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De acordo com o Dicionário de Ciências Sociais (BIROU, 1976), o termo “responsabilidade” pode ser definido como a

Capacidade de ser responsável, quer dizer, de assumir inteiramente a decisão dos seus atos, sem referência à vontade de outra pessoa. (...) é, portanto, ao mesmo tempo o ato de assumir conscientemente a execução e as conseqüências de um ato e a obrigação moral que deriva do exercício de um cargo ou do cumprimento de uma missão (BIROU, 1976, p. 360).

Responsabilidade [social] daquele que é chamado a responder pelos seus atos face à sociedade ou à opinião pública (...) na medida em que tais atos assumam dimensões ou conseqüências sociais (Ibidem, p. 361).

Nesse sentido, a palavra responsabilidade remete às conseqüências de um ato e à obrigação de responder publicamente. Este termo também se relaciona à conduta moral e à ética. Conforme Weber (1967), seguindo a ética da responsabilidade, o ator social contabiliza as conseqüências de sua ação antes de praticá-la. A ética, segundo o autor, é uma expressão do processo inexorável de racionalização da vida. Este processo de racionalização se desenvolve no sentido de atenuar as tensões entre as esferas mundanas, tal como a tensão entre o econômico e o social.

O conceito de responsabilidade social varia de acordo com a compreensão do papel da empresa na sociedade. Existem diversas definições e tipologias da RSE na literatura acadêmica.

De acordo com os cientistas políticos Zairo Cheibub e Richard Locke (2002), há quatro “modelos ideais” das diferentes formas de manifestação da RSE. A primeira diferença entre os modelos é em relação aos agentes beneficiados pelas ações: os donos ou acionistas da empresa (stockholders) ou grupos que se estendem além dos donos e funcionários, como a comunidade próxima da empresa (stakeholders). A segunda diz respeito aos motivos das ações sociais, que podem ser de ordem moral ou valorativa, cujo objetivo vai além dos interesses diretamente ligados aos da empresa (filantropia ou idealismo ético), ou por razões instrumentais que sejam do interesse imediato das empresas.

Sendo assim, quando a motivação da ação é instrumental e visa benefícios exclusivamente para os empresários, este modelo corresponde ao produtivismo e quando o

público beneficiado engloba também a comunidade, a ação é chamada de progressista. O produtivismo corresponde à visão liberal clássica da empresa e de seu papel na sociedade, consistindo na maximização dos objetivos produtivos dentro da lei. Já a concepção progressista defende ser do interesse da empresa promover ações sociais diversas, pois estas servem como instrumento gerencial e trazem benefícios para imagem da empresa no mercado competitivo. Esta é a visão mais divulgada atualmente pelos institutos de responsabilidade social e pela mídia, que passa a fazer parte da gestão das empresas como uma estratégia de ação e competitividade, além da questão do compromisso com os stakeholders.

As definições descritas podem ser resumidas de acordo com o quadro a seguir:

Modelos de RSE

Alvo da ação Motivação da Ação

Instrumental Moral

Acionistas / donos Produtivismo Filantropia Stakeholders Progressista Idealismo ético

Fonte: Cheibub e Locke (2002, p. 281).

Puppim de Oliveira (2008) considera a RSE como uma postura empresarial socialmente responsável em todos as sua relações com a sociedade e não apenas promovendo ações sociais pontuais caracterizadas como filantrópicas. A ação social empresarial pode ser introduzida de maneira coordenada e planejada, denominada investimento social privado. Entretanto, por mais que uma empresa invista em projetos de cunho social não necessariamente relacionados com suas atividades fins, se ela não cumprir a legislação ou não tiver uma postura ética, por exemplo, esta empresa não é socialmente responsável. De acordo com o autor, a “ética de uma empresa seria os princípios usados em sua estrutura de tomada de decisão e ação, que inclui gestores e normas sociais e corporativas” (OLIVEIRA, 2008, p. 78).

Nesse sentido, a gestão ética e responsável seria aquela que leva em consideração os grupos de interesse que impactam e são impactados pela empresa, isto é, os “grupos de interesse com certa legitimidade que exercem influência junto às empresas”, denominados stakeholders (OLIVEIRA, 2008, p. 94).

