As diferentes formas de produção dos dados relacionados a essa pesquisa definiram os múltiplos aspectos daquela realidade que podem ser considerados de forma analítica. A realização de uma investigação pressupõe abertura, capacidade de estranhamento ao familiar e a possibilidade de olhar na direção definida, mas também em outras direções que se mostram possíveis. O que se pretende nessa parte do trabalho é dar visibilidade aos aspectos do cotidiano do Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo que se mostram fortes e com a possibilidade de produzirem outras concepções de trabalho pedagógico com crianças pequenas.
Um aspecto do cotidiano do NEIIA que se mostrou com força foi a consideração expressa da necessidade da criança brincar. A influência da produção italiana e dela advinda nas proposições de trabalho com as crianças se mostram nos cenários produzidos tanto interna quanto externamente ao espaço físico do Núcleo. Salienta-se, porém que essas influências ainda não são consensuais, visto que precisam ser estudadas, refletidas e incorporadas numa dimensão formativa, mesmo assim se demonstram tacitamente aceitas no cotidiano de forma discursiva e na indefinição do que seria afinal o foco do trabalho com as crianças.
Se no cotidiano essas influências têm se mostrado de forma menos sedimentada, em documentos produzidos pela Coordenação do Projeto do Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo as idéias parecem ter maior apropriação. Em um folder de divulgação a Proposição do NEIIA é:
(...) garantir no contexto da educação infantil espaços e tempos para a produção de culturas infantis no contexto escolar, através das diferentes linguagens, artes visuais, música, dança, expressão dramática, brincadeiras, teatro, jogos protagonizados, vivências lúdico-criativas, etc, consideradas elementos mediadores da atividade infantil na produção e reprodução de culturas da infância (2008).
As produções teóricas de que se fala têm um eixo comum que leva em conta a criança como um sujeito que produz cultura. Por conseguinte a brincadeira tem importância elevada nessa produção da criança. Ao educador cabe propor situações em que as crianças, entre elas possam interagir de diferentes formas no sentido de estabelecerem relações horizontalizadas. Esta perspectiva teórica defende uma cultura menos adultocêntrica e menos escolarizante, orientando para uma outra possibilidade de trabalho que, como processo, está em construção.
A consideração da brincadeira da criança como algo que tem importância no seu desenvolvimento é foco de muitas produções já desde a década de 1990 (BONAMIGO, 1991; FRIEDMANN, 1992; KISHIMOTO, 1996; WAJSKOP, 2001).
Na composição desse trabalho, a partir de algumas Cenas que se mostravam recorrentes em algumas salas pode-se afirmar que a brincadeira da criança além de se corporificar, tomava espaços no trabalho pedagógico o que dificultava identificar a intencionalidade dos educadores. A autonomia de utilização dos espaços e tempos “livres” pela criança – fora dos horários demarcados pela rotina - o brincar na sala, na pracinha, na brinquedoteca, no pátio gramado, foram percebidos como a hora da
criança brincar, o que não representa nenhuma contradição ao que pensamos ser
importante na educação das crianças. O interessante seria que todos esses momentos fossem reflexo de uma concepção de trabalho pedagógico em que a intencionalidade dos educadores se expressa na proposição, negociação, participação e principalmente na observação do brincar da criança.
Outra influência da produção italiana, mais especificamente da Abordagem de Reggio Emília que se pode dizer que foi incorporada ao cotidiano do Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo são os Ateliers Pedagógicos. Eles foram criados no ano de 2008, quando se tomou a iniciativa de extinguir as muitas aulas especializadas que fragmentavam o trabalho desenvolvido pelas professoras em sala. Assim, os Ateliers acontecem uma vez por semana e tem duração de 50 minutos e buscam “(...) romper com práticas pedagógicas rotinizadas e ao mesmo tempo propiciar às crianças metodologias de trabalho que potencializem ainda mais suas aprendizagens (...)” (PPP, 2009, p. 45).
