Logo após a quebra do Lehman Brothers o Fed pôs em prática uma agressiva política de expansão dos meios de pagamentos como forma de elevar a liquidez do sistema financeiro e reduzir as taxas de juros de longo prazo da economia. Desde então, o Fed adotou a política de afrouxamento monetário conhecido como “quantitative easing”, passando a injetar mensalmente cerca de US$ 85 bilhões na economia através da compra de ativos de outros bancos como forma de evitar um colapso maior no seu sistema financeiro. Além de ter provocado um forte aumento da liquidez internacional, a expansão de sua base monetária também promoveu uma forte valorização das moedas e ativos dos países emergentes.
No evento que ocorreu em 2012 nos Estados Unidos, na cidade de Jackson Hole, Wyoming, a atual Diretora-Gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, então secretária das finanças da França na época, relatou que a partir de 2008 o fluxo de capitais para os países em desenvolvimento atingiram US$ 1,1 trilhão, valor bem acima dos US$ 470 bilhões que eram previstos para o período. (LAMUCCI, 2013)
A estratégia por trás do “quantitative easing”, segundo Delfim (2010), consiste em reduzir ao máximo o nível de emprego e a estabilidade de preços nos Estados Unidos. Contudo, nem a política monetária e nem a fiscal obtiveram os resultados esperados. Do ponto de vista monetário, ocorreu o problema conhecido como “a armadilha da liquidez”. O
autor explica que em 2010 as empresas não financeiras detinham cerca de US$ 3 trilhões em caixa e só investiam em tecnologias poupadoras de mão de obra, ao passo que o sistema bancário possuía US$ 1 trilhão em reservas a serem emprestados, porém, ninguém as solicitava.
Delfim (2010) pontua que o excedente de liquidez passou então a ser canalizados para a especulação financeira em busca de qualquer rentabilidade positiva. No caso brasileiro, o enorme diferencial entre a taxa de juro brasileira e a estadunidense contribuiu para atrair capital especulativo para economia, tornando-se um dos principais elementos responsáveis pela valorização do Real.
Entretanto, a política de expansão da base monetária não é uma exclusividade apenas do Fed. No final de 2013, o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe formulou um gigantesco plano de reformas econômicas com objetivo de produzir uma mudança radical no panorama econômico do país. O programa conhecido como “Abenomics”, inclui entre suas estratégias expandir a base monetária de 60 trilhões a 70 trilhões de Iene por ano do Japão2 até 2015 para acabar com a deflação e elevar o nível de preços em 2% ao ano. A taxa de câmbio japonesa se desvalorizou entre 30% e 40% em relação ao dólar e ao euro, o que fez aumentar os lucros de grandes grupos exportadores3.
O aumento da liquidez internacional promovida principalmente pela expansão da base monetária estadunidense provocou uma verdadeira confusão nas taxas de câmbio em todo o mundo, com o dólar se desvalorizando frente às moedas dos países em desenvolvimento. Durante a conferência do G-20, em 11 de novembro de 2010 em Seul, Coréia do Sul, o Ministro da Fazenda Guido Mantega foi criticado por ter cunhado o termo “guerra cambial” para tratar a divergência entre as taxas de câmbio. Segundo o ministro havia uma clara tendência dos países desenvolvidos em desvalorizar suas moedas como forma de se proteger dos efeitos da crise financeira e tornar suas exportações mais competitivas.
