“Apesar da dependência dos grupos industriais nacionais em relação ao Estado, os empresários puderam estabelecer um estilo de interação entre os setores privado/público abrindo espaço à participação direta em questões-chave relacionadas aos seus interesses enquanto classe”.
Renato Raul Boschi
Antes de tratarmos da organização efetiva das empresárias no estado de Minas Gerais, traçamos um esboço sobre a organização do empresariado brasileiro nacional e, no capítulo 4, do empresariado estadual para, a partir destes contextos mais amplos, situarmos o nosso objeto.
O empresariado no Brasil teve a sua formação no início do século XX, por volta de 1920 a 1930.
A partir de sua formação iniciou-se também a sua organização como ator participativo e político na sociedade brasileira.
Abordamos somente a fase inicial da organização e das práticas políticas adotadas pelo empresariado brasileiro no período de 1930 a 1945, para uma confrontação com a organização e as práticas políticas adotadas pela categoria das mulheres empresárias do estado de Minas Gerais à época de sua organização: a década de 1980.
Esses dois momentos foram privilegiados por marcarem o início da organização de atores sociais diferentes dentro da mesma categoria empresarial, ou seja, 1930 a 1945 assinala o momento de formação e organização do empresariado nacional e também do empresarial estadual em Minas Gerais. Esse espaço é privilegiado por ser o eleito para a busca de nosso objeto de estudo, a categoria de mulheres empresárias, tendo em vista a impossibilidade de abordar todas as mulheres empresárias de todo o país. A década de 1980 é marco também,
porque assinala o momento de organização das mulheres empresárias do estado de Minas Gerais, verificada e analisada na parte II, especificamente, no capítulo 5.
Por isso, esses dois momentos têm em comum o início da organização da categoria empresarial com atores sociais diferentes, o empresariado nacional, estadual e mulheres empresárias, dentro da mesma categoria mais ampla e em contextos diferentes.
Também assinalam o início de “algo novo”, no dizer de Arendt,566 porque esses atores trouxeram propostas de mudanças e renovações em relação ao vivido em seus momentos.
Além desses dois contextos caracterizarem-se como marcos iniciais de formação e organização dentro da categoria empresarial, são específicos ainda porque, de acordo com Tabak, o recorte de 1930 a 1945 e a década de 1980 assinalam, “[...] o mesmo processo de transição do autoritarismo para a democracia”.567
Nesse sentido, surgiram novas práticas políticas entre o empresariado e com outros atores sociais, inclusive, com o Estado, em busca de maior participação na esfera pública. Fizemos, então, uma comparação com as práticas políticas adotadas pelo empresariado nacional e estadual à época de sua formação e organização com as práticas políticas das mulheres empresárias também à época de sua organização e quais formas de prática política adotaram na esfera pública. Após as análises e comparações entre esses dois momentos, analisamos se o repertório sofreu ruptura ou possui continuidade.
Não foi proposta deste estudo dar seqüência à trajetória do empresariado brasileiro como um todo após a data de 1945. Dentro do empresariado nacional, portanto, exceto o período inicial de sua organização, optamos por um estrato: o das mulheres empresárias do estado de Minas Gerais a partir da década de 1980.
No Brasil, segundo Martins,568 a formação das camadas empresariais sustenta-se em duas direções. A primeira, com uma conotação histórica, ancora-se no desenvolvimento das relações capitalistas, gestando as “burguesias nacionais”, entre elas, a “burguesia nacional” brasileira.
A segunda, por meio de um corte na estratificação da chamada sociedade industrial, traz o conceito de “elites”, permitindo tentativas para se buscar a constituição do empresariado.
Contudo, afirma o autor, as duas formas de abordagens são, metodologicamente, insuficientes para uma contribuição efetiva para o conhecimento da origem e formação do
566
Cf. ARENDT, Hannah. A condição humana. Op. cit.
567
TABAK, Fanny. Mulheres públicas: participação política e poder. Op. cit., p. 42.
568
MARTINS, Luciano. Formação do Empresariado Industrial no Brasil. Revista Civilização Brasileira. Maio, v. 3, n. 17, 1967.
empresariado, porque “burguesia” é um conceito muito abstrato no momento referido e “elites”, porque, a forma como foi abordada tratou muito mais de posições ocupadas na sociedade do que sobre o seu processo e a sua dinâmica histórica, apesar de grande produção acadêmica sobre essa temática.