De acordo com o folder explicativo: “Os ateliers são espaços pedagógicos estruturados a partir dos interesses das crianças em pesquisar, experienciar ou conhecer determinados assuntos ou curiosidades” (2008).
No PPP do NEIIA há a seguinte definição dos trabalhos:
Esse tipo de trabalho incentiva o desenvolvimento intelectual da criança por meio da representação simbólica sobre determinada experiência vivenciada por ela, ou seja, “as crianças são encorajadas a explorar seu ambiente e a expressar a si mesmas através de suas “linguagens” naturais ou modos de representação” (EDWARDS, 1995, p.21)56 (PPP, 2009, p. 45).
56 Referência a obra italiana de EDWARDS, Carolyn. As cem linguagens da criança: a abordagem
Considera-se que esta proposta dá um movimento diferenciado ao trabalho pedagógico, pois pede determinado tipo de organização em que as pessoas se agrupam por interesses, afinidades, possibilidades de diálogo que se mostram às vezes dificultadas pelas ações que têm como foco um trabalho individualizado e restrito à sala da aula. A avaliação dos Ateliers é bastante positiva, segundo consta no PPP:
De acordo com os relatos das crianças e professores os Ateliers possibilitam uma alteração positiva na rotina desenvolvida dentro do núcleo, pois mostra-se como mais uma ação que incentiva a autonomia das crianças para tomada de decisões, estimulando a interação entre crianças de diferentes idades e entre os professores (2009, p. 46).
Na Cena abaixo se demonstra esse que tem sido considerado um diferencial naquele espaço educativo.
Na sala com a turma do Maternal II, a Estagiária senta com as crianças para a escolha dos Ateliers que acontecerão naquela manhã. A escolha se dá pela explicação de cada uma das Propostas. Observo que algumas crianças vibram mais com algumas propostas, o que revela seu envolvimento nesse trabalho que acontece semanalmente. Sendo uma proposta diferenciada, nessa manhã tivemos o diferencial da visita de um grupo de professoras da Rede Municipal de Santa Maria para visitar o Núcleo e ver como acontecem os Ateliers. O grupo é tranqüilo e já conhece algumas propostas, mesmo que no dia seja feita outra atividade. Por exemplo: O Atelier de Culinária já é conhecido pelas crianças, mas se discute então o que será feito. Há um Atelier interessante que será feito pela Professora Referência da turma: Escrita dos homens das cavernas. Feita a escolha, as crianças então são encaminhadas para os locais em que os Ateliers serão realizados. A Estagiária acompanha as crianças que ficaram no Atelier que aconteceu na sua sala mesmo.
Os Ateliers nesse dia foram um micro-evento, um acontecimento que colocou algumas pessoas geralmente mais apáticas no cotidiano do Ipê em movimento.
Cena do dia 10/12/2009 – Turno da Manhã – Observação à Estagiária.
As propostas dos Ateliers Pedagógicos que acontecem no Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo têm sido constantemente realimentadas pelas pessoas que mais se envolvem com eles. Eles figuram hoje como possibilidade do encontro das pessoas, dos desejos individuais e coletivos, das crianças e educadores que se implicam na travessia do cotidiano para o não cotidiano. A proposta de acontecerem semanalmente faz com que ainda estejam mais calcados na excepcionalidade do que na possibilidade de fazer deles uma constante novidade. Talvez a proposição de planejar a cada semana, pensar em novas propostas, inserir as propostas nos projetos das turmas, gerar novos projetos faça render esse diferencial como potencialidade de fazer diferente a educação da criança no dia a dia. Abaixo está uma demonstração de um momento de Atelier
registrado com a turma do Berçário da
tarde.
Na perspectiva de se pensar outros cenários a partir das referências positivas encontradas no cotidiano da educação infantil daquele espaço educativo, somam-se
às já apontadas uma fala da Professora Referência do Berçário do turno da tarde quando se refere às atividades que desenvolve com as crianças.
