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Kitlesel Açık Çevrimiçi Dersleri Üzerine Literatür Taraması Çalışması

Segundo Schmitt, o político é uma relação concreta caracterizada pela heterogeneidade e pelo conflito. Nestes termos, o político possui fenomenologicamente sua origem na contingência da ordem, poder-se-ia dizer numa in-finitude entre crise e decisão. A decisão, porém, possui um caráter inédito em relação ao texto Politische Theologie: decide-se sobre o inimigo a ser combatido e não sobre as condições fáticas para a realização do direito. Neste caso, porém, a ênfase não recai sobre a decisão nem mesmo sobre o inimigo, mas sim no caráter construtivo da identidade e da unidade política a partir da relação polêmica. O político, como já destacado, parte de uma situação marcada pela polemicidade uma vez que o inimigo concreto, ou melhor, a relação polêmica é estabelecida por meio da exclusão e da diferença. O factum brutum do político como hostilidade originária entre amigos e inimigos é portanto a distinção peculiar do político.

Em relação ao par conceitual amigo-inimigo, Schmitt utiliza-se de uma distinção trazida por Platão na República entre polémios e echthròs que se refere no texto clássico à distinção entre a guerra externa entre grego e bárbaros (polémios) e a guerra interna entre gregos considerados como iguais. Para Platão, não poderia ser de outro modo, pois a diferença e exclusão é objetiva a partir de um fundamento ontológico, já que a guerra contra o inimigo seria considerada justificada moralmente e, portanto, articularia ontologia, política e conflito desde a origem (Ursprung). Em Schmitt, obviamente, não há fundamento ontológico, muito menos um fundamento moral para vincular guerra e política, mas apenas uma co-implicação originária a

168 Ao analisar as transformações ocorridas no conceito de inimigo desde a constituição do jus

publicum Eurapaeum até a Guerra fria, Schmitt afirma no Prefácio de 1963 ao Der Begriff des Politischen que é necessário prosseguir na investigação sobre o conceito de inimigo e de guerra, pois no tipo de guerra atual "brechen allen Begriffsachsen, die das überkommene System der Begrenzung und Hegung des Krieges bisher getragen haben. Der Kalten Krieg spottet aller klassischen Unterscheidungen von Krieg und Frieden und Neutralität, von Politik und Wirtschaft, Militär und Zivil, Kombatanten und Nicht-Kombattanten – nur nicht der Unterscheidung von Freund und Feind, deren Folgerichtigkeit seinen Ursprung und sein Wesen ausmacht" BP, p. 18.

partir da estrutrura existencial de uma contingência marcada pelo conflito ineliminável. Na verdade, o ascendente desta relação pode ser encontrado em Hobbes com sua formulação moderna do nexo entre soberania e guerra.

Para Schmitt, portanto, é necessário lutar contra o inimigo, porém não se pode considerá-lo como hors-de-la-loi ou hors-de-la-humanité, uma vez que, em última instância, o inimigo é ineliminável, pois não se pode perdê-lo ou destruí-lo sem perder-se e destruir-se a si mesmo. A formação da identidade de um "nós" se dá na medida do "eles", ou seja, mediante diferença. O inimigo é existencialmente distinto e estranho, diferente da forma de vida autóctone e, por isso, heterogêneo, contra quem o conflito é possível. Nesse sentido, a distinção fundamental da política marca o grau de intensidade da associação ou dissociação de uma unidade a ponto tal que não é possível política sem inimigo atual ou possível. É necessário lutar existencialmente contra um inimigo para encontrar a própria medida, em outras palavras, ao descobrir a diferença do outro, nomeá-lo como estranho e decidir pelo conflito, descobre-se a si mesmo em unicidade e politicidade, o outro modo de ser contraposto ao modo de ser de uma unidade política, pois "cada um deles só pode decidir ele próprio se o caráter diferente do desconhecido significa, no existente caso concreto de conflito, a negação do próprio tipo de existência e, por isso, se será

repelido ou combatido a fim de resguardar o próprio tipo e vida que dá a medida"169,

o que signfica que a decisão não é orientada normativamente.

O inimigo, assim, é sempre hostis e nunca inimicus, ou seja, o estatuto político do inimigo é de um inimigo público, no caso, uma outra unidade política, isto

é, um outro Estado e não o adversário privado, concorrente comercial ou o infiel170.

