100 Tendo em vista as peculiaridades da linguagem, como o analista deverá proceder com o intuito de transformar o texto em discurso? Que escuta o analista deverá empreender no intuito de compreender além das evidências do texto, sem proporcionar o apagamento da opacidade da linguagem e dos sentidos da história? Como o analista deverá proceder para analisar e interpretar os discursos? Como o analista deverá investigar no discurso as marcas da ideologia presentes no sujeito?
Admitindo que o analista é uma espécie de detetive sociocultural, Pinto (2002) opina que o mesmo deverá interpretar os vestígios que permitem a contextualização em três níveis: o contexto situacional imediato, o contexto institucional e o contexto sociocultural mais amplo, onde ocorreu o evento comunicacional.
Como o objetivo principal da AD é compreender como um objeto simbólico produz sentido, o primeiro procedimento do analista é transformar uma superfície lingüística em um objeto discursivo. Para isso, Orlandi (2002) recomenda que o analista deverá construir um dispositivo de interpretação. Através desse dispositivo deverá colocar o dito em relação ao não dito, colocar o que o sujeito diz em um lugar relacionando com o que é dito em outro lugar. O analista deverá procurar ouvir naquilo que o sujeito diz, aquilo que ele não diz, mas, que constitui igualmente os sentidos de suas palavras, ou seja, o analista deverá empreender a paráfrase e interpretar os resultados da sua análise.
A noção de funcionamento ocupa posição central da AD e para a compreensão do discurso, o analista deverá investigar os processos e mecanismos de constituição de sentidos. Logo, deverá fazer uso das metáforas, das falhas e dos deslizes, haja vista que para o analista do discurso, a língua não é um instrumento ideologicamente neutro. VOTE SEM MEDO;
VOTE COM CORAGEM; OPTE COM CORAGEM.
Ao utilizar-se das paráfrases, os deslizamentos de sentido estabelecem uma relação da língua com a historicidade. Através dos deslizamentos de próximo em próximo, o ponto de partida torna-se completamente diferente do ponto de chegada, todavia, neste diferente, permanece algo do mesmo (ORLANDI, 2001).
Com o intento de compreender além das evidências imediatas, Orlandi (2002) propõe ao analista a construção de um dispositivo de análise. Por isso, após a análise, não é sobre o texto que o analista se reportará. Após a análise o analista irá se reportar ao discurso construído (ORLANDI, 2004).
101 Tendo em vista que a interpretação na AD não é uma interpretação semântica dos conteúdos, a prioridade do analista diante de um texto não é interpretá-lo, tal qual faz o hermeneuta ou mesmo procurar o sentido verdadeiro do texto. O analista deverá se interessar mais pelo como dizer e por que dizer, que pelo dito em si e procurar o sentido do texto, tanto em sua materialidade lingüística, como histórica. Procurar interpretar no horizonte possível da significação, haja vista que a relação de significação do homem com o mundo é uma relação mediada pela linguagem. Não há uma relação direta entre a palavra e a coisa. Apenas devido à atuação do imaginário, funciona como se fosse. Para isso, o analista deverá explicitar os processos de significação do texto, como o texto produz sentido através dos seus mecanismos de funcionamento (ORLANDI, 2004). Nesta perspectiva, Orlandi (2002) menciona que não há sentidos literais disponíveis em algum lugar, com o intuito de serem usados.
A interpretação, portanto, não é mero gesto de decodificação, de apreensão de sentido. Também não é livre de determinações. Ela não pode ser qualquer uma e não é igualmente distribuída na formação social (ORLANDI, 2004, p. 67).
Para proceder como a análise do discurso, o analista mobiliza conceitos para cada questão que formula e, nesta dependência ante a questão formulada e o conceito mobilizado, a interpretação parte para diferentes significados. Isso porque, sendo o texto a unidade de análise, é afetada pelas condições de produção. Assim, análises distintas de um mesmo texto não produzem conclusões semelhantes, mas relacionadas com as questões de investigação formuladas, além de relacionadas com os referenciais teóricos mobilizados pelo analista. Além dessa dependência com os referenciais teóricos mobilizados e com as questões formuladas pelo analista, ocorre a dependência com o rigor do método utilizado, conforme alertado por Orlandi (2001), bem como do próprio alcance teórico da AD. Nesta perspectiva, o texto, enquanto material de análise, incorpora certa provisoriedade (ORLANDI, 2002).
Vale salientar que a tarefa do analista de discurso não é descrever o texto, tampouco o interpretar, tal qual faz o hermeneuta. Para Orlandi (1988), o analista deverá compreender o texto a partir das evidências presentes, tanto nos processos de significação, como a partir do seu próprio funcionamento. Ou seja, pela produção dos sentidos.
Orlandi (2001) também alerta que a interpretação possui forte vínculo com a materialidade da linguagem. Logo, linguagens distintas, significam distintamente, além da distinção que lhe é determinante pelos métodos praticados. Além disso, uma das
102 pressuposições para a interpretação da linguagem verbal, é que a mesma ocorre, tanto por quem analisa, quanto por aquele que fala.
Reconhecendo a impossibilidade de ter acesso direto aos sentidos do texto, a AD trabalha a opacidade do mesmo e identifica nesta a presença do simbólico, do ideológico, bem como o próprio funcionamento da linguagem.