É a questão que eu coloquei, é a preocupação com o cuidar, uma coisa que me assusta muito... até pela nomenclatura de creche, eu acho que fica muito delineado somente o cuidado. E eu não vejo a educação infantil nem em creche, nem em escolinha, nem em instituições públicas grandes como só cuidar. É educar e cuidar, então quando a gente vê que a rotina parece que prevalece, eu acho que está prevalecendo o cuidar. Porque tem a questão do horário da alimentação, tem que cuidar o horário da limpeza, ter que entregar essa criança limpinha, pronta, sem marca de nada. Eu acho que está prevalecendo muito o cuidar, e isso é uma coisa que eu tenho trabalhado com os pais desde a primeira reunião, eu disse a eles que por vários momentos eles iriam perceber marcas nas crianças do que elas tinham feito, porque ela ia voltar... Se ela tivesse tentado pela primeira vez comer sozinha com autonomia, ela iria voltar com feijão respingado na roupa e os pais iam poder enxergar isso, iriam ter que ter esse olhar de perceber que é uma aprendizagem, não é só um descuido da professora que deixou ali pingado de feijão. A gente deixa até propositadamente para que os pais consigam sentir o que a criança fez. Eu acho que se um pai recebe um filho no fim da tarde, limpinho, de cabelo limpo, de roupa limpa, ele não vai nem conseguir entender o que essa criança fez a tarde inteira. Eu acho que dá uma curiosidade e uma intranqüilidade, de tu pensar: “Bom ele deve ter ficado sentado uma tarde inteira para evitar que se sujasse.” E essa questão das atividades, pra mim é muito claro que a gente tem uma autonomia para planejar, que a gente consegue fazer a atividade como quer. Mas tem que ter um cuidado especial também com essa maneira que a gente entende a atividade. A atividade no berçário não é sentar e fazer um trabalhinho numa folha A4, mostrar uma pintura pra que vá na pastinha para os pais no final do ano. Uma atividade pode ser um momento que eles resolvem explorar o pátio, que eles resolvem e que eles demonstram vontade disso, que a gente se organiza para que eles possam fazer da melhor maneira, da maneira mais segura e mais curiosa possível. Eles vão querer descobrir que árvore tem aqui atrás, quantas árvores a gente tem, por quê que tem grama num certo espaço e no outro não tem grama,... Então se eles demonstrarem essa curiosidade a gente vai pensar atividades que permitam que eles façam esse tipo de coisa. Quando eles perceberam que tinha umas pinturas lá no muro de trás que estavam gastinhas, desbotadas, porque outras
crianças tinham feito. A gente percebeu que eles tinham vontade de fazer isso também, que eles tinham a necessidade de deixar a marca deles naquele muro também. Então, isso é uma atividade, eles foram para o muro, eles mexeram com tinta, eles se sujaram, sujaram cabelo, sujaram... E tiveram essa oportunidade de fazer o que eles tinham vontade de fazer. Tudo que eles demonstram a gente procura usar depois no planejamento para que eles tenham a oportunidade de desenvolver
atividades bem ricas na construção do
conhecimento.(Professora Referência do Berçário – turno da tarde)
Os aspectos trazidos na fala dessa educadora são bastante ricos para se pensar uma concepção de trabalho pedagógico na Educação Infantil. Desses aspectos, alguns foram grifados por entender que se relacionam às ações e pensamentos que estruturam o trabalho pedagógico com crianças pequenas. Na condução dessa investigação essas ações foram identificadas e também analisadas do ponto de vista da sua realização buscando ver como, no cotidiano, elas se sucedem.
Nesse sentido, o entendimento que se tem da(o): Função Social da Educação Infantil; Educação e Cuidado, Relação com as famílias baseada na complementaridade, Dimensão Curricular na Educação Infantil, relação entre Intencionalidade – Observação – Curiosidade - Conhecimento Pedagógico – Planejamento, podem configurar o que pensamos ser o trabalho pedagógico na Educação Infantil.
