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Kitap ve Kataloglar (Uluslar arası / Ulusal) :

Não é possível entender o conjunto de fotos que configuram o “álbum político” de Maria Luiza sem uma referência ao contexto político no qual ele é produzido. Após a acirrada disputa eleitoral, as fotos anunciam a vitória em gestos espontâneos e legendas signifi- cantes. Estas, referidas ao “nascer de uma estrela” (Foto 2), à “der- rubada de preconceitos” e ao “destino de Fortaleza”, consolidaram a imagem do corpo em movimento: uma vitória partilhada e vibrante.

Após o longo período em que a escolha do prefeito era feita de forma indireta, o resultado eleitoral tinha um duplo sentido de vitó- ria na cidade de Fortaleza: o fim do reinado dos “coronéis”, tradu- zindo uma ruptura, em moldes diferentes, da transição identificada com o PMDB. A sinalização de uma nova imagem política aparece como contraponto da sisudez, da austeridade e do distanciamento como típicos do momento de autoritarismo.

De fato, o riso, além da evidente alegria, aponta para a leveza, com um sentido de proximidade, enfim, valores provenientes do mundo da festa, da arte ou de um espaço designado como popular. O encontro desses referenciais valorativos, expressivos de uma fase da política brasileira, tem nessas circunstâncias um caso tipo-ideal, evidentemente favorecido pelas características pessoais de uma can- didata que portava dotes carismáticos.

Maria Luiza, praticamente inaugura e consolida a presença do sorriso na política cearense, criando uma estética que uni- fica gestos e posturas celebrativas (Foto 4). Estas poderiam ser potencialmente provenientes de outros cenários. Abstraídas as legendas sobre o resultado eleitoral, poder-se-ia pensar as ima- gens fotográficas desse momento como vitória de um concurso de “miss”, exaltação da rainha do carnaval ou porta-bandeira de escola de samba.

O enaltecimento do sorriso e a abertura dos braços rompe a imagem dual da política “para dentro” e “para fora”, dotada, nesse mo- mento, de uma interioridade visível e supostamente acessível a todos. “Faremos uma administração transparente”, dizia a candidata durante a sua campanha.

Não obstante o sentido emergente das fotos, que indica um aspecto unitário, puro e cristalino da vitória, há um acontecimento que remete o leitor ou observador a uma identificação projetiva com o passado: a memória recente dos caminhos do poder local.

Um segundo bloco de fotos apresenta diferentes “momentos críticos”. Há uma visível mudança de humor nas imagens, que su- gere discursos, reflexões, dúvidas ou atitudes de defesa. Em uma das fotos difundidas no jornal, chama a atenção a presença da imagem da “Virgem Maria” (Foto 6), seja como contraponto à outra Maria, seja como um lugar de vigilância e censura.

Embora a presença dessa imagem possa ser explicada como mera contingência, pois a imagem religiosa faz parte do cenário do gabinete, a legenda da foto, “O PT não perdoou os pecados de Ma- ria”, sugere a possibilidade de uma conexão entre as duas marias.

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É importante ressaltar que as fotografias que se propõem a re- gistrar “momentos críticos” apresentam uma imagem que não olha de frente, sugerindo certo ar reflexivo de uma interioridade circuns- tancial pouco evidente.

A existência de polêmicas que permearam a gestão municipal define uma cronologia de humores, que aponta um “antes” e “de- pois”. Esse pode ser um fato comum, que se apresenta na maioria das vidas de representantes políticos em exercício de mandato. Tal- vez em Maria Luiza o contraste se sobressaia no confronto entre o entusiasmo inicial e os problemas cotidianos de uma administração marcada por conflitos permanentes.

As legendas típicas das situações de crise apontam cenas de ataque e defesa: “Maria, pode ser indiciada criminalmente” (Foto 8), “Executiva Estadual expulsa Maria Luiza do Partido dos Traba- lhadores” (foto 6), “Maria em vigília com greve de fome” (Foto 7).

As fotos que sinalizam dimensões da vida íntima ou privada conduzem uma imagem submetida a um olhar constante e curioso. Especulações sobre os “namorados de Maria”, ex-maridos ou aman- tes percorrem os rumores locais de modo muito frequente. Para os conhecedores das histórias da cidade que circularam durante o pe- ríodo de gestão municipal, as fotos são carregadas de sentido, na medida em que seus personagens são também conhecidos. A foto cuja legenda fala do flagrante do “casal do ano” (Foto 9) contraria, em vários sentidos, a imagem convencional do representante político calcado em um modelo masculino. Trata-se de imagem que contraria uma lógica daquilo que é esperado de uma autoridade representante do executivo municipal.

A foto exprime, seja pelo ar clandestino, por uma atitude próxima de práticas mais afeitas ao âmbito popular, ou pela espera cansada do motorista (que se encontra junto do casal), a publicação da imagem conduz à seguinte questão: até onde pode o registro de personalidades políticas ignorar a teatralidade imposta pelo cargos arriscando a contribuir para uma perda de credibilidade?

As fotos iniciais, referentes às “cenas românticas do Paço” (Foto 10), radicalizam, de forma mais nítida, a dupla condição da vida afetiva e política. Nas situações de greve de fome, o beijo “desfaz” a natureza da contestação em um lugar, o Paço Munici- pal, no qual se supunha que o papel político “deveria” se projetar plenamente. É como se o beijo, ali, negasse a seriedade exigida do comportamento político; assim, aquele joga a prefeita para o cenário “mundano”, tirando-a “do sério”. A foto apresenta a du- alidade de papéis sociais em um trânsito paradoxal, envolvendo significantes de uma performance que transita entre o popular, o feminino e o político.

A ideia de um epílogo da administração municipal, configurado por meio de registros fotográficos afirma uma cronologia simbólica, que sugere um antes entusiasmado, seguido de um depois decep- cionante. A legenda das fotos associada à comparabilidade dos dois momentos (início e fim) aponta esse percurso de forma nítida.

O conjunto de fotografias reunidas como uma série dá pos- sibilidade de uma discussão aprofundada sobre a relação entre fo- tografia jornalística e sentidos culturais e políticos. Valores sobre os arquétipos do feminino, ao lado dos estereótipos da esquerda confluem para os elementos mais significativos de elaboração da imagem da prefeita presentes em desenhos e charges.

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Foto 1 – Título da notícia: “Prefeita promete não abortar administração”. Subtítulo: Ela quer fazer do projeto na prefeitura um filho sadio.

Fonte: Matéria retirada do jornal O Povo, em 22 de janeiro de 1986.18

18 Todas as imagens desta seção foram extraídas de domínio público, desde o acervo do

jornal O Povo, até sites com acesso público. Abaixo de cada imagem, está especificada a respectiva fonte.

Estamos gestando uma administração muito bela para essa ci- dade e nada fará com que ela seja abortada. Já basta de tanta violência contra a mulher. Esse filho será alimentado com leite puro das mulheres corajosas desta cidade (declaração de Maria Luiza feita na Praça José de Alencar, reproduzida no Jornal O

Povo, 22 jan. 1986).

Quando ganhei a eleição – disse Maria Luiza – uma mulher me falou: foi gestada no Ceará uma criança que nasceu no útero de uma mulher muito forte (Jornal do Brasil, extra Especial, elei- ções 1985 – reportagem “Vixe Maria”, dezembro, nº 2).