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2. KONAKLAMA İŞLETMELERİ ORGANİZASYON YAPISI

2.2. Konaklama Tipleri

O personagem Eulálio d‟ Assumpção Palumba Júnior, filho de Eulálio d‟Assumpção Palumba, bisneto do narrador, surgirá na narrativa caracterizado como um engodo, um estorvo, “um cala boca” (BUARQUE, 2009, p.145) dos militares para reparar o desaparecimento de seu pai. O estudioso Leocir Antonio Sfogia (2013), em sua dissertação

Leite Derramado – Aspectos da Configuração Estética da Memória e do Narrador, fará dele a seguinte descrição:

[...] nasceu na prisão e foi entregue para Eulálio pelo coronel Althier - militar do exército que trabalhou com Eulálio em 1929, durante as provas de tiro na Marambaia –, morreu jovem, do mesmo modo que o bisavô senador, a tiros e ficou caído na mesma posição no carpete do Motel Tenderly. Provavelmente assassinado pela neta de Anna Regina Vidal, a mulher que o abandonou no motel fugindo de carro – podemos inferir que por ser ela „neta‟ e ele „bisneto‟ condiz com a descrição da mulher que foge do motel (SFOGIA, 2013, p. 47).

Seu pai Eulálio d‟ Assumpção Palumba falecera durante a Ditadura Militar. Segundo o narrador em uma interlocução com a filha, o neto “meteu na cabeça de ser comunista [...] comunista da linha chinesa. Esse seu filho engravidou outra comunista, que teve um filho na cadeia e na cadeia morreu. Você diz que ele próprio morreu nas mãos da polícia” (BUARQUE, 2009, p. 38). Era filho único de Maria Eulália Vidal d‟ Assumpção e Ameringo Palumba. A avó receberá a notícia da chegada do neto recém-nascido a contragosto. Normalmente as avós, ao receberem um neto, se comportam de forma esfuziante, não é caso da filha do narrador Eulálio, que expõe as reações desta:

Para mim, o advento da criança era sem dúvida noticia alvissareira, se bem que um bisneto sempre vai nos parecer um ser familiar e ao mesmo tempo tão estranho, como um rio da nossa cidade léguas adiante. Mas Maria Eulália era a avó, e todos sabemos como são as avós, são que nem mães abobalhadas. Pois Maria Eulália, não. Talvez por ter recebido a noticia em contrapé, tomo-a por uma desfaçatez, aquela criança para ela era um engodo. Na cabeça dela, entregavam-lhe um menino a modo de escambo, como um cala boca para reparar o desaparecimento do outro. [...] Maria Eulália, que passou o berço do neto para o meu quarto mas nem se dignava alimentá-lo. Cabia a mim bater o leite em pó da sua mamadeira, que lhe provocava cólicas, disenteria, o bebê desidratava, gastei um dinheirão com pediatra. Mas nada comovia a avó, nem a parecença do menino com o pai, nem mesmo o idêntico bruto nariz dos Palumba, que para ela era mais uma impostura. Pensei que lhe fazia um agrado, ao registrar a criança como Eulálio d'Assumpção Palumba Júnior, em homenagem ao pai. No entanto ela só se referia ao neto como esse aí: esse aí está chato, esse aí está fedendo,

minha filha perdeu muito de sua finesse depois que se misturou com uma gente de maus bofes (BUARQUE, 2009, p. 145-146, grifo meu).

Um episódio evidenciado na narrativa é o incômodo que Maria Eulália demonstra com o fato de o neto começar a “pretejar”. Revelam-se aí indícios de que este era um menino negro. Nesse sentido, a avó se revela repulsiva e preconceituosa quanto à cor do garoto, e além de ignorá-lo, afirma que o neto “só podia ter puxado sua mãe mulata”, Matilde. É interessante constatar que esta nunca tinha visto um retrato da mãe. Já Eulálio, que não reconhecera a origem negra da mulher, reconhece a do bisneto. Dessa forma, refere-se a ele de forma estigmatizada e racista: “Os senhores vão cair para trás, mas meu bisneto era tão preto quanto o chefão aí da quadrilha” (BUARQUE, 2009, p. 168). Podemos inferir que a filha do narrador se pautava pelos boatos que ouvira sobre Matilde durante toda a vida.