Esses aspectos não são exclusivos da educação da criança pequena, nem a Educação Infantil se reduz a eles. No entanto, são demonstrativos de que o entendimento tido sobre os mesmos, no caso dessa Professora Referência, delimita uma proposta individual qualificada de educar a criança e faz com que na materialidade do dia a dia as ações que compõem o trabalho pedagógico sejam realizadas de forma menos mecanizada e mais pensada do ponto de vista de uma
intencionalidade profissional – pedagogicamente referenciada. Essa Referência Positiva tem se mostrado nesses aspectos, mas para além da atuação com a
criança, pois tem sido marcante também a condução de reflexões e apontamentos sobre como se realizar e conceber as ações no cotidiano tendo em vista a formação dos Bolsistas e Estagiários.
Do que foi exposto e analisado até aqui, pode-se dizer que, apesar da rotina tensionar e por vezes condicionar o trabalho pedagógico na Educação Infantil, há olhares lançados para a infância que tem diferenciado a forma de realizar as ações cotidianas com a criança pequena. Uma rotina segmentada em ações em que, de um lado se cuida do corpo, e de outro – e quando se pode – se organizam práticas voltadas ao desenvolvimento e à aprendizagem da criança tem o poder de elaborar uma concepção de trabalho pedagógico marcadamente temporal. Ou seja, um trabalho pedagógico segmentado tanto espacial quanto temporalmente.
O trabalho pedagógico, embasado em concepções acerca da infância, de criança, da Educação Infantil e dos elementos característicos do trabalho com a criança pequena, gera as ações e os pensamentos com os quais se pode pensar por exemplo a organização de espaços e de tempos na educação da criança. A concepção de trabalho pedagógico, nesse caso, é o que gera as rotinas e consequentemente auxilia a pensar o como desempenhar ações que são próprias da experiência de estar na Educação Infantil.
Pensar uma concepção de trabalho pedagógico levando em conta a educação de crianças ainda muito pequenas requer um olhar diferenciado para a infância. Nesse sentido tem-se claro que um olhar naturalizado é produto e produtor de práticas cristalizadas com a criança. Precisamos propor outras formas de olhar para a criança nos diferentes momentos e nas diferentes ações que perfazem o cotidiano de educação de crianças pequenas. Na Educação Infantil, as ações relacionadas à higiene, alimentação e ao sono da criança são consideradas integradas a sua educação. O binômio educação e cuidado ainda é um ponto a ser discutido nos espaços educativos e nos processos formativos de pedagogos. Mostra-se relevante que essas discussões sejam iniciadas pelo que se entende por educação, para que se possa delimitar como essas ações, por vezes tão inferiorizadas, podem ser colocadas no patamar devido quando se trata de educar crianças que estão apreendendo o mundo pelo toque, pelo cheiro, pelo gosto.
Uma concepção de trabalho pedagógico precisa considerar que o que acontece nos diferentes momentos em que a criança está na creche, os espaços ocupados e os tempos experienciados são a materialização da intencionalidade do professor. Mesmo antes de chegar aos espaços educativos, há o pensar sobre, há a projeção de ações e movimentos a serem impressos no cotidiano. E esse pensar sobre está impregnado pela disposição a acolhida do outro, pelo olhar que espreita a
criança, deixando-a ser ela mesma, mas contribui com o que ela pode ser e viver na sua infância.
Nesse sentido o trabalho pedagógico é o processo pelo qual nos tornamos professores de crianças a cada dia, envolvidos com a infância e com o que ela representa como possibilidade de renovação do mundo. E é no cotidiano, nas relações possíveis de serem experienciadas por adultos e crianças nos espaços educativos que se mostram as diferentes forças com as quais se convive e que precisam ser olhadas de forma criteriosa para pensar a educação da criança.
No cotidiano das instituições de Educação Infantil estão inseridos os serviços profissionais de outras pessoas que se envolvem com ações diretamente relacionadas à educação da criança. Essas relações por vezes se mostram tensas e com a força de determinar intensidades no trabalho com a criança. É nesse sentido que se discutem essas relações e como elas se estruturam tendo em vista a caracterização da instituição como educativa e a faixa etária atendida: crianças