• Sonuç bulunamadı

YILDA KLĠNĠĞĠMĠZDE TAKĠP EDĠLEN MYCOSĠS FUNGOĠDES VAKALARININ RETROSPEKTĠF DEĞERLENDĠRĠLMESĠ

A partir da primeira metade do século XX, percebemos investigações sobre Sinésio de Cirene centradas predominantemente nos pares antagônicos romanos versus bárbaros e cristãos versus não-cristãos e enviesadas à restituição histórica dos acontecimentos no cenário político de Constantinopla a partir dos discursos de Sinésio em análise26.

26 É difícil estabelecer os parâmetros a partir dos quais os historiadores se apoiaram para elaborar sua compreensão histórica, uma vez que as publicações de um mesmo pesquisador se diferenciam entre si, mesmo em uma única obra podemos notar mudanças de foco: ainda assim, evidenciamos, na bibliografia consultada, reminiscências de abordagens assentadas nos referidos pares antagônicos.

Assim, salientamos, no contexto da historiografia anglo-americana, as reflexões de Charles Henry Coster27, (1960) para quem os pares antagônicos cristãos versus pagãos, bem como romanos versus bárbaros perfizeram os temas centrais das obras sinesianas. No que diz respeito aos aspectos religiosos, Coster declara:

A civilização que proclamou a eternidade de Roma não poderia sobreviver o triunfo da religião que inspirou A cidade de Deus (...) Papas sucederam os Césares, os quais assumiram o

venerável título de Pontifex Maximus (...) A civilização clássica,

com efeito, morreu, mas não sem herdeiros para receber

consideráveis porções de seus bens. A herança foi transmitida à Europa da mais recente Idade Média por meio de dois canais: (...) primeiro, cultura consciente, através da continuidade da vida cotidiana e hábitos das pessoas (...) O segundo meio de transmissão (...) era a Igreja. (COSTER, 1960, p.290, grifo nosso)

Observa-se, a partir desse fragmento, que os cristãos, na concepção de Coster, eram dotados de um conjunto de valores e concepções contrastantes com a cultura clássica greco-romana, o que redundou na debilidade do Império, no momento em que o cristianismo se dissemina e se torna a religião oficial do Império. Coster adiciona outro fator importante para compreender esse contexto de desagregação das estruturas político-administrativas imperiais:

As invasões bárbaras (...) foram inquestionavelmente uma das grandes causas da destruição da civilização clássica (...) Além disso, embora estas invasões compartilhassem com o

Cristianismo a responsabilidade para a destruição da civilização clássica, eles também conduziram muitos membros

da aristocracia senatorial, naquele momento o chefe depositário da cultura clássica no Ocidente, a assumir posições de liderança na Igreja, aumentando, assim, o desejo da Igreja em assumir seu novo papel e em sua capacidade de fazer (COSTER, 1960, p.291, grifo nosso).

Assim, os excertos reproduzem uma explicação histórica polarizada em torno da figura dos cristãos e dos chamados bárbaros, na condição de potenciais ameaças à organização político-cultural da civilização clássica, o que, a nosso ver, oferece uma compreensão simplificadora das relações interpessoais na sociedade romana oriental tardia. Em Synesius, a curialis of the time of the emperor Arcadius (1968), o historiador reforça esse

27 As primeiras publicações de Coster datam de 1941, na revista Byzantion, por isso o inserimos primeiro.

posicionamento a partir de extratos de De Regno, no interior do qual Coster assevera que os bárbaros deveriam ser excluídos, disse Sinésio, não somente dos exércitos, mas das mais altas magistraturas e do concílio imperial (1968, p.160).

Tal iniciativa colaboraria para a manutenção da unidade político- administrativa do Império Romano, ameaçada pelo ingresso dos bárbaros nas magistraturas civis e militares. Visto por esse ângulo, De Regno converte-se em um discurso antibárbaro, que, entre outros aspectos, defende a desbarbarização do exército e apresenta-se como discurso de elogio a Aureliano, prefeito de Constantinopla em 399. Assim, Sinésio torna-se porta- voz da política antibárbara de Aureliano e Aureliano, porta-voz de grande parte dos curiales (COSTER, 1968, p.167).

Adicionado a isso, Coster defende que Sinésio, ao veicular suas lamentações e críticas em De Regno, torna-se especificamente porta-voz do ordo no qual está inserido, ou seja, dos curialis. Assim, na visão do autor, a leitura de De Regno não só nos permite compreender a maneira como um decurião do norte da África, em Constantinopla, avaliava as práticas políticas da corte imperial, mas também sinaliza quais eram, no final do IV século, as atribuições de um embaixador provincial.