Se fizermos uma rápida regressão pela história econômica veremos que os meios adotados atualmente pelos países desenvolvidos não diferem muito dos mesmos métodos que se valeram após a crise de 1929 e que a reunião do G-20 guarda muitas semelhanças com a Conferência Econômica e Monetária, que reuniu em junho de 1933 em Londres delegações de diversos países com o propósito de se tratar de assuntos referentes à instabilidade das moedas, tarifas protecionistas e o “dumping” de mercadorias em excessos (GALBRAITH, 1983)
2 Valor econômico. (http://www.valor.com.br/financas/3532190/japao-mantem-expansao-da-base-monetaria-em-
60-70-tri-de-ienes-ao-ano)
Galbraith (1983) explica que aquela fatídica ocasião, o abandono do padrão-ouro por vários países, com destaque especial para a Grã-Bretanha, promoveu uma dramática confusão entre as taxas de câmbio. Os países que ainda mantinham a paridade fixa em relação ao ouro tentavam persuadir de várias formas os que haviam abandonado o padrão-ouro a voltarem ao sistema. O problema que esses países encontravam para retornar ao antigo sistema decorria do fato de que; caso estabilizassem suas moedas as políticas de estímulos às atividades econômicas teriam que ser abandonadas e a recuperação econômica seria mais lenta pelo fato dos preços de várias mercadorias se encontrarem em um nível mais elevado do que em outros mercados. Ainda tem o fato de que a desvalorização da taxa de câmbio é uma das maneiras mais rápidas de aumentar a competitividade das exportações no mercado externo. No caso da Inglaterra, a desvalorização da libra esterlina permitiu reduzir as importações e a fuga do metal. A redução da taxa de juro por meio da ampliação do meio circulante além de ter contribuído para amenizar a deflação dos preços internos, evitou uma retração maior no nível da atividade econômica. O fracasso da conferência veio junto com a mensagem do presidente Roosevelt de que não iria sacrificar o poder de compra do dólar em prol de um experimento temporário e de que antes de haver estabilização das moedas as nações deveriam primeiramente tratar de organizar suas economias. Seis anos depois, em 1939, Hitler invadiu a Polônia dando início a Segunda Guerra Mundial e transformando profundamente a humanidade a partir daquela data.
Em julho de 1944, as principais nações vencedoras se reuniram em Bretton Woods com o objetivo de reestabelecer a ordem na economia mundial. De acordo com Eichengreen (2012), após a Segunda Guerra Mundial o sistema monetário internacional foi reconstruído sob os auspícios dos acordos assinados em Bretton Woods, que tinha como objetivo proporcionar certo grau de estabilidade nas taxas de câmbio, uma qualidade presente no sistema padrão-ouro, e evitar a intensificação da volatilidade de capitais verificada nos períodos precedentes a guerra. O autor ressalta que os acordos contribuíram para o rápido crescimento econômico dos países no pós-guerra, porém, a ilusão de que Bretton Woods harmonizaria as taxas de câmbio não durou muito tempo e já no início de 1970 o sistema entrou em colapso com o fim da conversibilidade do dólar em ouro e desde então as moedas passaram a flutuar.
Em 22 de maio de 2013 o ex-presidente do Fed Ben Bernanke foi a público anunciar a desaceleração da política de afrouxamento monetário. O anúncio desencadeou um movimento de “fuga para o dólar” e liquidação de posições em moedas e ativos dos emergentes. Delfim (2013) relata que a instabilidade dos mercados dos países emergentes
provocada pela expectativa da suspensão do “quantitative easing” e, consequentemente, a desvalorização da moeda dos emergentes, sobretudo o Real, que dentre as moedas foi a que mais se desvalorizou, foi apenas um exemplo de que o Ministro Guido Mantega estava correto em sua análise e que os Estados Unidos de fato promoviam uma espécie de “guerra cambial” com a finalidade de desvalorizar o dólar.
De acordo com a carta do (IEDI, Nº611, 2014), em janeiro de 2014 o Fed deu início ao chamado “tapering”, termo utilizado para mencionar a desmontagem do “quantitative easing”. O banco central norte-americano começou o processo de reversão de forma lenta e gradual, com uma redução mensal de US$ 10 bilhões na compra de ativos, passando de US$ 85 bilhões para US$ 75 bilhões. A carta também menciona que um estudo produzido pelo banco Morgan Stanley, denominou o Brasil, Turquia, África do Sul, Índia e Indonésia, apontou esses países como os mais vulneráveis diante do início do tapering, outorgando-lhes a alcunha de “os cinco vulneráveis”. As causas pelo aumento da fragilidade desses países, de acordo com o estudo, decorrem dos elevados déficits em transações correntes, altas taxas de inflação e desaceleração do crescimento (IEDI, 2014).
