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O direito à intimidade370 traduz o reconhecimento em favor da pessoa sob o

fundamento da liberdade e da autonomia da vontade de impedir a divulgação por terceiros de aspectos pertencentes à sua vida. Esse direito sofre limitações371 tanto por atuação legislativa quanto por intervenção judicial.

O desenvolvimento social é marcado por três movimentos ou revoluções, a saber, agrícola372, industrial373 e digital ou tecnológico ou da informação.374

370 Na Itália o direito à intimidade indica dirrito alla riservatezza e dirrito alla segreteza ou alrispettodellavitaprivata, este se refere ao direito de impedir que terceiros conheçam ou descubram a intimidade da vida privada da pessoa e aquele o direito de impedir a divulgação de aspectos daquela intimidade, depois de licitamente conhecida pelo divulgador. Em França como droit a la vie privée ou droit a l’intiméte. Em Portugal como direito à proteção da intimidade da vida privada e direito à zona de intimidade da esfera privada. Na Espanha como derecho a laintimidad e derecho a lida privada. Na Alemanha são utilizadas as denominações Privatsphäre (esfera privada) ou Geheimsphäre (esfera secreta).

371 José Adaércio Leite Sampaio dedica em sua obra um amplo estudo no tocante às limitações do direito à intimidade que, embora muito interessante, ultrapassa os limites propostos nesta tese. In: Direito à intimidade e

à vida privada: uma visão jurídica da sexualidade, da família, da comunicação e informações pessoais, da vida e

da morte. Belo Horizonte: Del Rey, 1998. p.383-415.

372 TOFLER, Alvin. A terceira onda. Trad. João Távora. Rio de Janeiro: Record, 2005. p. 35-40. O primeiro movimento denominado revolução agrícola ou primeira onda é caracterizado pela inserção do homem no sistema produtivo. Esse período é identificado pela percepção do mundo da cultura, pelo impacto da agricultura e pecuária na vida social e pela identificação de conceitos de terra e propriedade. Estas identificações são imprescindíveis para o movimento industrial e estão fixados na sociedade contemporânea.

373 Ibidem. p. 37. A sociedade industrial reflete a necessidade de mudança em todos os setores da vida real, ou seja, nos campos da economia, política, familiar e social. O modelo social da sociedade agrícola não corresponde à nova realidade instituída. Esta revolução caracteriza-se pelo retrocesso da agricultura e pela ascensão da indústria. Manuel Castells identifica duas revoluções industriais neste período. A primeira com início nos últimos trinta anos do século XVIII se caracteriza pela substituição das ferramentas manuais pelas máquinas.Ele cita como exemplo a máquina a vapor, a fiadeira e os processos utilizados na metalurgia. Já a segunda, após cem anos, marcada pela energia pela eletricidade, pelo motor de combustão interna, pelos produtos químicos, pela difusão do telégrafo e pela invenção do telefone. Adverte o autor que estas novas tecnologias tanto na primeira quanto na segunda revolução são essenciais, pois este conjunto de macroinvenções serve de suporte e estrutura para o surgimento de microinvenções nos setores da agropecuária, indústria e comunicação. In: CASTELLS, Manuel. A era da informação: a sociedade em rede. v. 1. São Paulo: Paz e Terra, 2010.p. 71.

374TOFLER, Alvin. A terceira onda. Trad. João Távora. Rio de Janeiro: Record, 2005; CASTELLS, Manuel. A

A sociedade da Informação375é a terceira onda ou revolução e corresponde ao estágio atual do desenvolvimento social e à revolução tecnológica, pois institui novo modelo de organização social que traduz profundas mudanças no sistema político, econômico, social e jurídico. No âmbito jurídico, as alterações influenciam (i) na soberania do Estado uma vez que as novas tecnologias são transfronteiriças; (ii) no exercício dos direitos e garantias fundamentais previstas constitucionalmente por cada Estado e (iii) na preservação e tutela da dignidade da pessoa humana e dos direitos da personalidade ou da humanidade.

A essencialidade e a influência das ferramentas tecnológicas atuam nas estruturas e nas organizações sociais. Todavia, a rendição incondicional e a ausência de instrumentos efetivos para determinar os limites de seu uso desenfreado podem acarretar danos irreparáveis à intimidade da pessoa, principalmente, no âmbito mais íntimo que a pessoa deseja resguardar e não tornar público – o núcleo intangível de sua intimidade.

Essas ferramentas estão presentes nas três revoluções ou ondas376 esboçadas tanto por Alvin Toffler quanto por Manuel Castells – agrícola, industrial e digital ou tecnológico ou da informação– . A sua utilização permite identificar a natureza e a extensão de benefícios ou malefícios que podem proporcionar as novas tecnologias à pessoa no tocante a sua esfera pública, privada e social.

Por outro lado, a tecnologia cumpre papel vital e essencial na vida social, pois acompanha o homem desde as sociedades primitivas. Ela permite que o ser humano, por meio de novas e adequadas técnicas, desenvolva novos produtos, serviços ou atividades para atender a suas necessidades na área da saúde, do lazer, do trabalho, do conhecimento, da educação, dentre outros. Para Manuel Castells,

Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores, inclusive a criatividade e iniciativa empreendedora, intervêm no processo de descoberta científica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma que o resultado final depende de um complexo padrão interativo [...] a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.377

375 A terminologia foi cunhada por Jacques Delors, em 1993 durante o Conselho Europeu de Copenhaga relacionada à ideia de infraestruturas da informação. Para Manuel Castells a era da informação é denominada sociedade em rede In: CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra. 2010.

