Os dados são imprecisos sobre a quantidade de brasileiros que atravessaram o limite político e que permanecem vivendo no Paraguai nas cinco últimas décadas. Pelos dados oficiais dos censos do Paraguai, os números são bem menores comparados com as estimativas brasileiras e vêm diminuindo na última década: no censo de 1992 a quantidade era de 108.526, em 2002 este número diminuiu para 81.592. Já o Ministério das Relações Exteriores estima que existiam 459.147 brasileiros no Paraguai em 2000. O censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também em 2000 revelou que 454.501 imigrantes brasileiros moram naquele país.
Alguns trabalhos sobre os brasiguaios, feitos nas duas últimas décadas, têm apresentado cifras diferenciadas. Wagner afirma que durante as décadas de 1970 e 1980 cerca de 250 mil pequenos e médios produtores agrícolas brasileiros emigraram para o Paraguai, sendo que a quantidade total destes imigrantes era em torno de 350 mil em meados da década de 1980. Palau e Heikel (1987) trabalhavam com a cifra de 250 a 300 mil no final dos anos 1980. Cortez (1993) afirma que em 1984 existiam cerca de 400 mil brasileiros no país vizinho. Já Souchaud (2002) estima que atualmente existam cerca de 500.000 imigrantes em uma população nacional de 5.163.198 habitantes.
As reportagens na imprensa brasileira e paraguaia também têm estimado os mais variados números. Algumas notícias falam em cerca de 300 mil ou 350 mil, outras chegam a falar de meio milhão, incluindo os filhos destes imigrantes que já nasceram no Paraguai. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também fez sua estimativa com base em dados coletados pela própria Igreja Católica. Segundo a CNBB, em 1975 existiam cerca de 40 mil brasileiros. Em 1982, o número tinha subido vertiginosamente para 250 mil. No final do Governo Figueiredo no Brasil (1985) este número já tinha dobrado, chegando aos 500 mil. Mas durante a década de 1980 e 1990 muitos deles, principalmente os mais pobres, que não conseguiram comprar propriedades rurais no Paraguai, voltaram para o Brasil, especialmente para
os assentamentos do MST no Mato Grosso do Sul e Paraná. Além disso, existe uma quantidade de brasileiros que só estão no Paraguai em períodos de safras, são os trabalhadores sazonais.
Os motivos fundamentais para a falta de precisão e as constantes variações nas estatísticas sobre o número dos imigrantes brasileiros no Paraguai são: 1) o problema da ilegalidade e falta de controle na fronteira por parte dos governos brasileiro e paraguaio; 2) as metodologias dos censos e das estimativas não conseguem visualizar os fluxos migratórios constantes nesta fronteira; 3) as fontes diferentes que fazem as estimativas, especialmente o Ministério das Relações Exteriores no Brasil e o Ministério do Interior no Paraguai. O governo paraguaio trabalha com dados dos imigrantes que estão com sua situação regularizada. Há muitos brasileiros irregulares. Além disso, todos os descendentes dos imigrantes que nasceram em solo paraguaio já são nacionais e têm o direito a cidadania paraguaia. Os dados do Itamaraty são projeções, incluindo os que não têm documentos e os seus descendentes.
De fato, não há nenhum levantamento preciso sobre estes imigrantes brasileiros. Os governos e a igreja fazem as suas estimativas e a imprensa e os pesquisadores repetem, acrescentam, distorcem ou misturam dados destas fontes. Estas quantificações distintas não são neutras, estão marcadas por interesses políticos variados. Neste sentido, tais estimativas servem ora para denunciar o governo brasileiro que abandonou esta quantidade imensa de brasileiros “sem pátria e sem terra”, ora para denunciar os governos paraguaios que permitiram esta entrada incontrolada de estrangeiros que estão acabando com a soberania nacional do país, ou ainda para demonstrar a importância demográfica e econômica destes brasileiros nestas localidades. Geralmente os jornalistas brasileiros e paraguaios terminam reproduzindo dados repassados pelos informantes durante entrevistas nestas localidades, pois os próprios imigrantes também se arriscam a quantificar sua presença naquele país32.