Desta maneira, a distinção especificamente política refere-se a hostis e não a

inimicus: aquele se combate, este se odeia; o primeiro é polémios; o segundo, echthròs, ou seja, quer a violência declarada, quer o combate regulado, é necessário

169 BP, p. 27: "Den extremen Konfliktsfall können nur die Beteiligten selbst unter sich ausmachen;

namentlich kann jeder von ihnen nur selbst entscheiden, ob das Anderssein des Fremden im konkret vorliegenden Konfliktsfalle die Negation der eigenen Art Existenz bedeutet und deshalb abgewehrt oder bekämpft wird, um die eigene, seinsmäßige Art und Leben zu bewahren".

170 Para Hegel, o inimigo é a diferença ética enquanto negação do estranho em sua totalidade, pois,

conforme trecho de Hegel citado por Schmitt, BP, p. 62: "eine solche Differenz ist der Feind, und die Differenz, in Beziehung gesetzt, ist zugleich als ihr Gegenteil des Seins der Gegensätze, als das Nichts des Feindes, und dies Nichts auf beiden Seiten gleichmäßig ist die Gefahr des Kampfes. Dieser Feind kann für das Sittliche nur ein Feind des Volkes und selbst nur ein Volk sein". Sobre o conceito de hostis e de inimicus, cf. BP, p. 29 et seq. Sobre a relação entre Schmitt e Hegel, por todos cf. KERVÉGAN, 1992, et all.

e suficiente que na situação de inimizade, em caso extremo, os protagonistas se enfrentem como inimigos públicos e, eventualmente, o conflito leve à luta de vida ou morte. Nestes termos, qualquer conflito entre grandezas públicas é um justus bellum e o inimigo um justis hostis, pois a relação amigo-inimigo pressupõe uma definição pública na medida em que a definição schmittiana do politisch torna sinônimos os termos político e polêmico, mas também político e público e, por conseguinte, a definição da inimizade.

Todavia, a ocorrência da criminalização do inimigo rompeu com a tradição do

Jus Publicum Europaeum171 que estabelecera a distinção entre criminoso e inimigo; este teria um status jurídico e não poderia ser objeto de aniquilação porquanto seria o outro, diferente e estranho, em um sentido intenso e existencial, com o qual, em caso extremo, o conflito fosse possível, porém possuidor dos mesmos direitos e equivalentes numa configuração jurídica por meio da qual ao final de uma guerra poder-se-ia acordar paz. Assim, para Schmitt, não é suficiente apenas a distinção entre amigos e inimigos, mas é necessária também a distinção entre paz e guerra e a concreta possibilidade desta, já que as relações de antagonismo entre amigos e inimigos tornam imperativo o enfrentamento do inimigo por motivos político- existenciais: "a guerra decorre da inimizade, pois esta é a negação que dá a medida (seinsmäßige) de um outro ser. A guerra é apenas a realização extrema da inimizade (...) tendo, antes, que permanecer existente como possibilidade real"172. A guerra

para Schmitt é uma espécie de situação-limite a partir da qual se determina a política. É uma espécie de pressuposição sempre presente (vorhandene

Vorausetzung), pois "o político não reside no conflito em si, (...) (mas sim) em um

comportamento determinado por essa possibilidade real na clara compreensão da própria situação assim determinada e na incumbência de distinguir entre amigos e inimigos"173. A partir disso, outra relação que se estabelece de forma inevitável na obra de Schmitt é entre as noções de Krieg (guerra) e de Feind (inimigo). Neste

171 Sobre a criminalização do inimigo, cf. Die Wendung zum diskriminierenden Kriegsbegriff. In: FoP,

pp. 518-597. Contemporaneamente, o desenvolvimento da guerra levou a conceitos de paz e de inimigos totalizantes, cf. TP; "Die Wendung zum totalen Staat". In: PuB, pp. 166-178; "Totaler Feind, totaler Krige, totaler Staat". In: PuB, pp. 268-273.