No entanto, de acordo com Barros (2009, p.554), por exemplo, estudos de História Demográfica sugerem que essa ótica maniqueísta que concebe os bárbaros como selvagens destemidos e ameaçadores da estabilidade político- administrativa do Império em oposição aos romanos, virtuosos e mantenedores da ordem social, deve ser repensada. Para ele, o principal alvo de crítica desses estudos versa sobre a expressão invasões bárbaras, visto que a movimentação de povos germânicos, entre outros, no Império ocorreu de diversas formas para dentro (...) e por dentro do Império, o que não permite falar apenas, taxativamente, de invasões visigodas, ou também de invasões bárbaras. (2009, p.557) Isso seria, para o estudioso, uma espécie de generalização.

No contexto da historiografia francesa, o historiador Christian Lacombrade, em sua tese, intitulada Sinésio de Cirene: heleno e cristão (1951), traduz De Regno e, em seguida, faz comentários críticos à obra. O autor enfatiza os elementos literários interdiscursivos que podem ter colaborado para

que Sinésio construísse um programa de governo, endereçado ao imperador e focado na figura do bom governante (LACOMBRADE, 1951, p.21). Adicionado a isso, tal como Coster (1968), Lacombrade perpetua a defesa de um discurso antibárbaro, especificamente em De Regno, obra com a qual trabalha, pois os méritos de Sinésio consistem em (...) denunciar esta política fatal de resignação aos godos (1951, p.124).

Todavia, o historiador francês se concentra na tentativa de reconstrução do desenvolvimento intelectual e religioso de Sinésio, que se situa em um momento da tensão da transição de um Império não-cristão para um Império cristianizado. Sob essa ótica, Sinésio torna-se um representante de uma tendência universal: a conversão das aristocracias romanas ao cristianismo. Dito de outro modo, Sinésio e suas obras são concebidos no interior de uma disputa filosófica e religiosa, protagonizada pelo cirenaico.

Ressaltamos que o enfoque de tais pesquisadores sobre o embate religioso e a gradativa aceitação de Sinésio perante o cristianismo seja mais produto do olhar contemporâneo sobre o passado do que sobre a maneira como os próprios romanos tardios administravam as diferentes vertentes religiosas. Essa perspectiva analítica, de certa forma, simplifica a análise documental, porquanto não valoriza, a nosso ver, as informações que colaboram para a compreensão do envolvimento político que os decuriões estabeleciam no âmbito municipal e provincial e as estratégias de construção de uma imagem de si que os legitimassem no cenário político-administrativo local.

Em geral, percebemos que as fontes históricas de Sinésio não deixaram de se acomodar a uma narrativa histórica linear e binária, que contribuía para justificar o processo de fragmentação política do Império Romano oriental a partir do final do IV século. Trata-se de uma narrativa assentada em jogos de oposições, impregnada, a nosso ver, de juízos de valor os quais estão dispersos, particularmente no vínculo entre os fatos. Quanto a esse aspecto, Finley declara que o estudo e a escrita da História é, no limite, uma forma de ideologia. Ideologia entendida como a maneira de pensar característica de uma categoria social ou indivíduo (Shorter Oxford English Dictionary apud FINLEY, 1977, p.132). O historiador faz uma objeção ao dizer que historiadores

apresentam singularidades, logo não podemos colocá-los no mesmo plano: sempre haverá especificidades.

A crítica à abordagem que privilegia as dicotomias religiosas e genealógicas, nas obras de Sinésio, é marcada, na historiografia germânica, pelos estudos de Kurt Treu (1958, p.26) o qual assevera que não se sabe se Sinésio, em suas obras, especialmente, Dion, sobre o discurso de si mesmo, manteve um ponto de vista cristão ou não, uma vez que há poucas evidências lingüísticas e as que existem são ambíguas. Por exemplo, o termo sphragis - selo – tornou-se um termo comum nas fontes cristãs do final do IV século para aludir ao batismo cristão. No entanto, Lacombrade (1951) já havia demonstrado em seus estudos que o referido termo é simplesmente sinônimo de synthema, termo utilizado em fontes caudaicas e órficas que se reporta à passagem da alma no retorno à sua origem divina, ou seja, também uma espécie de batismo. Por essa razão, não se pode credenciar Sinésio ao chamado paganismo ou cristianismo por intermédio de determinados vocábulos impressos na fonte. No limite, Treu nos chama atenção para fluidez dos vocábulos como aportes teórico-metodológicos que nos levaria à compreensão da afinidade religiosa do cirenaico.