A diplomacia paraguaia afirma que ainda não tem nenhuma política migratória elaborada e o consulado brasileiro, embora tenha demonstrado interesse em regularizar a situação destes brasileiros em vários discursos na imprensa, não tem apresentado ações concretas no sentido de promover uma ampla regularização dessas pessoas. A única ação efetiva que o consulado tem executado nos últimos anos é um projeto itinerante nestas localidades, visando
32 Na cidade de Santa Rita, escutei as mais diferentes estimativas, um disse 80% de brasileiros, outro meio a meio,
registrar as crianças como cidadãos brasileiros33. Há indícios que os brasileiros que permaneceram no Paraguai intensificaram o processo de legalização, mas reclamam das autoridades que não agilizam seus documentos. Eles afirmam que o setor de migração em Assunção, ligado ao Ministério do Interior, não tem interesse na regularização, já que os funcionários das alfândegas ganham constantemente propinas dos brasileiros que estão em situação irregular. Além disso, alguns imigrantes relatam que o governo paraguaio e mesmo setores da oposição não se interessam em documentá-los, já que esses imigrantes podem ocupar cada vez mais cargos políticos nos municípios paraguaios.
Muitos brasileiros vivem no Paraguai há vários anos somente com um permiso de turista que após a criação do Mercosul (1995) passou a ter uma validade de três meses. Essa permissão é gratuita para os cidadãos dos países que formam o Mercosul. Os “turistas” só pagam uma multa em caso de perda ou de vencimento. Como muitos imigrantes brasileiros vivem próximo à fronteira e vão constantemente ao Brasil comprar mercadorias, visitar parentes ou resolver problemas de saúde, eles sempre estão renovando o permiso de turista na alfândega de Cidade do Leste. Quando a permissão se vence e não renovam logo, alguns evitam andar nas estradas mais movimentadas para não serem pegos pela polícia rodoviária paraguaia que geralmente exige alguma propina. Esta é a estratégia mais econômica para muitos imigrantes que estão em situação irregular naquele país. Portanto, muitos dos que são oficialmente reconhecidos como turistas são, na realidade, esses imigrantes brasileiros que estão constantemente renovando seus permisos.
Para regularizar a situação do imigrante no Paraguai são necessários dois documentos: a admisión permanente, radicación ou carné de inmigrante e a célula de identidad. O carnê do imigrante tem uma validade de 10 anos e custa atualmente 648 mil guaranis (324 reais). Devido ao imigrante está em situação irregular, paga uma multa a mais de 261 mil guaranis, totalizando um valor de 909 mil guaranis ou 455 reais. Há muitas reclamações sobre esta documentação, alguns afirmam que já pagaram há muito tempo e ainda não receberam, outros confirmam que somente pagando uma propina elevada para os funcionários da migração estes agilizam os papéis. Eles recebem primeiramente um carnê temporário de validade de um ano, só depois conseguem o
33 Esta confusão de dados estimados só será resolvida se houver um trabalho conjunto entre o Consulado brasileiro,
os Ministérios do Interior e Exterior do Paraguai e as igrejas que atuam nestas localidades. Em vez de cada instituição projetar dados vagos e imprecisos que alimentam os mais distintos interesses, a ação conjunta poderia primeiramente promover uma regularização dos “indocumentados” e fazer um censo específico desta população brasileira na região.
permanente. Aqueles que já têm o carnê permanente do imigrante podem também conseguir a
Célula de Identidad Civil de la República del Paraguay, também com validade de 10 anos. Esta
identidade custa 1.200 mil guaranis (600 reais). A renovação desta documentação custa 325 mil guaranis (162,50 reais). Com esses dois documentos, os imigrantes podem participar legalmente da vida econômica e política municipal.