No tópico anterior, falamos sobre cenas. Não podemos esquecer que se trata de cenas de enunciação, ou, nos termos de Maingueneau, de cenografias. O texto literário, em especial os textos em prosa, não apresenta uma enunciação apenas, mas geralmente enunciações que se distinguem muito sutilmente. Normalmente estas distinções possuem marcas que as diferenciam na superfície textual e que produzem certos efeitos de sentido. Observamos que os elementos dêiticos podem ser marcadores destas distintas enunciações que coexistem no texto literário e que se trata de mais que indicadores: trata-se de escolhas estilísticas com um determinado efeito a ser alcançado. Antes de tratarmos desta relação, vejamos quais são essas diferentes enunciações.
As vozes presentes no texto literário têm diferentes enunciadores: a figura do autor projetada no texto, um narrador que guia a narrativa, personagens que tomam a fala do narrador ou que ocupam este papel. E estes enunciadores também podem se dirigir (ou não) à figura do leitor, a um outro personagem presente ou ausente na trama. Essas enunciações podem ocorrer em separado ou juntas. Sobre este assunto, apoiamo-nos em pressupostos sobre enunciação, especificamente nos estudos de Fiorin. Advertimos, porém, que não adotaremos os critérios metodológicos da Semiótica Discursiva, em que se inscreve a análise do autor. Nem mesmo utilizaremos a minuciosa nomenclatura apresentada por Fiorin, baseados nos critérios de análise da Semiótica Discursiva. Nosso maior interesse encontra-se nas instâncias enunciativas e nas relações dêiticas nelas existentes.
Sobre as instâncias enunciativas, é de suma importância, para Fiorin, o reconhecimento das três instâncias enunciativas existentes em um texto. Vale ressaltar que, em alguns casos, elas podem ser reduzidas, ou melhor, duas instâncias podem acumular-se em uma só voz, ocorrendo apenas mudança de perspectiva.
A instância do enunciador e do enunciatário é a primeira. Trata-se da imagem do autor e do leitor que são instituídas pela obra, ou seja, autor e leitor implícitos. Na segunda, encontramos o narrador e o narratário (ou destinador e destinatário), que correspondem ao eu e ao tu instalados no
enunciado, estejam eles implícitos ou explícitos. A terceira hierarquia enunciativa é aquela na qual se encontra o personagem, quando sua voz é apresentada pelo narrador.
Fiorin exemplifica as três instâncias enunciativas com um caso em que, segundo o autor, ocorre uma debreagem8 de terceiro grau, ou seja, onde encontramos juntas as três instâncias:
(25) Estranho efeito, é preciso que se diga. O romance saiu em abril. Pouco depois recebi a primeira carta.
Primeiras retificações, aulas práticas (dizia a carta) [...] Ninguém conta que ela lhe disse: Vá se foder, na primeira vez que Esperancita chamou-a minha filha, e que tiveram que lhe dar sais (Fiorin, 1996).
Podemos identificar, no texto acima, a primeira instância enunciativa como a da pessoa que recebe a carta; a segunda instância como a da pessoa que escreve a carta; e a terceira como a da mulher que tem sua enunciação transcrita.
O autor afirma ainda que não se trata de um mecanismo exclusivo da linguagem verbal, pois as categorias de pessoa, tempo e espaço podem expressar-se de forma distinta em linguagens diferentes. Para exemplificar estes fenômenos, apresentamos aqui alguns exemplos dados pelo autor:
No filme La nave va, de Fellini (1983), a personagem que funciona como sujeito observador efetua, ao piscar para a platéia, uma debreagem actancial enunciativa, pois instaura o enunciatário no enunciado. (...) No quadro A
condição humana, de Magritte, primeiro vemos uma
janela enquadrada por cortinas, pela qual se vê a paisagem exterior. Ao baixar os olhos, percebemos que se trata de uma tela, pois aparecem as pernas do cavalete. Trata-se de um simulacro do ato enunciativo e de suas ilusões. (Fiorin, 1996, p.52-54).
