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8. DESTEKLEYĐCĐ ĐŞLEMLER

8.4. KLASĐK BĐT DĐZĐLERĐ ĐÇĐ GĐZLĐLĐK ARTIRIMI

Mesmo tendo surgido algumas interpretações do desenvolvimento capitalista na América Latina que caminhavam em sentido diverso à análise fundamentada pelos desenvolvimentistas, inclusive no aporte dos estudos realizados dentro do escopo da teoria da dependência13, é somente com Ruy Mauro Marini, e sua obra político-teórica Dialética da

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Além da corrente marxista, que será apresentada na próxima seção, é também definida uma corrente weberiana, representada na obra de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto. Essa corrente defendia o capitalismo dependente-associado, segundo o qual seria possível um desenvolvimento capitalista periférico, associado a regimes políticos liberais e democráticos, que amenizassem os efeitos da dependência com políticas sociais compensatórias. Os verdadeiros entraves ao desenvolvimento periféricos seriam, nesse caso, as forças internas, que impediam a economia periférica de aproveitar as oportunidades de associação ao ciclo econômico do centro do sistema.

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As contribuições teóricas de Theotônio dos Santos e Vânia Bambirra superaram várias das limitações presentes tanto nas análises desenvolvimentistas quanto dos dependentistas weberianos, em especial por avançar em termos da definição de um conceito de dependência. Assim, as análises de Santos e Bambirra constituem um importante passo no direcionamento da teoria da dependência dentro do quadro dos estudos sobre o

Dependência que se conforma efetivamente o que se convenciona chamar de teoria marxista da dependência. O ponto de partida do autor na composição dessa nova vertente teórica é a noção de que, frente ao parâmetro do modo de produção capitalista puro, a economia latino- americana apresentava certas peculiaridades que impediam que o capitalismo aqui se desenvolvesse da mesma forma como se desenvolveu nas economias consideradas avançadas. Por isso, ressalta que a compreensão do desenvolvimento capitalista latino-americano, e sua especificidade periférica, só ganhavam sentido se investigadas tanto a nível das relações política, econômica e social nacionais quanto internacionais14.

Dois grandes processos históricos estão na base dos fenômenos que geraram os estudos da dependência, em especial da corrente marxista. O primeiro deles foi a Revolução Cubana, que se constituiu em um dos principais parâmetros para as definições teóricas e políticas da América Latina à época, ao aprofundar a crise teórica do marxismo dogmático – ou stalinista - até então prevalecente. O segundo – e talvez mais importante – tratou-se da crescente integração do processo produtivo das economias latino-americanas com o capital estrangeiro, fenômeno este que intensificou as contradições sociais na região. Esse processo pôs fim à ilusão do desenvolvimento de um capitalismo autônomo na região, o que levou à crise do pensamento cepalino e, conseqüentemente, da teoria do desenvolvimento. É principalmente a partir desse enfoque que Marini estruturou toda a sua reflexão sobre o capitalismo na periferia.

Segundo essa corrente, a dependência pode ser entendida como uma situação na qual a economia de certos países – os periféricos - está condicionada ao desenvolvimento e expansão imperialismo. Apesar dessa importante contribuição, e de suas análises terem fundamento na obra de Marx, é somente com a interpretação de Marini que se pode falar em uma teoria marxista da dependência. De certa forma, a obra de Florestan Fernandes também apontou para elementos nesse campo.

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Além de se voltar para a compreensão das especificidades do capitalismo periférico, a teoria marxista da dependência, em sua vertente marxista, compreendia uma crítica teórica e prática às políticas de aliança dos Partidos Comunistas latino-americanos. Como apontou Marini em sua “Memória”: Na realidade, e contrariando interpretações correntes, que a vêem como subproduto e alternativa acadêmica à teoria desenvolvimentista da CEPAL, a teoria da dependência tem suas raízes nas concepções que a nova esquerda - particularmente no Brasil, embora seu desenvolvimento político fosse maior em Cuba, na Venezuela e no Peru - elaborou, para fazer frente à ideologia dos partidos comunistas. A CEPAL só se converteu também em alvo na medida em que os comunistas, que se haviam dedicado mais à história que à economia e à sociologia, se apoiaram nas teses cepalinas da deterioração das relações de troca, do dualismo estrutural e da viabilidade do desenvolvimento capitalista autônomo, para sustentar o princípio da revolução democrático-burguesa, anti-imperialista e antifeudal, que eles haviam herdado da Terceira Internacional. Contrapondo-se a isso, a nova esquerda caracterizava a revolução como, simultaneamente, anti-imperialista e socialista, rechaçando a idéia do predomínio de relações feudais no campo e negando à burguesia latino-americana capacidade para dirigir a luta anti-imperialista. Foi no Brasil da primeira metade dos 60 que essa confrontação ideológica assumiu perfil mais definido e que surgiram proposições suficientemente significativas para abrir caminho a uma elaboração teórica, capaz de enfrentar e, a seu tempo, derrotar a ideologia cepalina - não podendo ser, pois, motivo de surpresa o papel destacado que nesse processo desempenharam intelectuais brasileiros ou ligados, de alguma forma, ao Brasil.