Na produção brasileira, outra obra que encontramos sobre a formação do empresariado brasileiro foi a de Oliveira Vianna.569
Considera o autor que, no período colonial brasileiro, isto é, de 1500 a 1888, a fase era pré-capitalista, com uma mentalidade completamente diferente daquela constituída pelo mercantilismo moderno e pelo industrialismo das sociedades européias e norte-americanas pós-lincolniana.
A mentalidade da época colonial ou escravista no Brasil não tinha preocupação obsessiva do lucro, do dinheiro ou da acumulação da riqueza monetária. Segue dizendo Oliveira Vianna:
O essencial é não trabalhar: toda a felicidade do homem rico é poder fazer com que os outros trabalhem para ele. O dinheiro é substituído pela posse de haveres, que permitam ao seu possuidor o otium cum dignitate – esta espécie de ociosidade, própria dos homens acontiosos, [...] o que classifica o indivíduo é justamente não ser-lhe preciso trabalhar: é a ausência da necessidade de qualquer esforço intenso. Quer dizer: o oposto exatamente ao que vemos nas sociedades submetidas aos cânones do regime capitalista ou mercantilista [...].570
Assim, o espírito puro do capitalismo estava ausente na mentalidade da aristocracia agrária brasileira. O que dignificava o homem, portanto, não era o dinheiro por si mesmo, mas a terra e o emprego ou cargo público, mesmo para os mais modestos. Um comerciante, apesar de possuir muito dinheiro, não conseguia fazer parte do alto círculo da aristocracia, cuja nobreza era medida pela quantidade e grandeza das terras possuídas ou pelos cargos ocupados na sociedade colonial. No período colonial brasileiro a atividade comercial era incompatível com um homem da nobreza, considerada uma atividade desqualificada. Nas palavras de Oliveira Vianna,
[...] o dinheiro, até há bem pouco, só por si, não bastava para dar entre nós posição social e mundana a ninguém. No período colonial, por exemplo, foi esta precisamente a causa íntima da rivalidade patente entre a burguesia comercial do Rio e os senhores rurais, tão bem exemplificada no conflito surgido entre a classe dos “mercadores”, enriquecidos depois da Lei da abertura dos portos (1808), classe esta, diga-se de passagem, na sua totalidade composta de portugueses. Estes e aqueles, altos burgueses e grandes terratenentes, disputavam entre si a freqüência, os
569
OLIVEIRA VIANNA, Francisco José. História social da economia capitalista no Brasil. v. 1. Op. cit.
570
títulos e as honras do Paço naquela época. Mas, o preconceito peninsular contra as atividades mercantis dominava a nobreza territorial daqueles tempos de ressurgência do espírito feudal – e a hostilidade às pretensões da nova burguesia colonial, saída do tráfico e do “comissariado”, é bem a expressão desta mentalidade.571
Observa-se que a influência sobre a mentalidade da época vinha da Europa, especificamente da nobreza de Portugal e, paradoxalmente, os primeiros “mercadores” ditos enriquecidos na colônia eram de origem portuguesa.
Confirma Furtado que os comerciantes, no geral, “[...] provinham do Norte português, especialmente Minho e Douro”.572
O espírito capitalista, continua Oliveira Vianna, veio com os colonos lusos que arriscaram o salto transoceânico com a intenção e ambição de lucro e de fortuna, na aventura das grandes descobertas, deslocando-se através dos oceanos. Vieram, assim, primeiro os mercadores e armadores, os quais faziam também o comércio com as Índias. Em seguida, vieram a média e pequena nobreza agrária, já arruinados devido às crises sucessivas da agricultura peninsular.
Estas idéias de lucro e de fortuna foram entranhando na imaginação das classes populares, primeiro das cidades, depois dos campos, dos “nobres” empobrecidos, isto é, sem terras, dos ”vilões”, dos “peões”, dos numerosos agricultores falidos e sem sucesso, enfim, de todos que não tinham posses e nem condições de sobrevivência, a ralé, que era, aliás, a maioria da população peninsular. Enfatiza o autor:
É de notar-se que esta preocupação mercantilista, de enriquecimento rápido [...] que trabalhava unicamente a alma da gente da Península. Esta ambição da fortuna era uma sorte de psicose coletiva, que contagiava e agitava todo o mundo europeu naquela época. [...] “muitas pessoas de pequenos cabedais” bem poderiam vir ao Brasil “a fim de plantar canas, produzir açúcar, tabaco, gengibre e outras mercadorias para fazer negócios ou seguir outras profissões e, assim, reunir um capital e voltar com eles (sic) para a pátria”.573
Os portugueses já praticavam o comércio em feiras e mercados desde 1125, escreve Mott,574 contando com 95 (noventa e cinco) feiras até a metade do século XV. Além do comércio em Portugal, os lusos conheciam e comerciavam com os suqs africanos, ao norte, principalmente com o mercado de Ceuta e de Angola, as chamadas feiras do sertão. Os
571
OLIVEIRA VIANNA, Francisco José. História social da economia capitalista no Brasil. v. 1. Op. cit., p. 118.