O pequeno fazia tudo para chamar sua atenção, mas ela não se impressionou nem quando ele começou a pretejar. Da noite para o dia os cabelos dele se encresparam, o nariz de batata engrossou mais ainda, e quanto mais o menino escurecia, mas me perturba a sensação de conhecer sua cara de algum lugar. Era curioso porque, tirante o preto Balbino e um ou outro criado, eu não tinha muita gente de raça nas minhas relações, nem nunca avistei a mãe do menino, a dos nomes fictícios. E a cor do menino provinha dela, logicamente, eu não poderia esperar de um neto comunista que se juntasse com uma moça de pedigree. Mas ora, ora, papai, disse Maria Eulália, está na cara que esse aí puxou minha mãe mulata. Não sei quem abastecia minha filha com tantas maledicências, Matilde tinha a pele quase castanha, mas nunca foi mulata. Teria quando muito uma ascendência mourisca, por via de seus ancestrais ibéricos, talvez algum sangue indígena. De Matilde o menino só herdara o gosto por música barata, era escutar o rádio do vizinho e ele se balançava todo (BUARQUE, 2009, p. 148-149, grifo meu).

Na narrativa de Leite Derramado (2009), o bisneto do narrador é reduzido à figura estigmatizadora. Em sua infância, como vimos, não foi encorajado a ter uma consciência racial, muito pelo contrário, a avó, Maria Eulália, explicita a rejeição pela cor de sua pele. Não há indícios de identificação dele com seu grupo étnico na narrativa. De acordo com a narrativa, Eulálio d‟ Assumpção Palumba Júnior teve convivência íntima somente com pessoas brancas em sua infância. Para Consuelo Dores Silva (1995), uma criança negra que cresce sem contato físico com seus pares pode ter sua identidade comprometida, “todos os indivíduos têm necessidade de avaliar a si mesmos, comparando-se com outras pessoas. Se a comparação se processa entre pessoas semelhantes, tanto em aspectos econômicos quanto sociais, é provável que as informações obtidas sejam mais completas” (SILVA, 1995, p. 37). A autora afirma que, se, na fase da infância, as crianças perceberem “sua pouca atratividade para os grupos nos quais se insere” (SILVA, 1995, p. 93), podem desenvolver “complexo de

inferioridade, passando em seguida, a se envergonhar de suas características raciais” (SILVA, 1995, p. 93). Segundo a autora, neste contexto, embranquecer será essencial.

O narrador nos revela uma cena singular que contradiz e revela o racismo de Maria Eulália. Ela se dedicará amorosamente ao filho de seu neto, Eulálio d Assunção Palumba Neto. A linguagem utilizada no texto ilustra a afetividade presente no tratamento de bisavó com seu bisneto, mesmo ante um comportamento delinquente. Além disso, o fragmento por meio da descrição dos traços físicos do garoto demonstra o porquê de sua predileção.

Todavia lhes advirto que se alguém se atrever a me encostar um dedo terá de se haver com meu tataraneto Eulálio. Por muito menos ele tocou fogo na escola, e depois de uma temporada no reformatório ficou mais genioso ainda. Mas nunca deixou de ser o quindim da bisavó. Que passava os dias a pentear seus cachos, com medo de que encarapinhassem (BUARQUE, 2009, p. 169).

Eulálio tem dúvidas sobre a origem do tataraneto, suas incertezas correlacionam-se diretamente com a origem racial do garoto, já que este foi supostamente reconhecido como filho de seu provável bisneto negro.

Eulálio d'Assumpção Palumba Neto, metido a galã, cabelos claros ondulados, para Maria Eulália seus olhos azuis lembram os do meu avô, num retrato a óleo que se perdeu por aí. Cá entre nós, tenho dúvidas quanto à ascendência do rapaz, dado como filho póstumo do meu bisneto Eulálio. Os senhores vão cair para trás, mas meu bisneto era tão preto quanto o chefão aí da quadrilha encarapinhassem (BUARQUE, 2009, p. 168).