Na AD, o ato de interpretação do discurso é o de atribuir sentido ao texto, restituindo a opacidade dos sentidos, haja vista que interpretação não é decodificação. A interpretação do discurso consiste em analisar como o texto funciona e produz sentido. Logo, a interpretação não se fecha (ORLANDI, 2001). Reportando-se a Georges Canguilhem, a autora lembra, ainda, que na filiação teórica francesa, não há sentidos em si, mas sendo definidos com “relação a”.
A interpretação encontra-se presente em toda a manifestação da linguagem, embora nem sempre evidente, dando sentido à mesma. Nesta perspectiva, a interpretação deverá ser considerada tanto pelo analista, quanto pelo sujeito da linguagem (ORLANDI, 2004).
Pêcheux (1983) considera que a interpretação é um gesto, um ato que se dá a nível simbólico. Orlandi (2004) alerta que, sendo o espaço simbólico marcado pela incompletude, inclusive relacionando-se com o silêncio, faz-se necessário a interpretação. Esse é o vestígio do possível, logo, o local onde a ideologia é materializada em algum lugar histórico, através de uma relação lingüístico-histórica. Assim, a interpretação não ocorre como uma relação natural entre palavras e coisas.
O gesto de interpretação, fora da história, não é formulação (é fórmula), não é re-significação (é rearranjo). Isso não quer dizer que não haja produção de autoria. Há. Mas de outra qualidade, de outra natureza. Porque a natureza da materialidade da memória é outra. E, como sabemos, em discurso, distintas materialidades sempre determinam diferenças nos processos de significação (ORLANDI, 2004, p. 17).
Para atribuir sentido ao texto, o analista deverá expor a opacidade do texto, restituí-la. Deverá também explicar como o objeto simbólico produz sentido. O analista deverá considerar que esse espaço simbólico é marcado pela incompletude, incompletude pensada em relação ao que não se fecha, bem como por uma relação com o silêncio. Assim, a interpretação é o vestígio do possível (ORLANDI, 2004, p. 18).
Diante de qualquer objeto simbólico o analista do discurso encontra-se na posição de dar sentido ao mesmo, ou seja, construir significações. O sujeito que fala,
103 por sua vez, também constrói a significação, constrói domínios e forma possíveis interpretações (ORLANDI, 1993). Isso porque em relação à significação, a relação do homem com o pensamento, com o mundo e com a linguagem, não é direta, mas mediada.
Para Orlandi (2002) a interpretação aparece em dois momentos da análise do discurso. Primeiramente, porque a interpretação faz parte do objeto de análise, tendo em vista que o sujeito que fala, também interpreta. Logo, o analista deverá procurar descrever este gesto de interpretação do sujeito, o qual ocorre no nível simbólico, que constitui o sentido submetido à análise. Também faz-se necessário compreender que não há descrição sem interpretação. Assim, o próprio analista está envolvido na interpretação. Logo, a necessidade de introduzir-se um dispositivo teórico que possa intervir na relação do analista com os objetos simbólicos que analisa. Neste sentido, ocorre um deslocamento do analista em sua relação com a interpretação.
O ato de interpretação ocorre, não apenas pelo analista do discurso. Quando o sujeito fala com outro, ou para outro, está atribuindo sentido às suas próprias palavras, logo, em atividade de interpretação. Porém, para o sujeito que fala, o sentido parece estar nas próprias palavras. Com isso, ocorre o apagamento das condições de produção e a interpretação mostra-se como transparente ao sujeito que fala (ORLANDI, 2004).
Após a análise, não é mais sobre o texto que falará o analista, mas, sobre o discurso. Atingido o processo discursivo, o texto analisados desaparece como referencial e dá lugar aos processos discursivos (PÊCHEUX, 2006).
Conforme mencionamos em outro tópico, as condições de produção estão relacionadas, não apenas com aspectos ideológicos de quem produz, mas, também de quem interpreta o discurso. Vale salientar que a posição ocupada pelo sujeito não é uma posição física, mas, imaginária.
Reconhecendo que o gesto de interpretação poderá se dar tanto pelo analista do discurso, quanto pelo sujeito comum, Orlandi (2004) discorre sobre as distinções dos procedimentos. Para proceder com a interpretação, o analista lança mão de um dispositivo teórico, enquanto que o gesto de interpretação do sujeito comum é determinado por um dispositivo ideológico.
O espaço de interpretação, que tanto o analista quanto o sujeito se inserem, é conseqüência das relações empreendidas com a memória discursiva, considerada como interdiscurso. Isso porque na AD não se trabalha com o conteúdo da linguagem, mas
104 com a sua constituição, regida por condições de produção específicas (ORLANDI, 2004).
Distintas formas de linguagem requerem distintos gestos de interpretação, haja vista que as linguagens possuem materialidades distintas. Logo, também significam distintamente. Nesta perspectiva, o gesto de interpretação em um primeiro momento poderá mostra-se como evidente, porém, é passível de equívocos e requer distintos gestos de interpretação (ORLANDI, 2004).
Também, devido ao papel do analista na análise do discurso, tratado no último parágrafo, espera-se um dispositivo que o possibilite trabalhar em uma posição não neutra. A posição do analista deverá ser relativizada em relação à interpretação (ORLANDI, 2002).
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