De acordo com Chaves (2006), foi a partir da década de 1950 que os valores humanos ganharam maior expressão com a introdução de técnicas refinadas de medição das atitudes, ressaltando-se, uma década depois, as contribuições de Rokeach. Este autor
valores humanos (Gouveia, Andrade, Milfont, Queiroga & Santos, 2003), podendo mesmo ser considerado o pai do tema como tem sido tratados nos últimos 50 anos na Psicologia Social.
A obra principal deste autor, The nature of human values (Rokeach, 1973), é com certeza referência obrigatória quando se trata de valores humanos. Lendo-a é possível concluir que, embora não tenha feito tudo, este autor semeou a base dos elementos principais que fundamentam as teorias dos valores, como as questões de medição, conteúdo e estrutura. Com relação à sua obra, Gouveia e cols. (2011) não pouparam reconhecimento, indicando que mais da metade do conhecimento sobre o tema dos valores humanos se deve às suas contribuições ou pode ser derivadas dela.
Rokeach (1981), na década de 1960, foi quem pela primeira vez procedeu à mensuração específica dos valores, propondo então diversas versões do seu Rokeach Value Survey (Ros, 2006). Entretanto, somente quase duas décadas depois, nos anos 1980, observa-se no Brasil uma tentativa explícita de adaptá-lo (Günther, 1981). O modelo ou arcabouço teórico desse autor parte de cinco pressupostos básicos:
1. O número de valores que uma pessoa possui é relativamente pequeno; 2. Todos os homens possuem os mesmos valores em graus diferentes,
independente da cultura na qual estejam inseridos; 3. Os valores são organizados em sistemas de valores;
4. Os antecedentes dos valores humanos podem ser encontrados em cultura, sociedade, instituições e personalidade de cada indivíduo; e
5. Os valores são manifestados (virtualmente) em todos os fenômenos que os cientistas sociais possam considerar como importantes de serem pesquisados. Rokeach (1973) conceituou os valores como uma ―crença duradoura de que um modo específico de comportamento ou estado final de existência é pessoal ou
socialmente preferível a um modo de comportamento ou estado final de existência oposto ou inverso‖ (p. 5). Neste sentido, os valores podem ser compreendidos como crenças prescritivas – proscritivas que permitem aos indivíduos julgarem objetos ou ações como desejáveis ou indesejáveis, recomendáveis ou reprováveis. Conforme entendia este autor, uma vez que um valor fosse internalizado, ele se tornaria, consciente ou inconscientemente, um padrão ou critério para guiar a ação (Rokeach, 1981).
Rokeach (1973, 1979, 1981) ressalta as diferenças entre atitudes e valores. Segundo concebia, enquanto que o primeiro construto representaria diversas crenças focalizadas em um objeto ou situação específica, um valor seria uma única crença que guiaria o comportamento e independeria de objetos e situações específicos. Além disto, ressalta que o valor, ao contrário das atitudes, não somente refletia uma crença do preferível, mas também uma preferência pelo preferível. Neste modelo os valores humanos são pensados como um número pequeno de cognições presentes em toda sociedade sobre estados finais de existência desejáveis (valores terminais) e modos desejáveis de se comportar (valores instrumentais), organizados em termos de diferenças de prioridades.
Rokeach (1973) teorizou um sistema de valores definido como uma organização hierárquica – em termos ordinais – quanto à importância dos valores. A hierarquia ou a importância relativa dos valores tem sido empregada como base para examinar como as pessoas usam os valores com o fim de entender e agir no mundo (Bain, Kashima & Haslan, 2006). Partindo de autores dos anos 1950, como Kluckhohn (1951), Rokeach (1973, 1981) procurou estruturar os valores em dois tipos principais: terminais (o próprio desejável) e instrumentais (os comportamentos), cada um com um conteúdo ou conjunto de valores próprios. Deste modo, admitia representar os valores em duas listas
separadas, cada uma com 18 valores específicos, abarcando os tipos antes indicados, como se descrevem a seguir:
Valores terminais. Tais valores, segundo seu modelo, representariam estados finais de existência, a exemplo de igualdade, vida confortável e felicidade. Eles são classificados como autocentrados (apresentam um foco pessoal) ou centrados na sociedade (têm um foco interpessoal).
Valores instrumentais. Estes representam condutas que são consideradas preferíveis, a exemplo de ambicioso, honesto e responsável. Conforme sua proposta, tais valores podem ser subdivididos em morais [reportam o modo como se comportar; quando são violados, estes valores geram sentimento de culpa (intrapessoal)] e de competência [conduzem a um estado (pessoal) de competência, de que se está agindo de forma adequada].