572
FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio: a interiorização da metrópole e o comércio nas minas setentistas. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 275.
573
OLIVEIRA VIANNA, Francisco José. História social da economia capitalista no Brasil. v. 1. Op. cit., p. 127.
574
portugueses, então, quiserem reproduzir no Brasil-Colônia as praças de mercado que já possuíam e conheciam.
Ressalta o autor que o Brasil Colônia e outros países da América Latina, exceto o México e a Guatemala, não possuíam e não conheciam praças de mercado. A primeira feira no Brasil possui referência no ano de 1548 na Bahia, especificamente em Capoame, norte do recôncavo baiano. No entanto, faltam documentos que comprovam tal data, existindo apenas especulações. Mott cita que Felisbelo Freire575datou a primeira feira no Brasil no século XVI, enquanto Borges de Barros576 localizou-a no século XVII, em 1614. Sobre estas conjecturas, Mott escreveu que não concordava com nenhuma delas, apontando a data de 1677 com base em um regimento no qual D. Afonso IV, a exemplo de seus antecessores do século XVI, ordenava a criação de feiras no Brasil Colônia.
Contudo, mesmo não existindo as feiras e/ou praças de mercado, existia um pequeno comércio nos primeiros séculos. De acordo com Mott,
[...] vamos encontrar na maioria das vilas e cidades coloniais, algumas agências que se encarregavam do pequeno comércio: lojas, vendas, tavernas, boticas, estalagens, açougues, casas de pasto, tendas, casa de negócio, quitandas. Os proprietários de tais estabelecimentos aparecem referidos nos documentos da época, sob diferentes denominações: taverneiros, marchantes, vendilhões, mercadores, mercadores a miúdo ou a retalho, caixeiros, comissários volantes, negociantes, lojistas.577
Esse comércio, apesar de iniciante, apresentava-se de duas maneiras e com mercadorias diversificadas, isto é, havia os mercadores com suas lojas estabelecidas e as vendas livres nas ruas e praças. Entre as mercadorias, havia produtos importados, mais caros, raros e nobres, os quais eram comercializados pelos mercadores; e os produtos extraídos da terra eram típicos das vendas livres. Dentro desse comércio de vendas livres, surgiu, ainda, o comércio ambulante, praticado pelas “negras de tabuleiro” desde o século XVI, vale dizer, 1591, conforme documentação encontrada.578 Essas mulheres negras exerceram, no século XVIII, importante papel no comércio colonial.
Segundo Mott,579 além da instituição das feiras nas cidades e vilas, existiam também as feiras rurais, datadas de 1732. Vários lugares realizavam essas feiras, como por exemplo, Capoame, na Bahia, referida anteriormente como sendo a primeira, na qual se fazia um
575
FREIRE, Felisbelo. História Territorial do Brasil. Rio de Janeiro. I, 1906 apud MOTT, Luiz R.B. Subsídios à História do Pequeno Comércio no Brasil. Revista de História. Op. cit.
576
BARROS, F. Borges de. “O Castelo da Torre de Garcia d’Ávila”. Annaes do Archivo Público da Bahia. v. 24, p. 45-47, 1935 apud MOTT, Luiz R. B. Subsídios à História do Pequeno Comércio no Brasil. Op. cit.
577
MOTT, R. B. Luiz. Subsídios à História do Pequeno comércio no Brasil. Revista de História. Op. cit., p. 87.
578
Ibidem.
579
comércio de gado vacum uma vez por semana, sempre às quartas feiras. Essas aconteciam ainda em Pernambuco, Sergipe e São Paulo (Sorocaba), comerciando vacas, bois, mulas, burros, cavalos, como também farinha e outros produtos. Essas feiras, segundo documento datado de 1800,580 apresentavam-se de duas formas: a feira-mercado e a feira-franca. A primeira era realizada aos sábados, mais reduzida e voltada para abastecer as regiões mais próximas com produtos para a alimentação; a segunda realizava-se anualmente ou de dois em dois anos, com um comércio mais amplo, atraindo vendedores e compradores de variadas regiões, os quais eram mais especializados e comerciavam produtos regionais.