Tal perspectiva é seguida pelo historiador Jay Bregman (1982). Embora o estudioso esteja mais preocupado com o processo de conversão de Sinésio de Cirene ao cristianismo, ele reconhece a relação mútua de solidariedade entre o chamado helenismo e o cristianismo, como se observa a seguir:

(...) ao exagerar a importância do conflito entre Helenismo e Cristianismo, historiadores tem distorcido a realidade do IV século (...) os conflitos intrarreligiosos mais importantes: cristãos ortodoxos contra heréticos; antigos helenos contra dissidentes helenos tal como Temístio. O ambiente social de Constantinopla permitiu homens ser helenos e cristãos quase simultaneamente. (BREGMAN, 1982, p. 46)

Ao defender esse intercâmbio cultural, o pesquisador sustenta que a aceitação de Sinésio está associada a uma decisão política, porquanto a religião estatal de Constantinopla é o cristianismo e tal aspecto cultural surtiu significativos efeitos no processo de cristianização das aristocracias do Oriente (BREGMAN, 1982, p.44).

Vê-se, novamente, as questões relacionadas à religião presentes, porém a partir de outro enfoque, pois Sinésio torna-se uma figura singular por ter pertencido aos dois grupos religiosos. A tese do autor consiste em esboçar a natureza da conversão de Sinésio, a qual passou por duas etapas: a primeira versa sobre a conversão à filosofia neoplatônica de Porfírio que possibilitou, por sua vez, a conversão ao cristianismo. Em outras palavras, a filosofia foi meramente uma propedêutica para a conversão de Sinésio ao cristianismo, cujo motor, para o autor, foram suas pretensões políticas.

De maneira mais específica, o estudioso demonstra que, desde a publicação de De Providentia, Sinésio estabelecia ligações amigáveis com importantes cristãos ortodoxos em Constantinopla, o que já sinalizava suas inclinações político-religiosas; já em De Regno ele sublinha a necessidade de decisões políticas antigóticas na corte, abordagem que ainda concebe a aceitação dos grupos germânicos como ameaça à unidade política do Império (BREGMAN, 1982, p.50).

Nas décadas de 80 e 90, as investigações sobre De Regno e De Providentia foram marcadas pela associação das alegorias utilizadas por Sinésio aos eventos históricos de Constantinopla em cena no final do IV século. Sob essa perspectiva, os discursos de elogio e aconselhamento ao imperador são reconhecidos como fontes históricas indispensáveis à compreensão histórica do período. Observamos, por exemplo, a tendência, entre os especialistas em Sinésio de Cirene, em associar as alegorias28 de Osíris e Tifo, em De Providentia, a líderes políticos de Constantinopla, ou seja, a um referente que conferisse inteligibilidade à narrativa ao inseri-la em um contexto histórico determinado. Quanto a De Regno, as especulações versam sobre o grupo político a que Sinésio se dirige e critica. Trata-se de uma tentativa de referendar os discursos em um contexto político-cultural pré- determinado, sem o qual o texto permanece enigmático, tendência com a qual não compartilhamos em absoluto por causa da vulnerabilidade das análises, consoante demonstraremos.

28 Para João Adolfo Hansen, retoricamente, a alegoria é uma metáfora continuada que diz b para

significar a, baseando-se numa relação de semelhança entre b e a: “O navio do Estado atravessa mares perigosos”, quer dizer: O governo da república atravessa fase crítica. (2006, p. 223)

A fim de que compreendamos os itinerários das análise de estudiosos preocupados em associar as alegorias a líderes políticos de Constantinopla, apresentaremos sucintamente os principais atores políticos e acontecimentos históricos de Constantinopla entre 397 e 402, os quais são retratados por historiadores tardo-antigos, tais como o sofista Eunápio de Sardes (345-420), em História Universal, que narra os acontecimentos históricos entre aproximadamente 270 e 404, da qual nos restam apenas fragmentos reunidos por Blockley (1983) em The fragmentary Classicising Historians of the Later Roman Empire, o bispo João Crisóstomo (344/354-407), cujas cartas e homilias nos oferecem indícios das dissensões políticas de Constantinopla; o rétor e senador grego, Temístio (317 – 388), que, por meio de suas Orações, oferece-nos importantes desdobramentos políticos do Senado em Constantinopla; o historiador da Igreja, Sócrates (380-440), que prosseguiu com a História da Igreja de Eusébio de Cesareia até meados de 439; Sozómeno que também escreve a História da Igreja, de 324 a 425, de maneira totalmente independente de Sócrates e, por fim, Sósimo, que escreveu sua História Nova em aproximadamente 500.