O IEDI (2014) esclarece, e também expomos nas páginas acima, que nos últimos anos houve uma trajetória ascendente do déficit em transações correntes (DTC) no Balanço de Pagamentos do Brasil, que atingiu seu recorde histórico em 2012 de US$ 81,4 bilhões. Também, pela primeira vez desde 2008 o DTC não foi financiado pelo ingresso de investimento estrangeiro direto e desde 2000, as contas externas não fechavam com um déficit (US$ 6 bilhões), compensado graças a venda de reservas internacionais. A carta do (IEDI, Nº 611, 2014c) esclarece que no caso de economias produtoras de commodities, o aumento das quantidades exportadas poderá ser atenuado pela queda dos preços desses produtos, devido a composição do crescimento chinês, menos intensivo em investimento. Contudo, a carta pontua o efeito das finança internacionais, da demanda externa e preço das commodities poderá ter impactos diferenciados em cada país, o grau de vulnerabilidade dependerá mais de um conjunto de fatores do que alguns específicos (IEDI, 2014).
De acordo com a carta do (IEDI, 586, 2013), no caso brasileiro, a resposta do Banco Central como forma de atenuar a reversão dos fluxos de capitais e reduzir o grau de vulnerabilidade da economia brasileira consistiu em começar uma nova fase de alta da Selic, que foi elevada de 7,25 em abril - patamar vigente desde outubro de 2012 - para 8,5 em junho de 2013. Na área fiscal, o Ministério da Fazenda eliminou o IOF sobre investimentos estrangeiros e aumentou o prazo mínimo de pagamento antecipado das exportações. O IEDI 2013b ressalta que o Brasil foi o único que seguiu o caminho oposto de várias economias
emergentes como o México, Coréia do Sul e Turquia, que reduziram seus respectivos juros básicos no segundo trimestre de 2013. Também foi o primeiro a tomar medidas com o objetivo de reduzir a exposição ao risco em caso de instabilidade no cenário externo.
Em recente artigo publicado pelo economista Delfim Netto no Jornal Valor Econômico, para Delfim (2014) existe um exagero por diversos analistas e economias em relação à vulnerabilidade externa da economia brasileira. A ideia dos “cinco vulneráveis”, que colocam diversos países em um mesmo grupo, cada um com características econômicas bem heterogêneas, sobretudo, o Brasil, demonstra o qual absurdo é classifica-los em um mesmo grupo. Delfim (2014) pontua que a economia brasileira embora tenha presenciado certa deterioração das contas externas nos últimos anos, a vulnerabilidade externa brasileira é muito pequena quando comparada com a dos demais países. Os problemas apontados pelo autor seriam como compatibilizar um superávit primário de 2% do PIB sem prejudicar os investimentos públicos, que são vitais para estimular os investimentos privados e o crescimento do país.
A partir do que foi exposto pode-se inferir que o principal fator responsável pela melhora significativa dos indicadores de vulnerabilidade externa da economia brasileira decorreu, basicamente, da incrível melhora da balança comercial, propiciada graças ao expressivo aumento das exportações de commodities nos últimos anos e da melhora do cenário externo.
A crise de 2008 e todos os demais fatores daí em tiveram reflexos profundos sobre as contas externas do Brasil; seja pelo aumento do déficit em transações correntes ou pelo aumento do fluxo de capitais em busca de maior rentabilidade. No entanto, o que salta aos olhos é que mesmo a crise financeira de 2008 tenha sido a maior desde a crise de 1929, a economia brasileira pôde passar pela turbulência global sem maiores danos.
Embora alguns economistas e analistas financeiros tentem passar a ideia de que as nossas contas externas se encontrem em um estado alarmante, tem-se de ter cautela com esse tipo de discurso. É óbvio que as contas externas se deterioram bastante nos últimos anos, porém, como salientou Delfim (2014), a certo exagero nesse discurso. Existe a possibilidade de melhorá-las através de um conjunto de ajustes. O problema talvez, e também o mais importante, será saber como fazer ajustes em um cenário que apresenta interesses bem definidos e consolidados.
O que foi exposto nas páginas acima representa apenas um panorama geral dos principais acontecimentos da economia brasileira nesse último decênio, em particular, sob a ótica da vulnerabilidade externa. Essa área ainda carece de mais estudos que possam ao
menos iluminar os caminhos que a economia brasileira deverá seguir nos próximos anos e que possa levar meios de reduzir à exposição da economia brasileira a turbulências ocasionas nos mercados globais.
Nas páginas que se seguem faremos uma analise da balança comercial brasileiras nos últimos anos e também os fatores que contribuíram para que tivéssemos um crescimento um pouco acima da média dos últimos vinte anos.
4. O COMÉRCIO EXTERNO E A PRIMARIZAÇÃO DA PAUT EXPORTADORA