A exaltação à virilidade sexual do homem negro colabora negativamente para personificação desses indivíduos como objeto de desejo, “ao negão” forte, corpulento, alto, são reservadas as posições hipersexualizada e de homem violento. Essas visões se manifestam no estereótipo de que este possui um órgão genital de grande espessura e, consequentemente, tem um alto desempenho sexual. Tais representações sociais fazem este sujeito ser “desejado”, tanto por mulheres quanto por homossexuais, imaginário que está presente na vida de Eulálio d´Assumpção Palumba Júnior. Observamos como se ilustra esta estrutura na cena em que o bisavô relata as relações sexuais do bisneto com inúmeras mulheres:

Olhava as mulheres tal e qual meu pai, não de modo dissimulado, nem lascivo, muito menos suplicante, mas com solicitude, como quem atendesse a um chamado. Por isso as mulheres lhe eram gratas, e ao seu tempo começaram a procurá-lo em casa, foi de tanto dormir no divã da sala que Maria Eulália ficou corcunda. Ao som de sambas, rumbas, rock and roll, o Eulálio se entretinha no quarto com empregadinhas do bairro, caixas de supermercado, namorou até oriental, garçonete num sushi bar.Trazia também colegiais, um dia vi entrar uma menina muito branquinha

cheirosa, um andar gracioso. Dessa vez colei o ouvido no copo contra a minha parede, curioso dos gemidos dela, queria saber que melodia tinham. Por baixo de uma batucada distingui sua cantinela triste, aguda, que subitamente deu lugar a gritos guturais, fode eu, negão!,enraba eu negão!,e não sou homem que se melindre à toa. Mas assim que cruzei com ela, eu me vi compelido a lhe dizer, o negão aí é descendente de dom Eulálio Penalva d’ Assumpção, conselheiro do marquês de Pombal (BUARQUE, 2009, p. 150, grifo meu).

Como vimos na passagem citada, o modelo do homem negro viril é legitimado e reconhecido pelo senso comum, suas reações machistas e sexistas também, o espelho do bisneto de Eulálio é a figura desse bisavô, branco, heterossexual e machista. No universo de Palumba Júnior inexistem referências masculinas positivas, o que ele empreendeu fazia parte da cultura eurocêntrica. As mulheres lhes eram gratas pelo sexo que proporcionava a elas, uma delas, segundo a narração de Eulálio, exaltava a negritude do bisneto e os dotes sexuais do rapaz. Dessa forma, a dimensão da raça ligada à potência sexual está intrinsecamente ligada ao fragmento.

Há uma fetichização do homem negro no Brasil, imaginário o qual se circunscreve no período colonial. Gilberto Freyre (1933) nos diz que os homens negros escravizados “puderam resistir melhor às influências patogênicas, sociais e do meio físico e perpetuar-se assim em descendências, mais sadias e vigorosas” (FREYRE, 1998, p. 46-47) do que “os caboclos e brancarões”. Foram constatados casos sexuais entre sinhá-donas e escravizados, igualmente sinhás-moças e escravizados. A ação contra tais escândalos quando descobertos era “castração do negro, salgava-se as feridas dele, e enterram-no vivo depois” (FREYRE, 1998, 338-339). Outra consideração do autor foi em relação à seleção eugênica e estética realizada no comércio escravagista: os corpos negros eram escolhidos com funções premeditadas, havia interesses sexuais e econômicos na sociedade patriarcal escravagista: “os senhores favoreciam a dissolução para aumentarem o número de crias como quem promove o acréscimo de um rebanho” (FREYRE, 1998, p. 316). Para tanto, Freyre (1933) chama a atenção para não nos escandalizarmos e entendermos que:

Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime. Em primeiro lugar, o próprio interesse econômico favorece a depravação criando nos proprietários de homens imoderado desejo de possuir o maior número possível de crias. Joaquim Nabuco colheu em um manifesto escravocrata de fazendeiros as seguintes palavras, tão ricas de significação: "a parte mais produtiva da propriedade escrava é o ventre gerador” (FREYRE, 1998, p. 316).

Como vimos havia um interesse de reprodução de capital financeiro na “depravação sexual”, que era consentida e estimulada pela classe oligárquica na colônia., “O que se queria era que os ventres das mulheres gerassem. Que as negras produzissem moleques” (FREYRE, 1998, p. 317). Erroneamente Freyre (1933), por meio de Casa Grande & Senzala, dissemina estereótipos relacionado aos negros e se contradiz ao explicar-se:

Passa por ser defeito da raça africana, comunicado ao brasileiro, o erotismo, a luxúria, a depravação sexual. Mas o que se tem apurado entre os povos negros da África, como entre os primitivos em geral [...] é maior moderação do apetite sexual que entre os europeus. É uma sexualidade, a dos negros africanos, que para excitar-se necessita de estímulos picantes. Danças afrodisíacas. Culto fálico. Orgias. Enquanto no civilizado o apetite sexual de ordinário se excita sem grandes provocações. Sem esforço. A idéia vulgar de que a raça negra é chegada, mais do que as outras, a excessos sexuais, atribui-a Ernest Crawley ao fato do temperamento expansivo dos negros e do caráter orgiástico de suas festas criarem a ilusão de desbragado erotismo. Fato que "indica justamente o contrário", demonstrando a necessidade, entre eles, de "excitação artificial” (FREYRE, 1998, p. 315-316).