Dessa forma, os colonizadores europeus, imbuídos e experientes com as praças de mercado, vieram para a colônia brasileira. Com a mesma concepção, Oliveira Vianna reforça “[...] a generalização do espírito puramente especulativo e capitalista nos homens de aventura, lusos, espanhóis, holandeses que vinham, nos primeiros séculos da colonização, ‘fazer o Brasil’.”581
Verifica-se, por essa citação e trechos de uma carta de um cronista holandês do século XVII, Jan Moerbeeck aos seus patrícios, citada por Oliveira Vianna, que a origem dos primeiros mercadores e, portanto, da burguesia mercantil brasileira, é de imigrantes.
Retornando à Martins,582 esse nos diz que o conhecimento da origem social ou étnica do empresariado brasileiro baseado em critérios rigorosos disponíveis para uma pesquisa é inviável, pelo fato de esses não existirem.
Justifica o referido autor que, para o desenvolvimento de um projeto de sua autoria e para conseguir dados ou bases sérias e rigorosas sobre a origem e formação das camadas empresariais a partir de 1914, teve que fazer uso do método empírico.583
O resultado da pesquisa realizada por Martins revelou que a grande maioria do empresariado industrial brasileiro “[...] é de origem imigrante [...]”.584
Observa-se, portanto, que a pesquisa de Martins realizada em 1967 não difere do que Oliveira Vianna, cujo estudo nos traz a origem do empresariado brasileiro desde o século XV,
580
Cf. AHU, Bahia. In: CASTRO, Eduardo de Almeida. Inventário dos Documentos Relativos ao Brasil existentes no Arquivo Histórico Ultramarino. Rio de Janeiro. n. 20.795. Ofício do Ouvidor da Comarca de Sergipe d’El Rei, para D. Rodrigo S. Coutinho, de 6/8/1800 apud MOTT, Luiz R. B. Subsídios à História do Pequeno Comércio no Brasil. Revista de História. Op. cit.
581
OLIVEIRA VIANNA, Francisco José. História social da economia capitalista no Brasil. v. 1. Op. cit., p. 127.
582
MARTINS, Luciano. Formação do Empresariado Industrial no Brasil. Revista Civilização Brasileira. Op. cit.
583
A pesquisa de Luciano Martins foi feita especificamente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, sendo, portanto, uma amostra do empresariado brasileiro.
584
MARTINS, Luciano. Formação do Empresariado Industrial no Brasil. Revista Civilização Brasileira. Op. cit., p. 100.
ou seja, desde o início do Brasil Colonial e não somente a partir de 1914, afirmou anteriormente.
Outros estudos existentes no Brasil sobre as origens sociais e étnicas do empresariado brasileiro têm suas investigações sobre empresários mais recentes, e não desde o início de sua formação, como por exemplo, o estudo de Bresser Pereira.585
Sobre a origem do empresariado, a visão da autora Gomes,586 também é semelhante à de Oliveira Vianna e Martins, ao dizer que “[...] o empresariado [...] em grande parte [...] (é) composto por estrangeiros”.587
Outro autor, Sodré,588 escreveu que, se não existem “provas cabais” para o conhecimento das origens sociais e étnicas do empresariado no Brasil, existe uma literatura que nos indica que sua origem é de imigrantes.
