Em 8 de dezembro de 1560, foi fundado junto ao “aldeamento dos índios Guarus da tribo dos Guaianases, integrantes da nação Tupi, pelo Padre Jesuíta Manuel de Paiva, o povoado com a denominação de Nossa Senhora da Conceição”9. A atual cidade de Guarulhos.
Até o século 18, Guarulhos foi marcada pela exploração do ouro, não só pela extração predatória desse mineral, como também por se tornar rota de tropeiros entre o interior e a capital e entre outros Estados, como o Rio de Janeiro. Entre os séculos 19 e 20, a economia girou em torno da escravatura e do mercado negreiro, da agricultura, dos engenhos de cana-de-açúcar para a produção de aguardente, da criação de gado e das olarias que serviam à construção da capital do estado.
A intensificação do desenvolvimento econômico inicia-se no século 20, em função da “chegada da energia elétrica, da Estrada de Ferro Guapyra- Guarulhos – o Trem da Cantareira - a qual foi criada para atender aos interesses da Empresa de Cerâmica Paulista localizada na Vila Galvão – para
escoamento da cerâmica produzida na cidade para a capital e outros pontos do Estado de São Paulo”10.
A história do desenvolvimento de Guarulhos ao longo dos séculos, até os dias atuais, vem servindo aos interesses externos, aos da monarquia, da capital, do capital. Para Santos11 - estudioso da história da cidade - a questão
central é que o desenvolvimento do território de Guarulhos, desde os tempos em que era aldeamento da Vila de São Paulo, acontece em detrimento da valorização das múltiplas identidades sociocultural-históricas existentes na cidade.
Entre os anos de 1940 e 1950, com o intuito de agilizar o tráfego e fomentar as relações comerciais entre os principais Estados brasileiros, inauguram-se duas grandes rodovias que cortam o Município de Guarulhos: a Presidente Dutra e a Fernão Dias. Com a abertura dessas rodovias, veio o interesse de grandes indústrias em se instalarem no município. Os governantes da época cederam terras a preços irrisórios para instalação de indústrias dos setores elétrico, metalúrgico, plástico, alimentício, automobilístico, de borracha, entre outros, oferecendo isenção de impostos e várias outras facilidades.
Até os anos 1980, o município foi considerado polo industrial da Região Metropolitana de São Paulo, atraindo milhares de migrantes em busca dos muitos empregos oferecidos. Em 1985, com a instalação, nessa cidade, do Aeroporto Internacional de São Paulo, no bairro de Cumbica, e com as crises econômicas que se sucederam, a cidade passa a fomentar sua economia também no setor de serviços.
A identidade da cidade de Guarulhos foi sendo consolidada como “cidade progresso”12. Desde os tempos remotos até os dias de hoje, os vários
prefeitos locais, com a intenção de “atraírem investimentos” para a cidade, utilizam o mesmo discurso: “A proximidade com a cidade de São Paulo, a localização estratégica por ser cortado por duas importantes rodovias e o Aeroporto Internacional”. Ainda segundo Santos (2006):
10 In: Revista Roteiro Histórico – Secretaria de Educação - PMG, 2007. Disponível em:
<www.guarulhos.sp.gov.br/08_subsites/mostra_sub.php?rnd=709&pa=YT04JmI9NjIzJmM9JmQ9cHQtYnI=>. 11 SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Identidade urbana e globalização: a formação dos múltiplos territórios em Guarulhos-SP. 2006.
12 O termo foi incorporado ao hino da cidade: ―... Tu és hoje cidade progresso...‖. Disponível em: <www.guarulhos.sp.gov.br>. Acesso em 2011.
A construção de uma identidade de município próximo e dependente de São Paulo, possuindo ainda como seus atrativos as intervenções federais em seu solo (Dutra, Fernão Dias, Base Aérea e futuramente o Aeroporto Internacional) e vastas áreas “baratas”, constituiu-se numa prática de hegemonia cultural pertinente aos interesses políticos dos grupos econômicos locais(p. 161).
No entanto, essa hipervalorização do progresso e da modernidade deixa de fora importantes manifestações sócio-históricas e culturais como também elementos que compõem a formação identitária da cidade. Para o autor, a forma de composição dos territórios da cidade e da sua gente já são elementos que refletem não uma única identidade, mas a riqueza das diversidades culturais que foram se compondo ao longo dos anos e que não aparecem no “cartão postal da cidade”. Algumas dessas manifestações culturais tradicionais e de cunho religioso passaram a ser vistas como sinônimo de “atraso”, como, por exemplo, a Festa da Carpição e de Nossa Senhora de Bonsucesso. Para Santos (2006):
Provavelmente e do mesmo modo, essas tradições populares e religiosas deveriam desagradar muitos moradores de Guarulhos, por serem consideradas „profanas‟ e „atrasadas‟. Os depoimentos que recolhemos entre os membros de algumas dessas manifestações da cultura popular-religiosa (folia de reis, catira, congadas e moçambiques) assinalam que nem todos os párocos, membros do poder público e parcelas da população aceitam essas formas de manifestação (p. 67).
Não se trata aqui de defender essa ou aquela tradição religiosa, mas de preservar as manifestações populares como valores sócio-históricos. Manifestações essas que, muitas vezes, são símbolos da luta e resistência de um povo.