Na tentativa de facilitar o entendimento desta teoria, indicando como os valores se estruturam, apresenta-se a Tabela 3 a seguir. Lembrando, neste modelo os valores se integram em conjuntos, denominados de sistemas de valores, organizando-se de forma hierárquica, de modo que cada valor é elencado em razão de sua importância em comparação com os demais valores dentro de cada tipo (instrumental e terminal). Esta organização dos valores pode sofrer mudanças (reordenações) durante a vida dos indivíduos, as quais comumente se dão, segundo Gouveia (1998), em consequência de vivências em contextos culturais, sociais e pessoais, mas também como fruto de manipulações e/ou aprendizagem (Rokeach, 1973, 1979).
Tabela 3. Tipos de valores instrumentais e terminais proposto por Rokeach (1973). Tipos de Valores
Terminais Estados finais de existência
Instrumentais Modos de comportamento Pessoais
Centrados na própria pessoa, foco intrapessoal
Exemplos: salvação, harmonia interior
De competência
Sua transgressão provoca vergonha, foco intrapessoal
Exemplos: lógico, inteligente Sociais
Centrados na sociedade, foco interpessoal Exemplos: um mundo de paz, amizade verdadeira
Morais
Sua transgressão provoca culpa, foco interpessoal
Exemplos: honesto, responsável
O leitor certamente encontrará alguma correspondência destas listas de valores, isto é, terminais e instrumentais, com o instrumento original de Schwartz (1992), denominado Schwartz Value Survey. Porém, Rokeach (1973) também instigou outros pesquisadores a considerarem aspectos pouco discutidos sobre os valores, a exemplo de suas funções (Allen, Ng & Wilson, 2002; Gouveia, 2003). Entretanto, influenciado pelo contexto dos estudos sobre as funções das atitudes, ele concebeu as funções dos valores de modo muito abrangente, sugerindo cinco tipos:
Ego-defensiva. Indica que os sentimentos ou as ações pouco aceitos, seja no plano pessoal ou social, podem se modificar por meio de processos de racionalização e formação defensiva, em algo mais aceitável, de maneira que socialmente representem conceitos culturalmente justificáveis.
Conhecimento ou autorrealização. Sugere que os valores fomentam a busca de significado e compreensão, o que implica na busca incessante de conhecimento de si e
Critérios de orientação. Com o fim de se posicionar diante de problemas, tarefas como avaliar, julgar, emitir elogios a si ou a outras pessoas, comparar, persuadir, influenciar, racionalizar crenças, atitudes e comportamentos que de outro modo seriam pessoal ou socialmente condenados moralmente e necessários à manutenção da autoestima. De certo modo, Gouveia (2003) tem em conta os critérios de orientação, mas dá uma direção diferente a deste autor, enfocando tipos específicos de orientação (pessoal, central e social).
Motivacional. Indica-se com esta função que os valores guiam as ações humanas no cotidiano, expressando suas necessidades básicas. Portanto, claramente algo que já vinha desde a tradição de Parsons (1951), culminando no trabalho de autores como Inglehart (1977).
Adaptativa. Indica-se que alguns valores dão ênfase a modos de conduta ou estados finais que são de orientação adaptativa ou dirigidos para a utilidade. Embora não seja muito claro ao descrever esta função, é possível que se tratem de valores materialistas, sobretudo os normativos, na perspectiva de Gouveia (2003).
Parece evidente, pois, que Rokeach contribui decisivamente para o avanço dos estudos sobre os valores. Suas contribuições principais podem ser resumidas nos seguintes termos: (1) sintetizou conceitos e reuniu ideias de perspectivas e conhecimentos de áreas diversas, como Antropologia, Sociologia e Psicologia; (2) providenciou a distinção de valores e outros construtos com os quais costumam ser relacionados, a exemplo de atitudes e traços de personalidade; (3) apresentou uma definição especifica para os valores humanos e os sistemas de valores; (4) apresentou um instrumento especifico para mensurá-los; e (5) destacou a centralidade dos valores no sistema cognitivo das pessoas, reunindo dados sobre seus antecedentes e consequentes.
Gouveia e cols. (2011) também destacam algumas contribuições deste autor: (1) propôs uma classificação para os valores instrumentais e terminais, assim como seus respectivos subtipos; (2) desenvolveu o método de autoconfrontação no contexto de mudanças de valores; e, por ultimo, (3) propôs uma tipologia de ideologia política a partir da combinação de pontuações nos valores de igualdade e liberdade. Entretanto, Rokeach não ficou imune a críticas. Alguns autores apontaram problemas no seu modelo, como seguem (Gouveia, Martínez, Meira & Milfont, 2001): (a) sua medida era de natureza ipsativa (sugere dependência entre as pontuações de um mesmo sujeito); (b) a estrutura dos valores, embora claramente delimitada, não foi formalmente testada com dados empíricos; e (c) a restrição das amostras de seus estudos, os quais foram realizados, principalmente, com estudantes universitários estadunidenses. Este talvez tenha sido seu maior problema, isolando-se academicamente, sem preocupação em difundir e divulgar seu modelo, aspectos que foram atentamente considerados por Schwartz (1992), quem tratou de montar um grupo extenso de pesquisadores espalhados pelos cinco continentes, procurando mostrar a universidade de seu modelo.