Assim, de acordo com a historiografia antiga, o Império Romano do Oriente assiste, entre 395 e 398, a um cenário de intensas incursões bárbaras, haja vista as investidas do godo Alarico sobre a Grécia, ao mesmo tempo em que os hunos devastavam grande parte da Ásia Menor. Em 397, o regente do Ocidente, Estílico, voluntariou-se a ajudar o Oriente a combater Alarico e conduziu parte do exército ocidental em direção à Grécia, sem a autorização do regente do Oriente, Eutrópio, que o considerou uma ameaça e o declarou inimigo público junto ao senado de Constantinopla (SÓSIMO, V.11 e EUNÁPIO, 66.2). Possivelmente para minimizar a atuação de Estílico, Eutrópio estabelece um acordo diplomático com Alarico e se volta apenas contra os hunos.

A estratégia utilizada por Eutrópio para apaziguar a iniciativa de Alarico consistiu em oferecer ao godo a posição oficial de comandante militar em Illyricum, com o controle não só sobre suas tropas, mas também sobre as tropas regulares, armamentos e sobre a jurisdição dos civis. Sem experiência militar e a despeito de experientes generais romanos a serviço do Império, Gainas e Eugênio, Eutrópio investe contra os hunos e os derrota. Por essa

vitória, foi-lhe outorgado o título de cônsul em 399. Neste ano, Euticiano ocupava o cargo de prefeito pretoriano de Constantinopla. De acordo com Liebeschuetz (1990, p. 100), o reconhecimento e as honras dirigidas a Eutrópio desagradaram os generais romanos Tribigildo e Gainas. Tribigildo, em particular, iniciou uma série de ataques às regiões da Frígia e Lídia o que levou Eutrópio a reunir um exército em larga escala comandado pelo godo Gainas e seu subordinado Leo.

Província romana, Illyricum

Enquanto as tropas regulares de Leo foram se confrontar com os rebeldes na Ásia, as tropas federadas de Gainas posicionaram-se nas proximidades do Helesponto no lado europeu, caso Tribigildo quisesse atravessar a região (Soz. V. 14). Leo é derrotado por Tribigildo, o que fortaleceu inevitavelmente a influência de Gainas. De acordo com Liebeschuetz (1990, p.104), a queda de Leo também representou a queda de Eutrópio e Euticiano, porquanto Gainas envia um ultimatum ao imperador Arcádio, alegando que poria fim ao motim liderado por Tribigildo apenas se Eutrópio se entregasse a ele. Para Sósimo (V.17.5), Gainas foi movido pela insatisfação em presenciar o reconhecimento e a aquisição de ofícios públicos de Eutrópio, os quais foram negados a ele. Depois de estabelecer o acordo com o imperador Arcádio, Gainas dirige-se a Frígia, onde entra em acordo com Tribigildo, que passa a obedecer suas ordens.

A destituição de Eutrópio e seus colaboradores, em aproximadamente 1.01.399, possibilita a emersão de Aureliano no cenário político, precisamente em agosto de 399, momento em que se torna prefeito do Oriente, embora seu cargo político veja-se ameaçado meses depois (CAMERON & LONG, 1993, p.102). Após saquear Sardes, Gainas novamente solicita a Arcádio mais uma

negociação em Cálcedo; o imperador atende à convocação e aceita as novas exigências de Gainas que consiste em destituir o prefeito Aureliano e os veteranos generais Saturnino e João, um jovem amigo da corte da imperatriz Eudóxia (SOZ. V. 23). Liebeschuetz (1990, p. 109) ainda sustenta que um dos motivos que levaram Gainas ao afastamento de Aureliano teria sido o medo de traição, porquanto partia do pressuposto de que Aureliano fortalecia as unidades regulares do exército com a finalidade de aniquilar os germanos, tal como Sinésio sugeria em De Regno e De Providentia. Para Liebeschuetz (1990, p. 118), com base no Código Teodosiano, Aureliano é substituído novamente por Euticiano e este permanece no cargo até a destituição de Gainas.