376 Neste mesmo sentido: TOFLER, Alvin. A terceira onda. Trad. João Távora. Rio de Janeiro: Record, 2005; CASTELLS, Manuel. A era da informação: a sociedade em rede. v. 1. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

Assim, em razão dessa estreita relação entre a sociedade e a tecnologia, as estruturas sociais, de forma viva e intensa, estabelecem os instrumentos de produção, os conhecimentos científicos e as técnicas dominantes, proporcionando uma estrutura fundamental e, consequentemente, fornecendo elemento essencial para compreender seus respectivos sistemas sociais.

Nesse conjunto, a sociedade oferece à pessoa toda a sua produção social, ou seja, vestuário, alimento, trabalho, entretenimento, lazer, música, cultura, informação, conhecimento, educação, técnicas, dentre outros. Propicia também a produção espiritual, pois é nela que a pessoa se desenvolve, de forma integral e integrada em processo dinâmico. Viver, conviver e coexistir em sociedade permite as pessoas se relacionarem de diversas maneiras desde a convivência, os laços de amizade, as conversas, a companhia do outro, as festas, as reuniões, o trabalho e até mesmo as dificuldades enfrentadas no dia a dia, pois o homem, por sua própria natureza, é ser gregário.

Depreende-se que o ser humano pela sua consciência, potência e inteligência é responsável, no mundo da cultura, pela elaboração, ligação e articulação das relações sociais e pela produção de bens necessários para a vida social. A produção de bens tanto materiais quanto espirituais reflete a capacidade da pessoa de usar instrumentos, aplicar conhecimentos e experiências bem como unir e organizar meios para o desempenho de trabalhos que beneficiam todos os membros da sociedade.378

De tal modo, as pessoas e os grupos sociais interagem, de forma estreita para atingir seus objetivos em comum, seja pela cooperação, competição ou conflito, pois é neste meio que elas encontram o ambiente propício para o desenvolvimento de suas faculdades e de todas as suas potências, substâncias e essências. No entanto, a harmonia e a paz social estão condicionadas aos instrumentos de controle social – o direito, a moral, a religião e as normas de trato social – para que seja possível minimizar os conflitos ou patologias e preservar a vida social.

Para Leopold von Wiese, a vida social é “constituída por uma sucessão indeterminável de eventos encadeados, nos quais os homens estreitam ou dissolvem suas

relações. Os atos de coordenação e dissociação, a aproximação e o afastamento, são os processos dentro dos quais transcorre toda a vida inter-humana.”379

A dinamicidade social é inerente a todas as formas de convivência e realidades sociais, pois o caráter dinâmico da interação humana “[...] encontra uma boa ilustração na história de vida de indivíduos”380, uma vez que o ajuste social é sempre mutável, uma experiência ímpar,e a convivência em grupo faz com que seus membros, ora cooperem, ora competem entre si.

Para Alvin Toffler, o dinamismo social na atualidade é de sublevação social e reestruturação criativa de grande intensidade, pois a Revolução agrícola perdurou por milhares de anos.Já a Revolução industrial durou pouco mais de trezentos anos e a atual denominada Terceira onda provavelmente se complete em poucas décadas.381

Toda essa dinâmica também é resultado da criação cultural que envolve o indivíduo, a sociedade e o ambiente, pois a sociedade é composta por seres humanos que adotam as normas e padrões ditados pelo grupo. Assim sendo, a cultura, na perspectiva de definir a maneira de viver em sociedade, proporciona aos seus membros um guia indispensável em todos os campos da vida responsável pelo funcionamento eficiente e pacífico da vida em sociedade.382

De tal modo, as transformações sociais e tecnológicas repercutem na esfera jurídica da pessoa no tocante ao direito da personalidade, pois estas ferramentas tecnológicas podem facilitar a invasão e a divulgação de fatos, acontecimentos e ações da pessoa bem como penetrar em suas esferas da intimidade, privacidade e segredo sem o seu consentimento ou percepção.

É nesta perspectiva que o direito à intimidade ganha novos contornos, pois a noção de intimidade é dinâmica, flexível e estabelece uma estreita e constante relação pelas

379 WIESE, Leopold von. Os processos de interação social. In: Homem e sociedade: leituras básicas de sociologia geral. São Paulo: Ed. Nacional, 1976. p. 216.

380 OGBURN, Willian F.; NIMKOFF, Meyer F. Acomodação e assimilação. In: Homem e sociedade: leituras básicas de sociologia geral. São Paulo: Ed. Nacional, 1976. p. 265. Segundo os autores “A vida é uma série de interrupções e acomodações [...] a vida social tem seus conflitos, também tem seus ajustamentos”. (p. 262) 381TOFLER, Alvin. A terceira onda. Trad. João Távora. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 24.

382 LINTON, Ralph. O indivíduo, a cultura e a sociedade. In: Homem e sociedade: leituras básicas de sociologia geral. São Paulo: Ed. Nacional, 1976. p. 98. Acrescenta o autor que “[...] a esfera público-política, surgida pela primeira vez sob a forma de polis grega, foi a solução encontrada para a imortalização dos feitos humanos, que exigia espaço de reuniãoo definido e permanente para que os relatos dos feitos heroicos se perpetuassem transgeralcionalmente.” (p. 102-103)

tecnologias. Os instrumentos jurídicos tutelam o direito à intimidade tanto de forma preventiva quanto repressiva nas hipóteses em que há a violação desse direito bem como torna a vítima indene.

Benzer Belgeler