O conceito de stakeholder é mais compatível com os valores democráticos, sendo o processo de decisão mais aberto a interferências e à participação de grupos de interesse, sejam eles internos ou externos. Isso obriga a um gerenciamento mais participativo, seja com a presença dos empregados ou mesmo da comunidade na qual a empresa possa estar inserida. Cabe ainda destacar que os gestores têm

procurado manter uma estreita aproximação com as comunidades nas quais suas indústrias estão inseridas, desenvolvendo, implementando ou apoiando projetos. A visão de stakeholder amplia as possibilidades da empresa incluindo grupos sobre os quais o empreendimento interfere, tornando a empresa responsável por estes. Não no sentido paternalista, mas do ponto de vista de que à empresa cabem responsabilidades que irão afetar o cotidiano dessas pessoas. Cabe a esses grupos observar e acompanhar questões relativas ao uso dos recursos corporativos, que podem ser financeiros, ambientais, políticos ou sociais, entre outros. Isso faz com que as empresas passem a ser vistas como instituições de múltiplos objetivos. (OLIVEIRA, 2008, p. 95).

O conceito de responsabilidade social mais aceito e divulgado hoje no meio empresarial brasileiro é definido como

a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais (INSTITUTO ETHOS).15

Esta concepção é amplamente divulgada pelo Instituto Ethos, que é a organização de referencia nacional neste assunto e parceira da maioria das organizações que promovem a RSE, inclusive da FIEMG. Em seu Glossário de Cidadania (2006), a FIEMG utiliza esta mesma definição para RSE. Portanto, será considerada esta concepção de responsabilidade social empresarial na pesquisa.

O conceito de RSE se relaciona também a outras expressões de uso corrente na literatura especializada, tais como “cidadania empresarial”, “ética empresarial” e “voluntariado empresarial”. De acordo com o glossário da FIEMG, a cidadania empresarial compõe

a expressão da responsabilidade social de uma empresa em sua relação com a comunidade que está inserida. Traduz-se, na prática, no apoio ou desenvolvimento de ações em benefício da sociedade e não apenas de seus funcionários e familiares. Em resumo, as ações de cidadania empresarial são as iniciativas promovidas por empresas privadas com o objetivo de apoiar a melhoria da educação, saúde, direitos humanos ou as demais áreas sociais (FIEMG, 2006, pp. 10 e 11).

A ética reúne os princípios motivadores das ações que são moralmente aceitos pela sociedade. O conceito de ética empresarial definido pela publicação da FIEMG está ligado aos valores morais que justificam as escolhas das ações:

Em sua essência, é a determinação das pessoas que integram uma organização, de agir sempre em conformidade com os valores da honestidade, verdade e justiça em todas as atividades nas quais representem essas entidades jurídicas: nas compras, nas vendas, nos empréstimos, nas relações com os empregados, com a concorrência, com o governo, com a comunidade e em quaisquer outras (FIEMG, 2006, p. 16).

Já o voluntariado empresarial se refere ao “conjunto de ações relacionadas por empresas para incentivar e apoiar o envolvimento dos seus funcionários em atividades voluntárias na comunidade” (FIEMG, 2006, p. 44).

Segundo Corullón e Medeiros Filho (2002), o movimento do voluntariado empresarial está diretamente ligado à questão da RSE. O voluntariado reflete a responsabilidade social interna da empresa, na medida em que os seus empregados abraçam a causa. Além disso, o incentivo à postura socialmente responsável entre os funcionários previne que estes possam eventualmente “pôr a perder toda uma política pacientemente construída” (Op. cit., p. 42).

O certo é que não existe responsabilidade social sem a participação do público interno. São os funcionários que vão expressar na prática as atitudes da empresa, sejam elas responsáveis ou não. E, em última instância, isso independe da posição hierárquica que ocupem (CORULLÓN e MEDEIROS FILHO, 2002, pp. 42 e 43).

No próximo capítulo, abordaremos o contexto da emergência da RSE enquanto um fenômeno de alcance local e mundial. Para tanto, faremos uma reconstrução histórica por meio da análise dos principais eventos que colaboraram para a propagação deste fenômeno.

Benzer Belgeler