FUEL OİL’İ ISITMAK İÇİN BUHAR ÖN ISITICISI TEMİN EDİLDİĞİ HALDE BRÜLÖR AYARI
KONFİGİRASYON ( PROGRAMLAMA )
Em 1977 as emissoras de televisão produziam conteúdo próprio e importavam programas estrangeiros, sobretudo seriados e filmes de longa-metragem, e o cinema não apresentava histórico de integração com este setor. Neste contexto a Embrafilme lança um programa especial para a produção de pilotos de séries para televisão.
O objetivo do programa era produzir produtos nacionais para a televisão que pudessem ocupar o lugar dos “enlatados” norte-americanos. Pretendia-se também estabelecer um diálogo entre cinema e televisão, visando à ampliação do mercado cinematográfico, o que demonstra reconhecimento por parte do Estado da importância do mercado televisivo.
Primeiramente os pilotos seriam produzidos, e após a finalização a Embrafilme negociaria sua venda e exibição com as emissoras de televisão. Segundo entrevista de Roberto Farias, então diretor da Embrafilme, ao pesquisador Tunico Amâncio39, a negociação com a televisão não foi iniciada antes da realização dos programas porque a Embrafilme acreditava que as emissoras só se interessariam pelo produto acabado, e não pelo projeto, o que se mostrou ser um grande engano.
Segundo Tunico Amâncio, foram apresentados 97 projetos, dos quais 22 foram selecionados. Observando a Tabela 1 com os projetos selecionados é possível perceber as diferenças temáticas entre eles, alguns mais voltados para o entretenimento como O Vigilante
Rodoviário, outros com caráter mais histórico como Caramuru.
Tabela 1-Projetos selecionados pela Embrafilme
Nome Diretor
O Homem de Aluguel Jece Valadão
História, Povos de Língua Portuguesa Rubens Rodrigues dos Santos
O Coronel e o Lobisomem Alcino Diniz
Tio Benicio Pedro Ernesto Stilpen
Nosso Mundo Nelson Pereira dos Santos
Brasil 480 Zelito Vianna
Coronéis e Jagunços Joaquim Pedro de Andrade
Caramuru Francisco Ramalho Júnior
Vida Vida Domingos de Oliveira
Marechal Rondon Geraldo Santos Pereira
Joana Angélica Walter Lima Júnior
O Vigilante Rodoviário Ary Fernandes
Os Melhores Momentos da Literatura Brasileira
C.A. de Oliveira, Marcos de Oiveira, Hermano Penna e Sérgio Muniz.
Os Imigrantes Sérgio Muniz
João Juca Júnior – Detetive Carioca Egydio Eccio
Caso de Polícia César Memolo, Henry Fowle, SadyScalante
Alice João Batista Andrade
Maneco – Super Tio Flávio Migliaccio
Curumim Roberto Santos
Aventuras da História do Brasil José Miziara, David Grinberg
Xico Rei Jorge Bodansky, Wolf Gauer
Mistério das Origens Plytime Produções
Fonte: EMBRAFILME financia os 22 primeiros seriados que vão substituir os ‘enlatados’ na TV. Jornal do
Brasil. Rio de Janeiro, 16 ago. 1977.
Além das diferenças temáticas, os programas apresentavam diferenças técnicas e estilísticas, como aponta a pesquisadora Zulmira Tavares após analisar dois filmes produzidos por este programa, Joana Angélica (Walter Lima, 1978) e Caramuru (Francisco Ramalho, 1979).
Tem-se a impressão que Walter Lima ignorou propositalmente qualquer idéia antecipada de público ou públicos e não pautou o seu trabalho pela pressão de médias estatísticas com que se delineia o mercado de entretenimento, particularmente na TV. Por outro lado, Francisco Ramalho teria levado em consideração “todos” os públicos possíveis, nivelando-se por baixo, do que teria resultado um trabalho que seria mais ou menos como a caricatura do produto de fácil assimilação, a caricatura da própria média estatística; do que viria a ser um divertimento “decente” e “didático”. A diferença entre ambos os filmes é de tal natureza que se torna exemplar40.
A produção dos pilotos foi marcada pelo atraso na entrega dos produtos e pela inadequação das produções ao mercado televisivo. Segundo José Mario Ortiz Ramos, “até outubro de 1978 apenas nove pilotos tinham sido entregues, o prazo sendo desrespeitado pela maioria dos produtores”41. Além do desrespeito aos prazos de produção, muitos cineastas estavam envolvidos em outros projetos ou pretendiam transformar os pilotos em longas- metragens, o que demonstra a dificuldade de adaptação ao mercado televisivo por parte dos cineastas.
Outro problema era a inadequação dos produtos ao mercado. Os projetos foram produzidos sem se preocupar com o formato de série, e sem se adequar a televisão. Os programas pilotos não apresentavam ganchos narrativos, alguns não previam continuidade e não tinham cortes para os intervalos comerciais.
O objetivo do programa era que os pilotos produzidos se desdobrassem em 200 episódios seriados. No entanto a produção se limitou ao episódio piloto e as emissoras de televisão não se interessaram pelo produto. Como a Embrafilme não garantiu a exibição por meio de acordos com a televisão, os programas produzidos não chegaram a ser exibidos.
O projeto elaborado pela Embrafilme não se preocupou com a dinâmica da produção de um produto para a televisão, com a adaptação entre as diferentes formas de produção entre cinema e televisão e com a sua exibição. Não foram apresentados estudos de mercado, indicando a faixa etária e o público que os programas pretendiam atingir.