172 BP, p. 33: "Der Krieg folgt aus der Feindschaft, denn diese ist seinsmäßige Negierung eines

anderen Seins. Krieg ist nur die äußerste Realisierung der Feindschaft (...) wohl aber muß er als reale Möglichkeit vorhanden bleiben, solange der Begriff des Feindes seinen Sinn hat".

173BP, p. 37: "Das Politische liegt nicht im Kampf selbst (...) (sondern) in einem von dieser realen

Möglichkeit bestimmten Verhalten, in der klaren Erkenntnis der eigenen, dadurch bestimmten Situation und in der Aufgabe, Freund und Feind richtig zu unterscheiden".

caso, o conceito de paz não é considerado, segundo Schmitt, como um conceito político, pois pressupõe a eliminação da hostilidades e, dessa forma, a exterminação do inimigo que, porém, sequer mais recebe esta denominação porquanto tornou algo fora da humanidade.

Como consequência da específica categoria política acima apontada, tem-se a impossibilidade da constituição de um Estado mundial, pois, segundo Schmitt, como já descrito, a condição do político necessariamente estabelece uma configuração plural na ordem internacional, isto é, um pluriversum ou invés de um

universum de unidades políticas. Disso decorre que a concepção de pluriversum

político, ou seja, a realidade política internacional é composta por um complexo de unidades políticas soberanas, sendo impraticável, na teoria schmittiana, um Estado, República, Federação ou Império mundial que agrupassem todos os Estados e eliminasse a distinção especificamente política entre amigos e inimigos e a possibilidade da guerra. Caso houvesse um universum, a condição do político seria negada e, quando muito, um tal mundo apolítico se configuraria como uma forma técnico-econômica, mas não governado, muito menos político.

A formação do conceito de inimizade é analisada por Schmitt como argumento através do qual insere o elemento da eventualidade e contingência na política: não é simplesmente uma contraposição objetiva e determinada, nem mesmo basta ser o outro e o estrangeiro para considerá-lo inimigo, mas sim o diferente em um sentido existencial e intenso. Em outras palavras: aquela alteridade que, no caso extremo, representa faticamente a negação do próprio modo de existir e, por isso, torna-se necessário diferir e defender-se com o intuito de preservação de si próprio. Essa perspectiva exclui da exclusão a discriminação moral e a criminalização jurídica: o inimigo não é um conceito tratado através de normas e, enquanto tal, é existencial e político, portanto, não se tem como qualificá-lo moralmente, pois é a decisão sobre o inimigo que constitui a identidade e, por conseguinte, ordena o próprio direito e a própria moral: o diferente é excluído da co- vivência como ato originário da decisão sobre a constituição da identidade, pois o estrangeiro representa a negação do próprio modo de ser o que implica, naturalmente, a necessidade da neutralização de um inimigo e a pacificação da ordem interna. A partir da tese de que só existe identidade política caso haja inimigo público, a determinação da ordem dar-se-á na contingência concreta da exclusão do

inimigo. Assim, a origem da política é um ato de exclusão, pois na mesma medida em que há a exclusão e diferença, há também a constituição do político como unidade e ordem.

Entretanto, o que está em jogo na argumentação schmittiana, ao menos no que se refere ao objeto das investigações realizadas, é que a experiência política está marcada por uma facticidade radical, qual seja, a existência concreta e contingente, pois uma vez que o momento da distinção e da diferença é a origem do político, o inimigo torna-se, paradoxalmente, parte da identidade. Então, torna-se necessário ressaltar que não há o primado do conceito de inimigo e, por isso, é equivocada a interpretação que privilegia o momento da inimizade, pois, a rigor,

Schmitt não inicia seu argumento a partir do inimigo – o inimigo também tem seu

momento interno de consenso – mas da oposição, ou seja, o início do político é a

polêmica que agrupa dois ou mais grupos numa simultânea definição auto-referente interno-externo, amigo-inimigo cuja perspectiva do outro e de si é posta em construção recíproca. Uma teoria do político carregada pelo paradigma do conflito que afirma uma identidade a partir de uma negação dialética entre dissenso e consenso revela-se mais interessante e mais realística do que a hipostasiação da comunicação sem atritos. É, pois, o político como contingência absoluta e

imediatidade conflitiva da presença da identidade diante da oposição – também ela,

é claro, uma identidade – numa relação existencial capaz de criar uma forma de

direito174.