foi um sítio de terras férteis de plantar e criar gado cuja grande parte era de propriedade do avô de Auta. A partir da década de 1850, as províncias nortistas passaram por muitas mudanças no aspecto econômico devido a
20 Sobre esses eventos na história do Rio Grande do Norte indicamos: as pesquisas de Fátima Martins Lopes (1999/2005) centradas no processo de aldeamento e nas missões da Capitania do Rio Grande do Norte. Elas nos fornecem informações importantes sobre a situação das populações indígenas aldeadas bem como as formas de resistência nativa. Sobre o processo de conquista do território sertanejo e da resistência implementada pelos povos indígenas ao longo do processo de colonização indicamos o trabalho de Pedro Puntoni (2002), de Denise Mattos Monteiro (2009) e de Muirakytan K. de Macedo (1998).
conflitos bélicos nos Estados Unidos que cortaram o abastecimento de algodão para as fábricas têxteis européias (MONTEIRO, 2009)21.
Os efeitos desta crise externa ressoaram de forma positiva no Rio Grande do Norte, o qual passou a exportar a preciosa matéria-prima para os mercados ingleses, momento este em que a vila do Coité, futura Macaíba passou a atuar como entreposto comercial por estar localizada no centro das estradas que se destinavam aos grandes centros produtores de algodão, cereais e de açúcar (MONTEIRO, 2009), conforme podemos visualizar na figura abaixo:
FIGURA 3: A posição de Macaíba no seio do sistema hidrográfico do Rio e das principais áreas de produção agropastoril22.
21 Entre os anos de 1860 e 1865, ocorreram conflitos nas ex-colônias inglesas deflagrando a Guerra de Secessão. Com este conflito, a produção norte-americana se desestruturou, cortando o abastecimento para a indústria têxtil européia, sobretudo a inglesa, crise esta denominada “cotton hunger”. Ela foi determinante para que ocorresse grandes modificações no ambiente rural do Nordeste brasileiro, favorecendo em grande medida a produção algodoeira a qual se adequou perfeitamente ao clima e solo desta região (TAKEYA, 1985).
A posição ocupada por ela atraiu a migração de muitos negociantes e famílias inteiras, famílias estas que vinham das províncias vizinhas esperançosas de melhorarem de vida através dos empreendimentos que a cidade proporcionava, dentre eles merece menção mais uma vez, Fabrício Gomes Pedrosa, paraibano de Brejo de Areia (RODRIGUES, 2003). No mapa anterior, é possível se ver a bacia hidrográfica do Rio Potengi, as estradas por onde escoavam, em lombo de animais, os gêneros agrícolas bem como o lugar de Macaíba no seio desse sistema.
Conforme Meneval Dantas:
Dava gosto ver comboios de dezenas de mulos, cavalos e até jumentos chegando, cada qual com dois fardos de algodão ou couros nos costados, arriando-os no cais a beira do rio, com os botes, diariamente levando-os para Natal, de onde por sua vez vinham carregados de toda sorte de mercadorias, aí também apanhados pelos mesmos tropeiros e animais, que as conduziam para áreas de onde trouxeram os outros produtos (DANTAS, 1985, p. 57). Em pouco tempo, a vila do Coité atingiu visibilidade dentro da Província, passando a se chamar Macaíba por sugestão de Fabrício Gomes Pedrosa, tendo ele também fundado a cidade, o qual neste contexto já estava adquirindo posição de liderança (RODRIGUES, 2003). Dessa forma, Macaíba oferecia uma série de fatores positivos ao desenvolvimento do comércio, mesmo assim, a profundidade do Rio Jundiaí não permitia a atracação de navios de maior calado.
Pensando nisso, foi que Fabrício instalou em 1858 uma firma importadora-exportadora de produtos num ponto estratégico às margens do Rio Potengi, na localidade de Guarapes (RODRIGUES, 2003), até porque o porto da sua capital, Natal, também não dispunha de condições satisfatórias à navegação, dificultando a atracação dos navios de maior porte no cais além de ser envolta em dunas o que também servia de entrave ao desenvolvimento econômico do Rio Grande do Norte23.
23 O empório de Guarapes era uma empresa exportadora-importadora que vendia para o mercado europeu, sobretudo Inglaterra, produtos tais como algodão, açúcar, peles, couros e sal. Da Europa a empresa importava produtos manufaturado como tecidos e artigos de luxo. Sobre o referido estabelecimento comercial nos diz Wagner Rodrigues: “O local reunia características geográficas que o colocava como importante entreposto comercial. O ancoradouro do seu porto era quase tão extenso e profundo quanto o de Natal, chegando a dar calado a embarcações de até 500 toneladas, sem falar que se posicionava além das dunas que circundavam a capital. O comerciante investiu em uma estrutura sólida para drenar o escoamento das zonas circunvizinhas, construindo armazéns na parte baixa, próximos ao ancoradouro, além de escritórios, almoxarifados, capela, escola e sua casa na parte alta” (RODRIGUES, 2003, p. 27-28).
Foi a partir dessas dificuldades que os presidentes da nossa Província mais se questionavam sobre a possibilidade de mudança da capital para a localidade de Guarapes, chegando inclusive a afirmar que a Província do Rio Grande do Norte era “um corpo sem cabeça” conforme disposto no Relatório do Presidente de província e comendador Henrique Pereira de Lucena, futuro barão de Lucena, de 05 de Outubro de 1872:
Eis senhores, o que me cumpria dizer-vos com referência a um assumpto de tanta magnitude, e a que se liga tão estreitamente o futuro da província. Considerai, que são já decorridos 273 anos que Natal é a capital da província, no entanto seu perfil é de uma villa insignificante e atrasadíssima do interior. Considerai, que a província é um corpo sem cabeça, e que é devido exclusivamente a esta circunstancia que ella se conserva á retaguarda de todas as suas irmãs. [...]. (Relatório do Presidente de Província de 05 de Outubro de 1872).
Todavia, o projeto de mudança da capital com o tempo foi deixado de lado. Mas o fato é que por muitos anos, Macaíba gozou de status de capital honorária e econômica da Província, atraindo distintas famílias, personalidades como Francisco de Paula Rodrigues, futuro avô materno de Auta e o interesse de empresários das localidades vizinhas. Estes se instalaram em torno de seu porto de águas fluviais e do seu comércio de açúcar e algodão. Conforme nos diz Eloy de Souza:
[...] onde se encontravam lojas de fazenda e armarinho muito mais sortidas que aqui [Natal], os responsáveis pela direção dos negócios públicos. As figuras prestigiosas do Partido Liberal ali residiam e, já pela liberdade, gozavam da autoridade sem par [...] (SOUZA, apud. LEIROS, 1985. p. 30). Enfim, ao tomar-se conhecimento das mudanças ocorridas na Província do Rio Grande do Norte, bem como na cidade de Macaíba a partir da década de 1850 sob a égide do contexto internacional, é preciso entender que em termos culturais esta sociedade era fortemente marcada pelo domínio masculino representado pelo poder e autoridade inquestionáveis do pai-senhor. Além disso, pautava sua forma de pensar e agir baseado numa pretensa superioridade branca.
Sendo assim, é importante deixar claro que foi nessa sociedade em que sujeitos marginalizados emergiram sendo relevante trazê-los à tona. Vale salientar que suas atuações se deram sobretudo, num contexto em que as amarras da escravidão no Brasil se rompiam paulatinamente. Todavia, a exclusão contra os remanescentes africanos e índios e seus
descendentes permanecia e ganhava força respaldada em teorias cientificistas de cunho racial trazidas da Europa como veremos mais adiante.