40 TAVARES, Zulmira Ribeiro. Seriados sem série e outros espantos. Filme e Cultura, Rio de Janeiro, v. , n. 4142, maio 1983, p. 12.
Uma aproximação, portanto, problemática entre cinema e televisão, mostrando a colisão de práticas de produção audiovisual bastante diferenciadas. As respostas das emissoras desfizeram as últimas ilusões. A TV Tupi considerou as produções caras, e a TV Globo resolveu que exibiria seus próprios seriados a partir de 197942.
Se a Embrafilme optou por desenvolver um produto para depois negociá-lo com a televisão, deveria ter se preocupado mais com o potencial comercial das obras. Atentando para os formatos e temáticas que pudessem interessar as emissoras de televisão.
A variedade das obras produzidas e a falta de visão comercial levam ao questionamento dos critérios que a Embrafilme utilizou na escolha dos projetos. Segundo a entrevista de Roberto Farias dada ao Jornal do Brasil, para a seleção dos projetos:
(...) foram ouvidos sociólogos, psicólogos, historiadores, pessoas especializadas em folclore e assuntos culturais, mas evitou-se formar uma comissão, porque qualquer grupo que se forme se transforma automaticamente em censura pela própria competição nascida entre os integrantes. A seleção, segundo explicou, foi baseada na « capacidade das pessoas que realizaram os projetos e pelo confronto da qualidade desses projetos entre si »43
A preferência pelas obras que trabalhassem a temática brasileira e os personagens do cotidiano fica clara em outro trecho da entrevista do dirigente da estatal: “nós vamos procurar oferecer coisas e personagens autenticamente brasileiros, como forma de opção para o publico, garantindo-lhe o direito de escolher” 44.
O caráter nacionalista do programa se destaca pelo discurso do então Ministro da Educação e Cultura, Ney Braga: “Os cineastas deverão assumir a posição de pesquisadores da nossa história, transformando suas obras em veículos de entretenimento educativo para as populações de todas as idades”45. Seu discurso de lançamento do programa deixa claras as intenções nacionalistas do governo, reforçando a importância da cultura e da temática nacional, e reforçando mais uma vez o caráter educativo do cinema, sua função de entreter e educar a massa.
Esta opção pelo investimento em obras majoritariamente com temática nacionalista vai ao encontro dos interesses do ministério da Educação e Cultura e da ideologia ditatorial da época. Porém, não faz sentido como estratégia de mercado, já que a ideia do programa era comercializar os produtos produzidos, despertando o interesse das emissoras de televisão.
42 RAMOS, José M. O. Op. cit. p. 53. 43
EMBRAFILME financia os 22 primeiros seriados que vão substituir os ‘enlatados’ na TV. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 16 ago. 1977.
44 Idem. 45 Idem.
Para Tunico Amâncio46, a ausência de uma estratégia comercial na seleção dos projetos indica que se esperava uma nova intervenção estatal, obrigando as emissoras a exibirem seriados nacionais. E com esta obrigatoriedade não seria necessário se preocupar com a viabilidade econômica dos programas.
No entanto, a obrigatoriedade de exibição não foi criada e os projetos não encontraram mercado. Assim, o projeto da Embrafilme perdeu a oportunidade de se relacionar com a televisão através de uma perspectiva econômica, para requisitar novamente a intervenção estatal.
Esta experiência também evidencia a separação entre cinema e televisão na década de 1970, onde os profissionais do cinema viam a televisão como entretenimento, ou uma arte menor, e a televisão via os profissionais de cinema como irresponsáveis e sem capacidade técnica. No entanto, além da separação “ideológica” entre estes setores, é perceptível o desinteresse da televisão em coproduzir com o cinema, optando por verticalizar sua produção e a inadequação do setor cinematográfico ao modo de produção televisivo. José Mario Ortiz Ramos comenta esta separação:
A contraposição com a TV se desdobra no início da década de 80, sintomaticamente logo após o episódio dos fracassados ‘pilotos’ da Embrafilme. Walter Lima Jr. Lembra correntes entre os cineastas. ‘as pessoas de televisão até hoje têm uma idéia das pessoas de cinema – e de uma certa forma têm um pouco de razão – como se estas fossem muito distantes do ritmo da televisão, enquanto que as pessoas de cinema idealizam muito o trabalho delas, fantasiam muito o seu projeto de trabalho e convivem com esta fantasia durante muito tempo. E isso cria um mecanismo, uma crosta de autodefesa muito grande. Na televisão, a coisa é meio apavorante, porque aquilo é muito fábrica, o cinema já foi em algum lugar uma fábrica, mas aqui não é uma fábrica, é um artesanato (...). O intelectual na televisão me parece uma pessoa encostada contra a parede, ele não tem muita chance de se exercer puramente enquanto um intelectual.’ Sonhava-se com um outro tipo de televisão, com uma produção menos condicionada pelo aspecto comercial. uma geração criada num clima cultural totalmente diverso se chocava violentamente com a TV47.
O projeto da Embrafilme não foi capaz de mudar esta situação. Com resultados lamentáveis e falta de planejamento, a Embrafilme não despertou o interesse da televisão em coproduzir com o cinema, nem permitiu que os cineastas aprendessem a lógica de produção da televisão. Assim, o projeto de produção de programas pilotos de séries para a televisão foi uma iniciativa frustrada que não integrou cinema e televisão.
46 AMÂNCIO, Tunico. Op. cit. p. 95. 47 RAMOS, José M. O. Op. cit. p. 84.