de outras economias a que está subordinada – as centrais -, de tal forma que os países centrais poderiam se auto-sustentar, enquanto que os países periféricos só poderiam expandir suas economias como um reflexo da expansão dos primeiros. Por isso, a condição de subdesenvolvimento está conectada estreitamente à expansão dos países centrais e, ainda que fosse a representação de uma subordinação externa, teria manifestações internas nos arranjos político, social e ideológico. Dentro disso, uma economia periférica, ou dependente, é considerada como o país ou região que apresenta, em geral, instáveis trajetórias de crescimento, forte dependência de capitais externos para financiar suas contas-correntes – fragilidade financeira -, baixa capacidade de resistência diante de choques externos – vulnerabilidade externa – e elevados níveis de concentração de renda e riqueza (CARCANHOLO, 2009: 251).

Essa noção nos leva ao conceito de dependência. Segundo Marini,

a dependência é entendida como uma relação de subordinação entre nações formalmente independentes, em cujo âmbito as relações de produção das nações subordinadas são modificadas ou recriadas para assegurar a reprodução ampliada da dependência. (2000, p. 109).

Nesses termos, o objeto de estudo da teoria marxista da dependência é a compreensão do processo de formação sócio-econômico na América Latina a partir de sua integração subordinada à economia capitalista mundial. Dentro desse processo, o que se observa é uma relação desigual de controle hegemônico dos mercados por parte dos países dominantes e uma perda de controle dos dependentes sobre seus recursos, o que leva à transferência de renda – tanto na forma de lucros como na forma de juros, dividendos e royalties – dos segundos para os primeiros. Ou seja, essa relação é desigual em sua essência porque o desenvolvimento de certas partes do sistema ocorre às custas do subdesenvolvimento de outras.

Carcanholo (2004, p. 09) identifica três condicionantes histórico-estruturais da situação de dependência. O primeiro seria a deterioração dos termos de troca, ou seja, a redução do preço dos produtos exportados pelas economias dependentes – produtos primários e de baixo valor agregado – em relação ao preço dos produtos industriais, de maior valor agregado, importado dos países centrais, num processo de transferência de valores15. O

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De acordo com Marini (1977), tais mecanismos de transferência de valor podem ser explicados por duas vias. De um lado, pelos mecanismos internos a uma mesma esfera de produção. Como as mercadorias tendem a ser vendidas pelo valor de mercado, dado por sua produtividade média, e os países dependentes possuem padrões de produtividade inferiores aos países do centro, ocorre transferência de valor da periferia para o centro por conta do processo de concorrência entre os capitais externos e internos, dentro de uma mesma esfera de produção. De outro lado, pelos mecanismos de concorrência entre distintas esferas de produção. A entrada e saída de capitais de várias esferas, com diferentes taxas de lucro, tende a igualar essas taxas. Só que o monopólio da produção de

segundo seria a remessa de excedentes dos países dependentes para os avançados, sob a forma de juros, lucros, amortizações, dividendos e royalties, pelo fato de os primeiros serem importadores de capitais dos segundos. Por fim, o terceiro seria a instabilidade dos mercados financeiros internacionais, geralmente implicando em elevadas taxas de juros para o fornecimento de crédito aos países dependentes periféricos, e colocando os mesmos à mercê do ciclo de liquidez internacional.

É a partir desses condicionantes histórico-estruturais que se pode distinguir quatro formas históricas de dependência: a dependência colonial, a dependência financeiro- industrial, a dependência tecnológico-industrial e a chamada quarta forma histórica de dependência16. Cada uma destas formas de dependência corresponde a uma situação que

condiciona não somente as relações internacionais desses países, mas também suas estruturas internas: a orientação da produção, as formas de acumulação de capital, a reprodução da economia e, simultaneamente, sua estrutura social e política.