8 Fiorin define debreagem como “operação em que a instância de enunciação disjunge de si e projeta para fora de si, no
momento da discursivização, certos termos ligados a sua estrutura de base, com vistas à constituição dos elementos fundadores do enunciado, isto é, pessoa, espaço e tempo”.
Fiorin afirma que todos estes mecanismos formam diferentes efeitos de sentido no discurso, pois, logicamente, o fato de o narrador projetar-se no enunciado ou de manter-se alheio a ele, acarretará distintos efeitos no texto, assim como criará a ilusão de concomitância entre a realização dos fatos e sua narração, ou, ainda, enunciará um eu como se fora um ele.
Trabalharemos com as três instâncias enunciativas nos contos analisados, tendo atenção especial a suas mesclas, alternâncias e a como tudo isso pode ser indicado por elementos dêiticos – é a marcação dessas diferentes instâncias enunciativas por dêiticos que nossa pesquisa pretende mostrar como uma das contribuições a tudo o que já se disse sobre o assunto.
Ao tratarmos a respeito da enunciação literária, não podemos também nos esquecer do papel fundamental exercido pelo leitor. Quando afirmamos que o texto literário constitui uma situação enunciativa peculiar, é preciso ter em mente que essa distinção também ocorre na perspectiva do co-enunciador, pois o discurso comum difere do literário não exatamente pela distinção entre o real e o fictício, ou pelo significado das palavras, mas principalmente pela maneira de referir os objetos do mundo e de interpretá-los, pois, ao contrário do contexto ordinário, o literário permite sempre uma refocalização e uma redefinição do referente. Daí o prazer de ler e reler um texto literário, quando encontramos sempre novas coisas para as quais não tínhamos atentado numa primeira leitura: detalhes, pistas deixadas pelo autor, que não recuperamos em sua totalidade, ou seja, a referência nunca está completa nem no discurso não-literário quanto mais no literário. Portanto, a construção e a reconstrução de referências dão-se não apenas no texto literário, mas em todos os textos, visto que não se bastam a si mesmos, ou seja, não independem da “co-autoria” do leitor. No entanto, também nos parece claro que, no texto literário, essa relação de “co-autoria” é mais evidentemente solicitada.
Temos dois pesos inversamente proporcionais: quanto mais “subjetivo” e / ou literário é um texto, menos ele é “autônomo”. Ou seja, é no discurso literário que o leitor é convidado de uma forma mais firme a participar da construção de sentido(s) do texto, mas isso não ocorre exclusivamente no texto literário; como afirma Whiteside: é apenas uma questão de grau. Poderíamos afirmar que, se fosse possível organizar os textos a partir de uma “escala de co- autoria”, certamente a bula de remédio estaria num grau bem baixo, e os textos literários em um
alto grau, provavelmente seguidos dos publicitários e humorísticos, que também jogam muito bem com esse efeito autor / leitor / co-autor. Isto porque o texto literário constitui uma situação enunciativa peculiar, visto que um dos traços distintivos do texto literário é o jogo de contextos múltiplos. Convém ressaltar, conforme Maingueneau (1995), que quando falamos do contexto de uma obra literária não remetemos às circunstâncias de produção da obra, ou à data e local de sua publicação, pois tal perspectiva instaura-se fora do ato de comunicação literária.
Segundo o autor, é necessário atentar para o fato de que o contexto de uma obra literária é definido primeiramente no próprio campo literário, que obedece a regras específicas, pois o que um texto diz pressupõe um cenário enunciativo no qual se definem as condições de enunciador, co- enunciador, espaço e tempo e, a partir dessas condições, desenvolve-se a enunciação.
Não é possível desconsiderar as várias enunciações presentes nos textos literários, que muitas vezes se sobrepõem, principalmente nos contos, que, segundo Bosi (1974), possuem a característica de condensar e potencializar em seu espaço todas as possibilidades da ficção.