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O Estado brasileiro é considerado constitucionalmente laico, conforme o artigo 5°, inciso VI e artigo 19, inciso I da Constituição Federal. O primeiro diz ser “inviolável a liberdade de consciências e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantidas, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”. Já o segundo elucida ser vedado aos entes federativos “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”.

Fica clara, portanto, a tentativa de distanciamento do Estado em relação a qualquer linha filosófica ou religiosa. Assim, todos os cidadãos estariam supostamente livres para seguir qualquer crença e realizar qualquer tipo de culto.

De acordo com tal princípio, o Brasil seria um país cuja religião oficial é inexistente e há total separação entre religião e Estado, tolerando-se toda e qualquer manifestação religiosa dentro da esfera privada, mantendo, ao Estado, uma postura neutra e independente.

Em todas as Constituições desde 1824 há menção à religião e como esta deveria ser tratada pelo Estado e por seus cidadãos. A Constituição do Império, de 1824, inicia-se com “Em nome da Santíssima Trindade” e em seu artigo 5° está escrito:

a Religião Catholica Apostólica Romana continuará sendo a Religião do Império . Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior do Templo.

Assim, de acordo com Silva (1997), em 1824, a religião do Estado era a Católica Apostólica Romana com todas as consequências de um Estado ligado à religião, enquanto as demais religiões eram apenas toleradas. Já, em 1891, a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil trouxe pela primeira vez, em seu artigo 11, parágrafo 2°, o Princípio da Laicidade, de acordo com o qual seria vedado ao Estado “estabelecer, subvencionar ou embaraçar o exercício de cultos religiosos”.

A partir desse momento, todos os textos constitucionais reproduziram a base desse artigo com algumas mudanças e ampliações relacionadas ao tema e a sua aplicabilidade: na Constituição de 1934, a laicidade estatal aparece no artigo 17, incisos II e III; na Constituição de 1937, o princípio encontra-se amparado no artigo 32, alínea b; e na Carta maior de 1946, o tema é tratado no artigo 31, incisos II e III (MELLO, 2012).

Em 1988, a atual Constituição Federal separa Estado e Igreja e ainda consagra a liberdade religiosa e o Estado laico. Porém, seu Preâmbulo enuncia.

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.

Em razão das palavras que inauguram a atual Constituição Federal, muitas controvérsias já foram sustentadas no sentido de o Brasil ser ou não um Estado laico. Isso se

deve ao trecho “sob a proteção de Deus” que vai contra a ideia trazida no interior da atual Constituição de laicidade estatal.

Ocorre que, mesmo diante do entendimento de que o conteúdo do Preâmbulo tem significação política39, o Supremo Tribunal Federal, em julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 2.076/AC, entendeu que essa referência ao nome de Deus não tem

força normativa.

Conclui-se que, a despeito do preâmbulo, destituído de força normativa – e não poderia ser diferente, especialmente no tocante à proteção divina, a qual jamais poderia ser judicialmente exigida -, o Brasil é um Estado secular tolerante, em razão dos artigos 19, inciso I e 5°, inciso VI, da Constituição da República. Deuses e césares têm espaços apartados. O Estado não é religioso, tampouco é ateu. O Estado é simplesmente neutro (MELLO, 2012, p. 41).

No caso da anencefalia, por exemplo, deveria haver certo distanciamento dos argumentos religiosos, para que as crenças individuais não influenciassem em uma decisão tão importante para o cenário jurídico brasileiro. Todavia, isso não é o que ocorre, como veremos a seguir no Capítulo de análise dos votos que compõem a decisão da ADPF n°54. Nesse sentido, Gruman (2005) manifesta sobre o papel da religião no âmbito social e jurídico:

As crenças religiosas deixam de ser meras intérpretes do processo social, modelando-o. A união de distintos segmentos evangélicos na votação de temas de interesse comum (notadamente aqueles relacionados ao aborto e à união conjugal de indivíduos de mesmo sexo), a ausência de um voto iurdiano, uma vez que os políticos desta igreja se distribuem por diversos partidos e a filiação partidária pode sobrepor-se à filiação religiosa dependendo da pauta em votação, e a elaboração de Projetos de Lei que pouco ou nada dizem respeito ao conforto material dos fiéis, revelam que, para além do clientelismo político (que não negamos), a relação entre religião e política está intimamente atrelada ao estabelecimento de fronteiras entre o público e o privado e à noção de cidadania estendida pelos atores políticos e pela população de uma maneira geral (GRUMAN, 2005, p. 110).

Em um país culturalmente marcado pela diversidade religiosa, não se pode, dessa forma, desconsiderar a religião como um fato social que influencia de forma direta a formação de um pensamento social o qual se refletirá em determinado comportamento político, mesmo em direção contrária ao que o princípio do Estado laico prelude.

O fato de se fechar o discurso constitucional aos argumentos religiosos não resolverá

o problema pelo contrário, será um dogmatismo “às avessas”. O fato de se incluir

argumentos religiosos no discurso, sejam eles de qualquer espécie, não significa que tais argumentos serão o fio condutor de deslinde da controvérsia. Pelo contrário, a

39 Termo utilizado por: FERREIRA, Pinto. Comentários à Constituição Brasileira v. 1. São Paulo: Saraiva, 1989.

abertura aos argumentos religiosos, desde que traduzidos para o código binário40 do Direito significa apenas a inclusão de mais um argumento no seio da discussão, e não o seu embasamento. Não se pode dizer que tais argumentos não valem, isto é, eles não devem ser considerados faticamente. Pelo contrário: eles devem ser incluídos, mas, deve-se buscar, discursivamente, demonstrar a falácia, a falibilidade presente em tais argumentos, e não negá-los a priori (...). A incorporação dos mais variados argumentos no bojo da discussão/controvérsia significa um ganho de legitimidade, uma abertura dentro dos discursos jurídicos que muito se coaduna com o ideal de democracia hoje difundido no seio da sociedade (STIGERT, 2007, p.106).

Benzer Belgeler