RESUMO S U M M A R Y
PESQUISADORA E PROFESSORA DO CPDOC/FGV
90 CENTRO CUL TURAL BANC O DO BRA SIL, RIO DE J ANEIRO - R J CULTURA, CULTURAS
Como tratar de um tema tão amplo e múltiplo como cultura? Cultura não é fato pronto, que existe na realidade, é uma noção historicamente construída e que varia ao longo do tempo. Cultura já foi entendida como todos os bens criados pelo ser humano. Ainda que tal acepção continue sendo aceita, nos dias de hoje ela é mais entendida como atribuição de significados. Ou seja, falar de cultura é falar de valores.
Cultura é conceito-chave da antropologia, a disciplina que se dedica a explicar as diferenças entre as sociedades humanas. Teorias evolucionistas e difusionistas ofereceram matrizes para a explicação dos costumes de diversos grupos sociais e o método etnográfico, considerado central nessa disciplina, pavimentou o caminho para os estudos dos comportamentos, das crenças e dos rituais, além de permitir uma compreensão mais ampla sobre os significados da cultura em cada povo. Hoje a cultura ocupa um lugar de destaque, porque é cada vez maior a compreensão de que os bens culturais são aqueles objetos ou comportamentos portadores de significado. Afinal, já sabemos que todas as atividades envolvem valores e significação. Por isso, a cultura deve ser encarada como uma dimensão da vida social que envolve manifestações
musicais, artísticas, literárias ou cinematográficas, por exemplo, além de englobar seus produtores, consumidores, instituições e políticas.
Falar de cultura é falar de tradição, de um passado que foi selecionado e considerado merecedor de ser lembrado. Essa herança cultural, inventada ou real, oferece um sentimento de pertencimento que integra os indivíduos em um todo. O campo da cultura é um campo de lutas, de disputas simbólicas e práticas que marcam a história da humanidade. Uma das figuras centrais desse processo é o intelectual, que, por meio da palavra e da imagem, exerce um tipo particular de poder, já que é produtor e transmissor de ideias, símbolos, visões de mundo e ensinamentos práticos.
Da construção dessas identidades, sejam elas nacionais, locais, étnicas, profissionais ou religiosas, fazem parte diversas instâncias como família, escolas, igrejas, mídias e internet. Falando do “eu”, fala-se simultaneamente de alteridade, do “outro”. Aliás, há cada vez mais espaço para a pluralidade no mundo globalizado.
Acompanhar o chamado patrimônio histórico, um conjunto de bens cuja função é representar
No caso do Brasil, podemos mencionar duas importantes políticas voltadas à valorização de um passado. A primeira tem a ver com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) – pela Lei 378, de janeiro de 1937 –, primeiro órgão federal voltado para inventariar, tombar, cuidar e restaurar bens selecionados como autênticos representantes da história nacional. Por meio de uma legislação, ficou demonstrada a fragilidade da tradição e a necessidade de proteger tais riquezas do abandono. Mas, na política implementada pelo Sphan, nos denominados “tempos heroicos”, predominou uma perspectiva estética – o barroco; um tempo – o colonial; e um lugar – Minas Gerais.
Já a segunda política teve início com a Constituição de 1988. Seus artigos 15 e 16 podem ser considerados a certidão de nascimento de uma nova face do patrimônio. A partir desse momento, passou-se a se proteger não apenas os bens físicos, mas também os saberes, as festas e os rituais, os chamados “bens imateriais”. Manifestações de diferentes grupos sociais e seus modos de vida começaram a ser valorizados. Daí o surgimento de novas estratégias de proteção – inventário, registro e plano de salvaguarda – baseadas na importância da referência cultural.
Mas, no que se refere à valorização do passado, poucas políticas públicas superam em “idade” os museus, uma das mais antigas instituições culturais e patrimoniais do mundo. Como eles colecionam, classificam e preservam objetos, lidam constantemente com o esquecimento e a lembrança. Nos museus, constrói-se uma narrativa de autenticidade, selecionando o que não deve ser esquecido. Assim, falar de museu é falar não apenas de memória, mas de poder.
Por isso, é bastante relevante notar que, naquele espaço aberto pela globalização, têm surgido cada vez mais museus, guardando e exibindo
A importância de todas essas transformações no papel e no conteúdo da cultura é tamanha que até o campo das políticas culturais se tornou uma área de estudo essencial. Levantamentos como o que está sendo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nos municípios brasileiros, e outras pesquisas sobre a “Economia da Cultura”, indagam a quantidade de recursos financeiros que a cultura movimenta e como isso é feito. O segmento torna-se mais e mais corpulento e forte.
Encontra-se também em alta o treinamento para fazer a “ideia” se tornar um bem cultural, como um livro, show, disco, peça teatral, filme, exposição, festival, acervo, centro cultural ou roteiro turístico. Aqui estamos em um espaço de produção, divulgação e recepção desses bens que tanto o produtor quanto o empreendedor ou gerente devem conhecer, identificar e atuar.
A atual abrangência da cultura fez com que as políticas culturais passassem a fazer parte – e com destaque – do cardápio das políticas públicas governamentais. Produtores, agentes, gestores e artistas também vêm buscando participar e interferir nesses processos de decisão. Atualmente, Estado, empresas e o chamado Terceiro Setor estão atuando fortemente no campo da cultura.
Hoje, a tal cultura da identidade nacional perdeu um pouco da sua força em benefício do processo de identificação de grupos e subgrupos locais e/ ou transnacionais. Em um mundo globalizado, que valoriza cada particularidade cultural, o local voltou a se sobressair. Globalismo e localismo podem, assim, ser entendidos como as duas faces de uma mesma moeda. Talvez o conceito de “glocal”, exatamente por juntar esses dois desafios simultâneos, possa oferecer melhores indicações para aguçar nossa percepção dos valores que estão em curso no mundo em que vivemos.
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