Após o exílio de Aureliano, Saturnino e João, Gainas torna-se o comandante da infantaria e cavalaria e passa a comandar não só seus próprios federados, mas todas as forças militares de Constantinopla. Parte de suas tropas situavam-se na capital do Império oriental, local em que passou a residir a partir de aproximadamente novembro de 399. Sósimo (V. 19), Sozómeno (VIII. 4) e Sinésio (De Prov. 2.2) relatam que havia certo desconforto da população no que diz respeito à permanência de soldados germanos em Constantinopla. Tais historiadores antigos, no entanto, não estão de acordo quanto ao acontecimento histórico que instigou a sublevação contra os aliados de Gainas e que resultou na expulsão dos godos de Constantinopla.

Na versão dos historiadores eclesiásticos, o motim, que data de 12.07.400, começou com a intervenção de soldados romanos, no portão da cidade, não permitindo a saída de germanos portadores de armamentos, para além dos limites da cidade; Sinésio, por sua vez, declara que o motim representa um desdobramento de uma briga entre um germano e uma senhora mendiga. Para Liebeschuetz (1990, p.115), Sinésio era testemunha e inclui mais detalhes que são mais bem explicados (...) Sinésio simplesmente relatou o que ele sabia que tivesse acontecido. Neste momento, de acordo com o Código Teodosiano (I.34.I), Euticiano foi substituído novamente por Cesário antes de dezembro de 400.

Após o incidente, os germanos são expulsos de Constantinopla; não são, porém, derrotados. O imperador Arcádio elege o general Fravita para persegui-los e derrotá-los, porém, ao atravessar o Danúbio, Gainas e suas

tropas foram derrotados por Uldino, um rei huno aliado do Império que controlava o território do norte do Danúbio. A cabeça de Gainas foi exposta em Constantinopla provavelmente em janeiro ou fevereiro de 401 (LIEBESCHUETZ, 1990, p.119).

Na tentativa de compreender a dinâmica desses acontecimentos históricos a partir de De Regno e De Providentia, evidenciamos a investigação do historiador T. D. Barnes (1986, p. 93-112) cuja preocupação versa sobre o estabelecimento do período em que Sinésio permaneceu em Constantinopla e a avaliação de sua posição social e política em relação ao imperador Arcádio e sua corte. Nesse aspecto, Barnes (1986, p. 108) sustenta que a tese central de De regno consiste em afirmar que Arcádio precisa da filosofia a fim de se tornar um bom imperador e socorrer o Império Romano dos perigos que o circundam; entre os perigos, o pesquisador denuncia a presença de ministros e cortesãos bajuladores e a deslealdade dos bárbaros. O pesquisador reconhece, então, que Sinésio recupera a importância dos conselheiros do imperador e alude à imagem do rei-filósofo, também proclamada por Temístio e Libânio. Como se observa, Barnes (1986,p.94-5) vê em Sinésio um intelectual comprometido com o fortalecimento do poder imperial, já que reforça a concepção de bom monarca atribuída ao imperador Arcádio.

Em De Providentia, particularmente, o pesquisador declara que essa fonte apresenta, de maneira alegórica, representantes das duas facções antagônicas que oscilavam na administração imperial, de tal forma que se torna possível correlacionar Osíris e Tifo, figuras do mito egípcio, a Aureliano e Eutrópio, líderes políticos de facções distintas que oscilavam na administração de Constantinopla entre 397 e 399, como relatamos.

As duas facções a que Sinésio se refere apresentam os seguintes posicionamentos políticos: o primeiro, antibárbaro, representado por Aureliano, com quem Sinésio simpatizava; e o segundo, pró-bárbaro, representado por Eutrópio. Assim, a principal lamentação de Sinésio, para o pesquisador, diz respeito à maneira como Eutrópio conduzia o poder imperial e o principal alvo de crítica se direciona à política de conciliação de Eutrópio com os bárbaros, a qual é responsável, de acordo com a leitura que Barnes faz de Sinésio, pela fragmentação da unidade político-administrativa do Império.

Com a morte do eunuco Eutrópio, Cesário passou a representá-lo e a concorrer ao posto de prefeito pretoriano de Constantinopla o que simbolizava uma ameaça a Aureliano. Diante desse cenário, Barnes (1986, p. 102-3)

Benzer Belgeler