Comprovando tal declaração, para a identificação dos primeiros comerciantes que se constituíram no Brasil, Furtado apresenta diversificadas fontes explicitadas no trecho:
A descoberta do ouro fez acorrer para as Minas inúmeros representantes das casas comerciais portuguesas, além de vários homens que acabaram por se envolver em atividades comerciais, aproveitando de uma população sempre carente de produtos da área portuária e rural. Para conhecer o perfil destes comerciantes foram levantados duzentos e doze negociantes que atuaram nas Minas na primeira metade do século XVIII. Noventa e cinco puderam ser conhecidos por meio de seus inventários e testamentos localizados em diversos arquivos. Essa documentação encontra-se depositada no Arquivo Público Mineiro, localizado em Belo Horizonte, na Casa Borba Gato, anexo do Museu do Ouro de Sabará, na Casa do Pilar, pertencente ao Museu da Inconfidência de Ouro Preto e Casa Setecentista, em Mariana, além dos que foram levantados por Anita Novinsky no seu inventário de bens confiscados de cristãos-novos, no século XVIII. Tal documentação possibilitou o estudo do perfil desses homens e mulheres, a atividade a que se dedicavam, a posse de escravos, bens móveis e imóveis, além de propiciar o conhecimento dos créditos e dívidas que foram arrolados nessa documentação. [...] Para completar o estudo, foram consultados livros de devassas das Visitações Eclesiásticas, realizadas nas Minas na primeira metade do século XVIII, que permitiram identificar setenta e sete comerciantes arrolados como testemunhas e quarenta como réus, além de diversos crimes associados à heresia judaica. Esses documentos também permitiram que se pudesse reconstruir o universo mental que esses homens estavam mergulhados, as tentativas de moralização da Igreja e os desvios da sociedade, as condutas que o poder tentavam instituir.589
585
Cf. PEREIRA, Luis Carlos Bresser. Origens sociais e étnicas do empresariado paulista. Revista de Administração de Empresas. n. 11, jun., 1964;
GRUPOS econômicos. Revista do Instituto de Ciências Sociais. v. 1, n. 1, jan./dez, 1965.
586
GOMES, Ângela Maria de Castro. Burguesia e trabalho: política e legislação social no Brasil, 1917-1937. Rio de Janeiro: Campus, 1979.
587
Ibidem, p. 61.
588
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Burguesia Brasileira. Op. cit.
589
FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio: a interiorização da metrópole e o comércio nas minas setentistas. Op. cit., p. 24-5.
Por meio de inúmeros inventários e processos de crimes de devassa ocorridos na época colonial, pode-se afirmar que a origem do comerciante brasileiro vem do imigrante, principalmente, de judeus. Essas informações corroboram e, ao mesmo tempo, contrariam a informação de Martins à página 188 por verificarmos a existência de fontes fidedignas para o conhecimento do início da classe de comerciantes no Brasil arroladas por Furtardo na citação anterior.
Ainda, no início do século XIX, a partir da abertura dos portos brasileiros ao mercado internacional e à época do Tratado com a Inglaterra em 1810, através do qual o mercado brasileiro fora franqueado aos ingleses590 e amplamente beneficiados com a tarifa, Tietz, um alemão, citado por Sodré, afirma:
Os britânicos possuem no Rio de Janeiro dez grandes casas comerciais. A população britânica no Rio é de, aproximadamente, 500 pessoas, sem incluir os artistas, negociantes e quitandeiros. No total, há aí mais ou menos 50 casas comerciais dessa nação; algumas delas têm também escritórios nos portos de Norte e Sul do país.591
Além da presença constante, dominadora e exploradora dos ingleses, o mesmo autor Tietz faz também um comentário sobre a presença dos portugueses nas atividades comerciais no Brasil:
O comércio desse país encontra-se em mãos bem mais de portugueses de que dos próprios brasileiros, que se julgam oprimidos e não querem compreender as causas reais de sua posição de inferioridade: a sua servilidade e leviandade. O comércio varejista no interior, como também no litoral, é dominado quase completamente pelos portugueses ou pelos estrangeiros, aos quais eles emprestam o seu nome nacional. Mas o número de casas comerciais pertencentes a brasileiros não ultrapassa, no Rio de Janeiro, de cinco. Não acreditamos, entretanto, que se encontre, nessa cidade, nem sequer uma de propriedade genuinamente nacional.592
Na mesma direção de Tietz, Sodré ainda aborda outros que deixaram seus registros sobre o início e a expansão do comércio brasileiro, confirmando a presença maciça e constante de estrangeiros no Brasil.593 Comenta, ainda, que o grande comércio ficava nas mãos de ingleses, passando depois para outros europeus enquanto que o comércio a retalhos,
590
Cf. RODRIGUES, Jorge Martins. A rivalidade comercial de norte-americanos e ingleses no Brasil do século XIX. Revista de História da Economia Brasileira, ano 1, n. 1, São Paulo, 1953.
591
TIETZ, F. apud SODRÉ, Nelson Werneck. História da Burguesia Brasileira. Op. cit., p. 80.
592
Ibidem, p. 80 (grifos nossos).
593
Cf. também: MELO FRANCO, Afonso Arinos. História do Banco do Brasil (Primeira Fase, 1808-1835). Rio de Janeiro (s/e), 1947.
Ainda, Sodré nos diz que o grande número de viajantes estrangeiros que vieram ao Brasil, de mercadores a cientistas, deixou registros sobre a atividade comercial no Brasil, sendo impossível e até desnecessário todas