A dependência colonial é caracterizada pela tradição na exportação de produtos naturais e na qual o capital financeiro, em aliança com os Estados colonialistas, domina as relações entre a metrópole e a colônia. Essa dependência colonial tem sua fundamentação na forma primeira de inserção da América Latina no cenário internacional, na qual ela se firmou enquanto grande empresa exportadora, comandada e explorada de acordo com os interesses externos ao continente. De acordo com Mauro (2007, p. 170), a enorme quantidade de metais preciosos e gêneros in natura saqueados pelos europeus entre os séculos XVI e XVIII permitiu o desenvolvimento do capital comercial e bancário na Europa, indispensável para o surgimento da grande indústria. Sendo assim, para além do aumento da participação no fluxo internacional de mercadorias, o estabelecimento dessa relação fez com que o continente latino-americano contribuísse para o desenvolvimento do capitalismo internacional, no processo denominado por Marx de acumulação primitiva de capital. Aqui, já ficava definido que caberia aos países da América Latina exportar produtos primários, em troca da importação de produtos manufaturados dos países centrais.

A dependência financeiro-industrial se consolidou ao final do século XIX, sendo caracterizada pela dominação do grande capital nos centros hegemônicos, cuja expansão se deu por meio de investimentos na produção de matérias-primas e produtos agrícolas para seu mercadorias com elevado valor agregado no centro faz com que os capitais externos possam vender suas mercadorias a um preço que supera aquele que prevaleceria com iguais taxas de lucro, definindo também um mecanismo de transferência de valor.

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As três primeiras formas históricas da dependência foram delimitadas por Theotônio dos Santos (2000). Já a quarta forma histórica foi desenvolvida por Amaral (2006).

próprio consumo. Conseqüentemente, a produção nos países dependentes é destinada à exportação, isto é, a produção é determinada pela demanda por parte dos centros hegemônicos. A estrutura produtiva interna era caracterizada pela rígida especialização e pela monocultura em algumas regiões. Ou seja, a segunda forma histórica nada mais é que uma derivação e aprofundamento da primeira, apenas se diferenciando pela expansão do capital na garantia dos interesses da grande indústria hegemônica. Aqui, se expressa a contribuição da região no deslocamento do eixo de acumulação das economias industriais - que passou da produção de mais-valia absoluta para a mais-valia relativa -, mudança qualitativa que ocorreu devido ao barateamento dos meios de subsistência, o qual levou, necessariamente, à diminuição do valor da força de trabalho.

Como resultado das relações impostas por essas duas formas históricas de dependência, as restrições do mercado interno se explicavam por quatro principais fatores. Primeiro, a maior parte da renda nacional era derivada da exportação. Segundo, a força de trabalho era submetida a várias formas de exploração, o que limitava sua renda, e consequentemente, seu consumo. Terceiro, que parte do consumo da classe trabalhadora se realizava por meio da subsistência, o que servia não apenas como complemento a sua renda, mas também como uma alternativa em períodos de depressão. E por fim, a maior fatia dos excedentes acumulados era enviada para fora dos países exportadores sob a forma de lucros, restringindo o consumo interno e as possibilidades de reinversão de capitais.

Nos anos 1950, se consolida a terceira forma de dependência, a tecnológico- industrial, baseada no investimento, por parte das corporações transnacionais, nas indústrias voltadas ao atendimento do mercado interno dos países subdesenvolvidos. Nesse caso, a possibilidade de gerar novos investimentos dependia da existência de recursos financeiros em moeda estrangeira para a compra de maquinaria não produzida internamente, compra esta que era limitada por duas vias: os recursos gerados pelo setor exportador e as restrições dos monopólios e patentes. Ou seja, havia uma significativa dependência, por parte dos países periféricos, da importação de máquinas e equipamentos para o desenvolvimento de seu setor industrial, mas esses produtos não eram vendidos livremente no mercado. Esses produtos usualmente eram patenteados por grandes companhias, que exigiam ou o pagamento de royalties para sua utilização, ou convertiam esses produtos em capital e os introduziam na forma de investimentos diretos. Com isso, o fluxo de capitais se tornou fortemente desfavorável para os países periféricos, já que os recursos que saiam na forma de remessa de lucros e pagamentos de royalties eram bem superiores aos recursos que neles entrava.