Seguindo a tendência “desenvolvimentista”, a cidade recebeu, na década de 1970, grande contingente populacional migratório, ou seja, pessoas que vieram de várias partes do Brasil, principalmente da Região Nordeste, em busca da promessa de emprego, moradia e vida digna, pois, com a seca nos
estados nordestinos, os moradores se viram obrigados a deixar sua terra, além disso, as metrópoles necessitavam de mão de obra para levantar seus arranha- céus. Porém, o prometido não se cumpriu para todos, pelo menos totalmente. Muitos conseguiram emprego com extensa jornada de trabalho em fábricas e na construção civil, porém, a maioria desses empregos não oferecia condições mínimas de segurança e de seguridade social.
As periferias foram os locais disponibilizados para a grande massa de famílias migrantes, as quais se instalaram em regiões que não ofereciam a infraestrutura necessária para moradia e habitabilidade de seus membros, grandes bairros foram se formando sem a intervenção necessária do poder público local. Dessa maneira desordenada, até regiões que não poderiam ter sido habitadas, como mananciais localizados em regiões serranas, foram ocupadas por moradias regulares e irregulares. Em parte da Serra da Cantareira, que está localizada no Município de Guarulhos, loteamentos legais e ilegais invadem a área, colocando em risco iminente os mananciais, as represas e barragens .
A falta de planejamento urbano foi intensificando um processo de apartação social, ou seja, a cidade ficou dividida entre um pequeno centro com melhor infraestrutura e uma extensa periferia com precárias condições de moradia, sem saneamento básico, sem serviços básicos de saúde, educação e lazer. Um desses bairros, que passou por esse processo de “periferização”, é o Jardim Presidente Dutra, território escolhido para desenvolvimento da pesquisa de campo deste estudo.
Com a construção do Aeroporto Internacional, a cidade passou por mais um processo de apartação, esse talvez menos evidenciado. No início dos anos 1980, houve grande processo de desapropriação nos bairros que circundavam o local do futuro aeroporto13. Em uma área de aproximadamente 14km² concentra-se uma riqueza globalizada, ou seja, um Aeroporto Internacional e a Base Aérea de São Paulo. No seu entorno, no entanto, há uma área muitas
13 ―Alguns bairros da região de Cumbica desapareceram para dar lugar às instalações do aeroporto. Da Cidade Seródio e Jardim Novo Portugal, por exemplo, não sobrou muita coisa. Desapareceu inteiramente o Jardim Maringá – o que era o bairro, hoje, é uma das pistas do campo de pouso. O Parque São Luiz teve 90% de sua área desapropriada e perderam significativas fatias os jardins Presidente Dutra, Haroldo Veloso e São João.‖ (SANTOS, 2006: 201)
vezes maior, que concentra intensa precarização social de toda ordem: famílias pauperizadas, sub-habitações, falta de saneamento básico, etc.
O anúncio da construção da terceira pista foi (e é) alvo de conflitos com grupos ambientalistas e movimentos de moradores da região. A ameaça de nova desapropriação é motivo de pesadelo para a população do entorno do aeroporto.
Em meio a esse cenário, Guarulhos é, atualmente, a segunda maior cidade do Estado de São Paulo em população: 1.222.357 habitantes (IBGE 2010). Faz divisa com vários outros municípios da Grande São Paulo: ao leste, com Arujá; a sudeste, com Itaquaquecetuba; a noroeste, com Mairiporã; ao norte, com Nazaré Paulista; e, ao sul, sudoeste e oeste, com as zonas norte e leste da cidade de São Paulo (Mapa 1).
Fonte: Disponível em: <www.juventude.sp.gov.br/portal.php/minha-cidade/reg_saopaulo>
MAPA 1 – Guarulhos na Grande São Paulo
Possui Produto Interno Bruto (PIB) superior a R$ 25 bilhões e PIB per
em 2006, a 8ª posição entre os 100 municípios com maior PIB no Brasil (IBGE 2006).
Como toda grande cidade brasileira, apresenta altos índices de pobreza e exclusão social, herança de um processo predatório e desordenado de urbanização e da falta de planejamento urbano e social. Dados do Mapa de Exclusão/Inclusão Social da Cidade de Guarulhos14 indicam que 10,64% da
população vivem em núcleos sub-habitacionais (favelas) e 11,83% vivem em áreas com risco de desabamentos e inundações. (A cidade apresenta grande discrepância social, com altos níveis de concentração de renda, pois somente 10,52% das famílias percebem rendimentos entre 10 e mais de 20 salários mínimos (PREFEITURA DE GUARULHOS, 2003: 52-54). Do total de domicílios (289.951), 13,33% apresentam-se sem nenhum rendimento, número equivalente a 38.645 famílias. E 21,46%, equivalente a 62.230 famílias, têm renda mensal de até dois salários mínimos, (ibid.: 40, 42, 44).
O Município de Guarulhos, em geral, tem população jovem, pois 39,29% das pessoas estão na faixa etária entre 0 e 19 anos, e isso exige do poder público investimentos em saúde, educação, esporte, lazer e outros acessos necessários para a inclusão social de crianças e adolescentes (ibid., p. 108- 115). No ano de 2000, 2,16% da população estava na faixa etária acima dos 70 anos de idade, o que também exige da administração municipal investimento nas áreas de saúde, transporte, vias públicas, lazer e outras inserções necessárias para garantir qualidade de vida e acessibilidade para população idosa e pessoas com mobilidade reduzida (ibid.: 82).