A contradição do ensaísta está no fato de que, ao visualizar tal panorama, este não espere um comportamento naturalmente moral do negro dado às circunstâncias. Para o autor o meio transformou os escravizados em indivíduos potencialmente sexuais:

Se há hábito que faça o monge é o do escravo; e o africano foi muitas vezes obrigado a despir sua camisola de malê para vir de tanga, nos negreiros imundos, da África para o Brasil. Para de tanga ou calça de estopa tornar-se carregador de tigre. A escravidão desenraizou o negro do seu meio social e de família, soltando-o entre gente estranha e muitas vezes hostil. Dentro de tal ambiente, no contato de forças tão dissolventes, seria absurdo esperar do escravo outro comportamento senão o imoral, de que tanto o acusam (FREYRE, 1998, p. 315).

Sabemos que os indivíduos escravizados, homens e principalmente mulheres, não foram apenas estimulados, mas violados sexualmente. Alguns autores como Edward Telles (2003) afirmam que “a mistura racial no Brasil ocorreu principalmente à força, entre parceiros sexuais de status social desigual” (TELLES, 2003, p. 137); outros estudiosos falam sobre estupro em massa.

Pereira e Gomes em seu livro Ardis da Imagem (2001) afirma que embora haja exaltação e publicidade para o “negão viril” e “pegador”, como é caso do personagem Eulálio, na maioria das vezes, como verificamos na narrativa, este será objeto do ideal das fantasias sexuais femininas. Sua posição social pode levá-lo a relacionamentos inter-raciais, até mesmo ao matrimônio, mas em algum momento essa relação esbarrará no conflito gerado pela

invisibilidade de sua cor, sua masculinidade foi subalternizada e construída por meio de estereótipos negativos.

A estética que exalta a virilidade se apropria do negão como imagem “da moda”, ou seja, passa utilizá-la como um instrumento que confirma a reificação do corpo negro. Em função disso, a ética capitalista estabelece parâmetros para estética do negão viril, tal como faz para o produto mulata (GOMES; PEREIRA; 2001, p. 231).

Eulálio d‟ Assumpção Palumba Júnior é marcado pela cor negra, e ainda que pense que é o dominador, continuará sendo o dominado pelas estruturas invisíveis do racismo. Seu bisavô Eulálio o identifica como um sujeito “namorador, que teve um caso com uma japonesa e engravidou a prima” (BUARQUE, 2009, p. 39). Há um jogo de cartas marcadas que consolida e rege os estereótipos no imaginário sociocultural que se relaciona ao homem negro. Somente quando se adquire consciência de si, este ser subjugado poderá contrapor-se ao sistema. Frantz Fanon (1952) nos diz que o homem negro, ante o “desejo repentino de ser branco” (FANON, 2008, p. 69) e ser reconhecido enquanto branco, também deseja ser digno do amor da mulher branca. Este crê que, recebendo o amor desta, se abrirá “o ilustre corredor que conduz à plenitude [...]” (FANON, 2008, p. 69), ele desposará “a cultura branca, a beleza branca, a brancura branca” (FANON, 2008, p. 69). Pensa que se apropriará “da civilização branca, da dignidade branca” (FANON, 2008, p. 69), pode ser que este seja o caso do bisneto do narrador, pensamento embranquecedor, já que os modelos estéticos e padrões aos quais teve acesso culturalmente tornaram-se imprescindíveis à sua aceitação social.

Para o narrador, o importante era Eulálio d‟Assumpção Palumba Junior demonstrar apetite sexual; para o personagem, era muito mais uma herança familiar que o bisneto herdara do que propriamente uma característica ligada às representações racistas. Não há esta consciência racial por parte de Eulálio, muito pelo contrário. Compreendemos que, apesar do status de “sujeito viril” ser aceitável socialmente em nossa sociedade patriarcal e machista, a redução do homem negro a objeto remete-nos a estereótipos do passado escravagista brasileiro, revela-nos o racismo e reproduz este discurso em nossa sociedade e também na narrativa, com toque de ironia crítica.