A chamada quarta forma da dependência se configura a partir de uma nova fase na relação ente centro e periferia, resultado direto dos acontecimentos derivados do processo de globalização, e se firma nas bases da estratégia neoliberal de desenvolvimento, chancelada no discurso do Consenso de Washington. Com a adoção do mecanismo de flexibilização financeira por grande parte dos países, própria do “modelo” neoliberal, um considerável montante de capitais, advindo em sua grande maioria dos países centrais, se dirigem aos países periféricos na busca de um espaço de valorização já esgotado em seus países de origem. Esse espaço de valorização é garantido porque, como os países periféricos têm grande necessidade de acesso a recursos para o cumprimento de seus compromissos comerciais e financeiros e para a manutenção de suas taxas de câmbio em um nível favorável, suas taxas de juros são mantidas elevadas. A contrapartida da entrada de recursos financeiros é, de um lado, o aumento das remunerações do capital especulativo, que se converte na ampliação das rendas destinadas aos países credores e, de outro, a queda do investimento produtivo, que resulta na redução dos níveis de emprego e da geração de renda, e no aumento da dependência de importação de produtos básicos, que geram desequilíbrios no balanço de pagamento. Tais desequilíbrios, intensificados também pela instabilidade cambial – dado o intenso fluxo de capitais – desemboca em novas necessidades de acesso a recursos financeiros, no intuito de equilibrar as contas externas. Sendo assim, os países periféricos se vêem inseridos num círculo financeiro que, a passos largos, amplia sua fragilidade na economia internacional, sua dependência em relação aos países do centro e a perversividade sobre os níveis de emprego, renda e pobreza.

Levando em conta a expressividade da quarta forma de dependência nas relações econômicas internacionais e na caracterização do tipo de desenvolvimento que se opera na periferia do sistema em tempos atuais e, para além disso, que a predominância desta forma não exclui a presença de elementos referentes às outras formas – as quais acabam por se consolidar como elementos estruturais de ditas economias – pode-se afirmar, à luz do que expõe Marini e os demais autores vinculados à teoria marxista da dependência, há um claro direcionamento das economias subdesenvolvidas e periféricas rumo ao aprofundamento de sua característica dependente. O mero surgimento de novas formas de dependência é a mais forte expressão disto: o capitalismo, no centro sistêmico, é reinventado, numa conjugação de velhos e novos instrumentos, para permitir que o capital mantenha sua expansão e reprodução. E, na medida em que essa reprodução pressupõe a manutenção das relações de dependência centro-periferia, novas formas de dependência são criadas para impedir que o ciclo reprodutivo do capital se rompa.

Assim, são reforçadas as características do mundo subdesenvolvido: restrição ao crescimento, fragilidade financeira, vulnerabilidade externa e concentração da renda e da riqueza. A intensidade desses fatores acaba oferecendo ao capital um ambiente propício à sua acumulação, composto por um misto de trabalho barato e abundante, tecnologia capital- intensiva e de elevadas taxas de juros. A combinação desses elementos não só resulta na já referida transferência de valor da periferia para o centro – um dos pontos característicos da situação de dependência -, mas reforça também as possibilidades de uma exploração cada vez maior do trabalho. Com a interrupção do processo de acumulação de capital interno e de sua realização, provocada pela transferência de valor para o centro, os meios compensatórios vistos pelos capitalistas da periferia para compensar a transferência de valor, e permitir a realização interna do capital, repousam exatamente sobre a maior exploração do trabalho – ou aquilo que Marini chamou de superexploração da força de trabalho.

Antes, no entanto, de entrar no tratamento do conceito de superexploração da força de trabalho, e de como essa categoria se porta como elemento estrutural das economias periféricas a partir de sua vinculação subordinada ao comércio internacional e de todos os resultantes desse processo – em especial, o reforço do caráter primário-exportador destas economias, o diferencial de produtividade entre centro e periferia, as limitações do mercado interno, o intercâmbio desigual e a deterioração dos termos de troca -, o que a leva a ser a característica da situação de dependência, cabe retomar os preceitos da teoria do valor- trabalho de Marx. A referência a Marx se justifica por três pontos. Primeiro, para compreender de forma detalhada as bases sobre a qual a teoria fundamentada por Marini foi estruturada. Segundo, para entender uma série de conceitos e categorias definidos por Marx, e utilizados amplamente por Marini. E por fim, e mais importante, para elucidar as diferenças entre o que é a exploração do trabalho em Marx e o que é o conceito de superexploração da força de trabalho dado por Marini – diferenças essas que são controversas e polêmicas, mas nem por isso deixam de ter uma fundamentação lógica, sem que se adentre em paradoxos e contradições entre os citados autores.