Para a teoria da identidade, a imagem é o direito responsável por identificar uma pessoa. Segundo essa corrente doutrinária, a imagem é vista como se estivesse contida no direito à identidade. A imagem seria a
66 Orlando Gomes, ao tratar do Direito à Imagem, firma seu posicionamento no sentido de que
tal figura estaria atrelada ao direito à honra, conforme se observa do seguinte trecho: “proíbe-se a reprodução, ou a exposição, quando o fato atenta contra a honra, a boa fama e a respeitabilidade da pessoa retratada, admitindo-se que, nesses casos, possa o ofendido requerer a proibição e pleitear indenização do dano que sofreu. Tais, em síntese, as regras relativas ao direito à imagem” (Introdução ao direito civil. Revista, atualizada e aumentada por Edvaldo Brito e Reginalda Paranhos de Brito. Rio de Janeiro: Forense, 2010. p. 119).
67 O Supremo Tribunal Federal já decidiu que “para a reparação do dano moral não se exige a
ocorrência de ofensa à reputação do indivíduo”, isto é, à honra objetiva, basta “a publicação da fotografia de alguém, com intuito comercial ou não”, pois isso, por si só, “causa desconforto, aborrecimento ou constrangimento, não importando o tamanho desse desconforto, desse aborrecimento ou desse constrangimento”. Havendo o dano, ele “deve ser reparado, como manda o art. 5.º, X [da Constituição Federal]” (Recurso Extraordinário 215.984, 2.ª Turma, Rel. Min. Carlos Velloso, DJ 28.06.2002).
individualização figurativa da pessoa, tanto que os documentos pessoais de um indivíduo, na sua maior parte, contêm o retrato do seu titular.68
É bem verdade que, certas vezes, a violação da imagem do indivíduo leva, por consequência, à afronta ao direito à identidade. Essa situação pode ser observada no seguinte caso, que foi objeto de análise pelo Tribunal de Justiça do Estado do Ceará. Em 1996, Bruno Sarranz, residente no Rio de Janeiro, enviou à revista dedicada ao futebol, de nome Placar, da Editora Abril S.A., uma fotografia de seu tio, Irineu Guimarães Pereira, residente no Ceará, para ser publicada na seção de cartas dos leitores.
Na referida fotografia, Irineu aparece em primeiro plano, de pé, em uma cozinha, fazendo a “conhecida posição anatômica de halterofilista, com os braços levemente flexionados para baixo, um punho em direção ao outro”. Em segundo plano, ao fundo, “vê-se o remetente da foto, com uma camisa do clube Fluminense, do Rio de Janeiro, ao passo que seu tio vestia uma camiseta com a inscrição ‘Força-Flu’ em referência a uma torcida organizada daquele tradicional clube carioca”.
A fotografia enviada à revista vinha acompanhada da seguinte descrição: “toda a minha família torce para o Fluminense. Essa foto é do meu tio Irineu. Ele mora em Fortaleza e gosta da imitar o He-Man”.
Entretanto, a referida imagem, ao ser divulgada, acabou sendo objeto de montagem. Foi publicada apenas a parte superior do corpo do retratado, aparecendo, em vez de suas próprias pernas, “as de uma bailarina, em trajes tradicionais, com saiote, meia-calça e flexão plantar de tornozelo (ponta dos pés)”. A foto ainda seguiu acompanhada dos seguintes dizeres: “não sei se você está preparado para saber disso, Bruninho, mas seu tio Irineu tem dupla identidade. De noite ele prefere imitar a She-Há...”. Em razão da
adulteração da imagem, a editora acabou sendo condenada a indenizar o retratado em duzentos salários mínimos.69
Situação semelhante ocorreu com a atleta de judô Denise de Oliveira, que permitiu que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) veiculasse a sua imagem para divulgação do evento esportivo. Todavia, após a realização do referido evento, sua imagem foi manipulada por meio de computação gráfica e foi novamente utilizada, só que dessa vez sem o seu consentimento, para divulgar o Campeonato Brasileiro de Jiu-Jítsu, o que fez com que a atleta de judô acabasse se passando por uma atleta de outra modalidade, o jiu-jítsu.70
Nas situações descritas, a imagem serviu de instrumento para atingir a identidade da vítima. Contudo, nem sempre que ocorrer a violação ao direito à imagem de uma pessoa, haverá lesão à sua identidade.
A teoria da identidade sofreu diversas críticas. Dentre seus opositores encontra-se Walter Moraes,71 para quem a identificação decorre do interesse eminentemente coletivo de reconhecer cada indivíduo, enquanto a imagem refere-se a interesse preponderantemente pessoal de individualização. Identificação e individualização são figuras distintas e não podem ser confundidas. Poderá haver ofensa à imagem sem existir lesão à identidade do indivíduo.
Exemplo dessa situação foi vivido pela atriz Ísis Nable Valverde (Ísis Valverde) em março de 2007, durante as gravações da novela “Paraíso Tropical”, da Rede Globo de Televisão. A atriz fazia o papel de uma prostituta e filmava nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, quando foi flagrada por um paparazzo. A foto tirada pelo paparazzo acabou sendo publicada em abril de 2007 na revista Playboy, da Editora Abril S.A.
69 Apelação Cível 2000.0014.5201-1/0, 1.ª Câmara Cível, Rel. Des. José Arisio Lopes da
Costa, Acórdão proferido em 23.12.2002.
70 Recurso Especial 299.832/RJ, 3.ª Turma, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, DJe
27.02.2013.
O retrato foi estampado “na coluna Click, sob a legenda ‘Fotos indiscretas de Playboy’”, e mostrava a atriz com um dos seios desnudos, em decorrência de um descuido momentâneo durante as gravações da novela. A foto vinha acompanhada do seguinte texto: “Ísis Valverde, no Rio, dá adeusinho e deixa escapar o cartão de boas-vindas”.
Diante dos fatos, em 12.03.2013, a Justiça Estadual do Rio de Janeiro condenou a editora pela divulgação da imagem, impondo-lhe o pagamento de indenização pelo dano moral causado à atriz, em decorrência da simples publicação não autorizada da fotografia.72
No caso mencionado, a utilização de fotografia da atriz sem o seu devido consentimento em momento algum violou o direito à identidade, pois a imagem retratada, ainda que contra a vontade de Ísis Valverde, era sua, e não sofreu qualquer tipo de modificação. Por outro lado, a imagem da atriz foi afrontada, pois estampou revista destinada ao público masculino – inclusive contribuindo para a sua vendagem – sem que essa fosse a sua vontade.
Portanto, o direito à imagem e o direito à identidade podem ser lesados simultaneamente, com a imagem servindo de meio para afrontar a identidade de uma pessoa. A despeito dessa possibilidade, a casuística já comprovou que a imagem pode sofrer violação, permanecendo incólume a identidade do indivíduo, pois se trata de direitos distintos e independentes.