E nem todo dia me apareciam em casa moças à altura do meu bisneto. A menina morava na praia de Copacabana com a avó, que não tardou a manifestar desejo de me receber para um chá. E mal pude crer quando li no cartão de visita, sob o nome de Anna R. S. V. P. de Albuquerque, o velho endereço do meu chalé. [...] E ao defrontar com a madame, só mesmo por um prodígio pude reconhecer, através de uma cachoeira de rugas, as feições de Anna Regina, irmã caçula de Matilde. Perguntei-lhe pela saúde dos pais,

falecidos havia mais de trinta anos, e me abstive de mencionar suas irmãs mais velhas. [...] Mas a minha cunhada não estava para confabulações, e enquanto a copeira servia o chá, me ordenou em francês que afastasse o Eulálio da sua neta. Perguntou se eu preferia açúcar ou adoçante, e disse que seria supérfluo me explicar por quê. Chegando em casa, alertei o Eulálio sobre os riscos de uma união consanguínea, ainda que a menina fosse uma prima em grau distante. Mas ele não sabia do que eu estava falando [...] (BUARQUE, 2009, p. 150-152).

O fragmento citado revela-nos o óbvio ante as relações raciais descritas, para o narrador, herdeiro falido de uma aristocrática família. Sendo o bisneto um Assumpção, este não poderia relacionar-se com qualquer mulher. Porém, ao ser interpelado pela irmã de Matilde sobre o envolvimento de Eulálio d‟ Assumpção Palumba Júnior com a neta desta o personagem infere que os motivos são meramente sanguíneos. O narrador não enxerga que seu bisneto era visto somente como uma aventura sexual, não há nenhum interesse por sua personalidade ou subjetividade nos relacionamentos que este possui. É muito provável que a avó da moça não desejasse o envolvimento desta, de nobre condição financeira, com um jovem, que, além de pobre, era negro.

Muitas vezes os homens negros nestas relações são vistos como uma experiência exótica, nem sempre são apresentados às famílias, ou servem para o casamento, talvez almejem o matrimônio, já que possuem a falsa ilusão de que são desejados por muitas, sexualmente até pode ser, romanticamente nem tanto. No caso do personagem Eulálio D‟Assumpção Palumba Júnior, o “casamento nunca lhe passara pela cabeça. E já estava envolvido com outras, de garotas semivirgens a mulheres que entravam em casa virando o rosto, quiçá comprometidas” (BUARQUE, 2009, p. 152).

Edward Telles (2003) diz que “embora os brasileiros prefiram a endogamia, mais de um quinto dos brancos se casam com negros, enquanto a união entre brancos e negros nos Estados Unidos e África do Sul é rara” (TELLES, 2003, p. 158). Mesmo neste contexto homens negros se casam mais com mulheres brancas, do que mulheres negras, com homens brancos. Telles (2003) ressalta que “a união inter-racial é considerável nas camadas socioeconômicas mais baixas, ao passo que rara nas camadas altas” (TELLES, 2003, p. 152). Para o autor há uma possível “troca de status na união inter-racial no Brasil”, uma delas se revela na comprovação de que “seria razoável supor que os indivíduos de status racial mais baixo em uma união inter-racial também tenham maiores níveis de escolaridade” (TELLES, 2003, p. 152). O autor destaca que:

Para muitos jovens, pretos ou pardos, ter uma mulher branca (preferencialmente loira) é símbolo de sucesso, honra e poder, o que é coerente com a ideologia de branqueamento. Burdick também notou que a sexualidade dos homens de pele escura atrai as mulheres brancas. Mulheres brancas também são atraídas para esses homens porque deles receberiam maior dedicação do que de homens brancos (TELLES, 2003, p. 152).

As ideias de Telles (2003) e de Fanon (1952) se correlacionam ainda que as imagens do segundo tenham sido construídas para um contexto relacionado ao racismo em França. A ideia do ser negro atravessa dimensões geográficas.

O destino final de Eulálio d´Assumpção Palumba Júnior na ficção não é surpreendente, já que, segundo a Anistia Internacional e outros órgãos competentes, jovens de pele negra do sexo masculino, entre quinze e vinte cinco anos no Brasil, são os indivíduos que têm muito mais chance de serem assassinados violentamente no país. Dados do Atlas da

Violência 2016do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (IPEA) também confirmam o aumento do número de homicídios entre afrodescendentes, entre os quinze e vinte e nove

Benzer Belgeler